sábado, 27 de setembro de 2025

UMA TENTATIVA DE EXPLICAÇÃO DO INEXPLICÁVEL

 O que o Partido CHEGA representa é ambíguo e confuso, como em todas os exercícios onde se tenta definir contornos ideológicos a uma mera dinâmica de ambições e oportunismo. Mas o que é está descaradamente à vista: gente sem princípios nem educação, ressentidos que se manifestam aos berros e com insultos, instalando-se na assembleia como, dizia a minha saudosa mãe, "vilão em casa de seu sogro". 

O fascismo e o nazismo eram guiados por uma weltanschauung, insana, fracturante, opressiva, mas, ainda assim, uma visão do mundo que, à época, atraiu filósofos ainda hoje estudados, como o sinistro e brilhante Heidegger, ou investigadores com uma obra científica importante (e, já agora, merecedora do Prémio Nobel), como Konrad Lorenz. Eram pessoas ética e politicamente más, ou distorcidas, crendo em uma ideologia ignara, mas logicamente consistente. 

Tanto não poderíamos dizer dos membros do CHEGA. Reaccionários, claro, com referências e heranças que se dispersam, desde mal digeridas citações de Salazar, até doutrinas indiscutivelmente nazis, amassadas num fervor de claques de futebol e no espírito do marketing, dos tic tocs, das fake news, da simplificação extrema e da repetição contínua das mensagens. Claro que parte do nazismo alemão já era isso: as hordas, os ressentidos violentos, as tropas brutais. Uma anti-cultura, uma anti-inteligência. 

Seria quase impossível que, num partido onde as lutas internas, as invejas e as traições, mas, sobretudo, ressentimentos opostos e confusos, se movem, não transparecessem, para o exterior, erros de decisão. E isto sem ignorar a eficácia da sua propaganda. Mas os disparates e os tiros nos pés são tão constantes, que se torna um study case compreender por que razão não parecem afectar negativamente o seu eleitorado, fazer pensar duas vezes, levar a um recuo ou a uma hesitação entre os fiéis. 

A resposta fácil e mais vulgarizada tem sido: porque o saco em que o partido faz as suas conversões é o de gente sem instrução e sem horizontes, sem espírito crítico e, por isso, manipulável. Sem dúvida, trata-se de uma razão: quando se constrói um ídolo e se dissemina uma fé, os pés de barro são ardilosamente explicados; quando se defende uma máquina que divide um povo entre os nossos e os inimigos, as críticas e as denúncias proviriam necessariamente de inimigos e, portanto, nunca ultrapassam um viés mental: é tudo mentira, o que eles querem sabemos nós, ou, admitindo que se instale alguma dúvida, nunca a dúvida ganhará o peso de um problema acutilante, corrosivo e desagregador, uma vez que, em última análise - dirão -, os outros fizeram muito pior, foram mais corruptos e maldosos, e foram-no ao longo de cinquenta anos. 

Diria que há dois conceitos da psicologia que ajudam a entender a persistência da fé, apesar de uma realidade provocadora, que insiste em a desmentir sistematicamente. 

Um é o conceito de pertença: quando os seguidores são, em geral, deserdados e desfavorecidos, frustrados, os que já não têm esperança e odeiam a sua vida (a qual representam sob a forma de "o sistema"), nada pode abater a emoção de se sentirem ligados a um grupo, uma espécie de vencidos da vida, sem o talento dos originais vencidos da vida, que se unem para um derradeiro combate. "Agora vão ouvir-nos: aos nossos medos, aos nossos falhanços, à nossa raiva". 

O outro é a dissonância cognitiva. O mecanismo que permite separar, em esferas diferentes, desconectadas entre si, experiências e crenças que, conjugadas, levariam ao colapso daquilo em que acredito. Posso amar os animais, e apreciar um espectáculo de tourada, como se não existisse qualquer contradição. Posso crer em Deus, e fazer do roubo e da violência o meu modo de vida, ou crer numa profecia que não se verifica, sem pôr em causa as fontes da profecia. Posso ter conhecimento das burrices e dos vícios de deputados do CHEGA, e continuar a pensar que, nas suas mãos, o país, um dia, sairá do que tomei como "a miséria e a corrupção em que tem vivido desde o 25 de Abril".

domingo, 14 de setembro de 2025

UMA SUBIDA ANUNCIADA

Do partido do dr. Ventura, André, há duas particularidades a reter: que é um compósito do pior da idiossincrasia portuguesa e que o pior da idiosincrasia portuguesa se revela eficaz no país dos portugueses.

Para começar, trata-se de um "partido de protesto": traduzindo isso para a língua da realidade, significa que cresceu como o ponto de encontro dos ressentidos: os que nunca ninguém levou a sério na política porque eram pouco instruídos, ou porque sacaram uns cursos "inclusivos", em que Portugal se tornou pródigo para, em teoria, oferecer a todos as mesmas oportunidades académicas, enquanto a nova elite estudava em universidades prestigiadas do estrangeiro; os que, provenientes da "província" ou de meios "suburbanos", nunca fariam carreira nos partidos do "sistema", já tomados por aparelhos de universitários que haviam subido nas juventudes partidárias; os pequenos corruptos, sem um discurso ideológica (e moralmente, sobretudo) articulado, que os ajudasse a justificar os seus golpes rasca: furtar malas em aeroportos, caixas de moedas da paróquia, combustível das ambulâncias ou de veículos de bombeiros da agremiação de Bombeiros em que trabalhavam; não pagar impostos ou aldrabar nas declarações. Enfim, isto para dar uma ideia do nível a que nos referimos. 

O 25 de abril criara, por sua vez, milhares de ressentidos. Entre outros, pessoas que retornaram das ex-colónias, com o sonho das grandes paisagens e das praias maravilhosas para que os olhos da memória continuavam a olhar, e de que  se sentiam "despojados", "espoliados": tinham sido traídos; os latifundiários que se escaparam para os brasis, maldizendo comunistas e "esquerdalha"; os eclesiásticos postos em causa nos seus privilégios e na influência sobre o rebanho; e todos os esquecidos do que era o Portugal do Estado Novo, afagando, agora que os filhos podem estudar, a ideia de que antes (quando eles próprios não puderam estudar) era bom, era melhor, havia ordem e segurança. Este é o eleitorado potencial que o Chega despertou e uniu. Este, a que se juntaram, como sempre, os arruaceiros, os jovens estudantes sem objectivo, em idade de votar, que encontram, em Ventura e no seu partido, uma imagem de rebelião com que se identificam: a grosseria, o berrar mais alto, o provocar, o achincalhar, o "é para partir tudo!" - no fundo, o comportamento, entretanto impune e generalizado, que sempre tiveram em aulas, onde viam o professor como o velho que tinham de confrontar e os colegas mais fracos como alvos a perseguir. 

A estratégia do Chega é a não-estratégia de dividir: nós contra os outros (imigrantes, pessoas de esquerda, todos os que questionam o padrão da sexualidade e da identidade de género, por exemplo), e de lançar, sobre esses outros, todas as responsabilidades pela insegurança, pela corrupção, pelos incêndios, pelos males que nos assolam. Acusa-se, deturpa-se, mente-se. As redes são o autêntico poder de condicionamento de mentes menos sofisticadas. 

O que aconteceu recentemente em torno do pretenso festival do hambúrguer, a invenção que foi uma amostra de iliteracia e má-fé, parece exemplar: primeiro, o(correu) a divulgação da notícia falsa; depois, reconhecendo-se o erro, ainda se achou maneira de disparar culpas em todas as direcções: o Presidente fez várias viagens inúteis à custa do erário público (portanto seria fácil crer que se tratava de mais uma); o parlamento escreveu erradamente a palavra, esquecendo o "trema" ("a trema", lamentava-se Rita Matias) e, assim, provocando o equívoco (como se um deputado não tivesse de procurar mais informação, antes de vir para o tic toc); e a estocada final: foi cometido um lapso, de acordo, mas a imprensa, "antidemocraticamente anti-Chega", falou nele "como se tivesse havido um atentado" ou alguma coisa muito grave. 

Dizem que o partido veio subindo nas sondagens, que está à frente da própria AD. 

Há quem se espante?

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

O MISTÉRIO 'CARMEN MOLA'

 Desde Poe e Doyle (ou, se levarmos a sério a tese de Savater, desde, pelo menos, o Antigo Testamento, onde a história da Casta Susana prefigura e já em latência contém as normas do policial) que se foi estabelecendo um modelo de narrativa sobre resolução de crimes. Ingleses e norte-americanos, mais tarde autores franceses, vieram definindo os contornos, e o desafio agarrou e bastou aos leitores; não se pedia mais: um assassino extremamente inteligente, um investigador excêntrico, com miolos ágeis, aplicados à resolução de assassinatos impossíveis, uma mão cheia de suspeitos num ambiente fechado, e duas competições paralelas, que, paradoxalmente, se confundem: uma entre o criminoso e o solucionador de charadas, mas, sobretudo, outra entre o autor e o leitor. Enganei-te? Fui brilhante? Desviei-te a atenção do essencial? Acreditaste que o assassino era o suspeito que tornei mais provável? Ou, antes do fim, já te aperceberas do truque, da manobra, do indício oculto?

Mais tarde vieram os escritores nórdicos de histórias policiais e nada voltou a ser como era: já havia prenúncios, mas nunca a este ponto a introdução, no romance, de uma vida pesada e complexa, de detectives com problemas psicológicos, de alcoolismo, divórcios, tristezas e dramas profundos. Não demorou até que este modo deviesse a nova fórmula, e se digo fórmula também insinuo que acabou por ser a conjugação de alguns clichés.

Isto assente, estamos de férias, um policial lê-se sempre com prazer e dêmos a vez a uma autora espanhola. Mentira, para já. Tal como "Ferrante", também "Carmen Mola" não é real: um truque de magia, um nome vazio, um pseudónimo que se não sabia a quem fazer corresponder, uma operação de 'marketing'. Até que, no segundo volume da trilogia, se veio a saber (informação revelada na badana) que Carmen Mola é o nome sob que se ocultam três autores, escrevendo em conjunto, Antonio Mercero, Agustin Martínez e Jorge Díaz.

Os clichés, diríamos, estão reunidos e prontos a servir: a chefe de uma equipa, que bebe à tarde e à noite, ou faz sexo, no seu jipe, mais raramente no seu apartamento, em Madrid, com engates de bar (onde vai fazer karaoke), enquanto continua em busca do filho raptado há anos, insuportável situação que ditou a separação entre a Inspectora Elena Blanco e o pai do seu filho, que optou por continuar a vida e ser feliz.

E contudo, quando começamos a ler os romances, primeiro 'A Noiva Cigana', depois 'A Rede Púrpura' (e faltar-me-á o terceiro), muito bem escritos, isto é, literariamente exigentes, convincentes, com um toque de crueldade que nos incomoda, mas a que se não resiste, percebemos que os clichés não servem senão para sinalizar e confirmar um género, porque, na verdade, estas narrativas são literatura na verdadeira acepção da palavra, mas também um jogo de inteligência e suspense. Como se os autores nos dissessem: Mesmo com ingredientes de merda, que já viram centenas de vezes e não faltam em nenhuma despensa - até, na verdade, uma criminosa enviada para seduzir um polícia e, no fim, uma vez descoberta, lhe diz: "Pode ter começado como uma manobra, mas, a partir de certa altura, apaixonei-me de facto, fui sincera" -, vejam bem que pratos de luxo somos capazes de cozinhar. 

Carmen Mola, que não é Carmen Mola, oculta três autores que descobriram o método perfeito de trabalhar, a três, como se fossem um, produzindo policiais cultos e intensos.

sexta-feira, 1 de novembro de 2024

UM ABRAÇO AO AMORIM

 

Como sou um sportinguista de coração, mas não de sofrimentos cardíacos, posso apresentar-me na qualidade de um dos raros adeptos do Sporting com o espírito justo para compreender um lado e outro.

Por um lado, como todos os Leões (se é que a denominação me não fica larga), sinto-me triste. Não desesperado, não choroso; não arrepanho cabelos. Não vagueio por túneis de insónia. Mas é verdade que, tendo o meu filho, quando o Sporting perdia mais jogos do que ganhava, aos dez anos, desertado para o FCP (aliciado pelo padrinho), passei a ter de enfrentar mais isoladamente as sucessivas derrotas, a travessia da ditadura de Bruno de Carvalho, a vergonha do ataque a Alcochete. 

A chegada de Rúben Amorim foi, pois, uma revolução benéfica. Em todos os aspectos: as escolhas e os contratos bem feitos, o plano de acção, a construção de uma equipa. A humildade e a retórica exemplares. O Sporting tornou-se no que era. Mesmo um adepto longínquo como eu, amante rendido, sim, mas, ainda assim, longínquo, percebeu o orgulho a bater em si, o prazer, que não conhecia, ou não deste modo, de assistir a um jogo, de ver o Gyökeres a marcar golos ou os rivais eternos a embater num grupo fortíssimo.

Por outro lado, compreendo inteiramente a decisão de Amorim. Direi sempre que se tratou de uma escolha profissional, não ética. Pelo amor de Deus! A fidelidade a um clube de futebol não deve estar submetida a um imperativo categórico, nem o adeus terá consequências que superem o domínio do jogo. Fico impressionado com o que tenho ouvido proclamar: que Amorim se vendeu; que a despedida revela uma falha na sua integridade moral; que é uma traição. 

Só me entristece pensar que talvez o Sporting não encontre ninguém à altura. Que a aura dos últimos tempos se desfaça. Que, porventura, uma época que tão bom início teve, possa não ter a conclusão que prometia.

Mas, se tenho algumas palavras a enviar a Rúben Amorim, são: obrigado por tanto. 

Que me orgulhes, agora, como treinador português a trabalhar "lá fora".

segunda-feira, 19 de agosto de 2024

ALAIN DELON

 Por alguma razão, não me sentiria bem comigo mesmo, ainda na esfera de reverberação da morte do meu irmão, também levado, sofridamente, por um cancro, se não me pronunciasse aqui acerca de Alain Delon.

Existem, de que me tenha apercebido, duas correntes: a dos saudosos, que choram a partida do homem indiscutivelmente bonito e do bom actor (que outros garantem não ter sido assim tão bom, sequer) e a dos indignados, que fazem questão de relembrar o narcisista de extrema-direita, que - não sei se é verdade - teria batido em mulheres, e nunca reconheceu um filho. Como de costume, e não me orgulho, não consigo incluir-me em nenhum dos lados.

Delon não só era bonito, como a sua beleza marcou uma época. Então não me recordo dos suspiros da minha prima Paulinha que, recém entrada na fase pateta da juventude, assistira ao filme 'A Piscina', com um Alain Delon na sua melhor figura e uma fascinante Romy Schneider? Nem todas as belezas marcam desse modo, e os anos 60 não podem ser revisitados sem a pujança do cinema francês, e sem Bardot, Belmondo e Delon, para referir apenas três ícones de uma cultura cinematográfica pop.

Será pouco. Será o elemento superficial. Ou não, porque o ar de um actor ou de uma actriz definem as imitações que os espectadores farão, o modo de vestir, a pose de parte de uma geração. E também disso se faz o espírito e a imagem de um tempo, como as fotografias nos revelam.

Para além disso, discordo dos que afirmam que nunca foi senão um actor mediano ou medíocre. Diria que é um preconceito da mesma ordem dos que subjazem aos homens que, sobre uma mulher bela, insistirão sempre que se trata apenas de uma mulher bela, nunca inteligente ou talentosa. Comunguei desse preconceito, evidentemente. (Em relação a Delon, não a mulheres belas). Até a minha mãe me chamar, um dia, a atenção para a magnífica representação do jovem Alain Delon em 'O Leopardo', de Visconti. Nunca vira o filme. Tive a oportunidade de o fazer: ensinou-me a olhar para o actor com surpresa.

A sua vida pessoal pode ser ignorada ou esquecida? Não pode. Mas, em primeiro lugar, reivindico a separação, como sempre, entre a obra e a pessoa. Os seus filmes valem por si. Muito bons ou medíocres, não podem, não devem ser medidos pelos actos do realizador ou dos actores.

Que fosse de extrema-direita, confunde-me. Uma pessoa sensível e inteligente nunca será de extrema-direita. É o reino da estupidez, do medo e da ausência da inteligência emocional. Que fosse amigo de Le Pen e votante no partido dele e da filha ajusta-se perfeitamente à biografia do homem, que infelizmente foi, homofóbico e sem respeito pelas mulheres. Mas um homem é um homem - miserável, contraditório, com uma visão do mundo, da vida e dos outros, impregnada de vícios, terrores e péssimas escolhas. E se me parece fácil e linear pensar que nunca me daria com ele, razões várias me levam, hoje, a conviver com pessoas que ideologicamente me fazem estremecer.

A um homem que sofreu, que acabou detestando um mundo, a que, sem dúvida, legou alguma coisa muito boa e muita coisa má, ou terrível, e que já só desejava morrer, obviamente em guerra consigo mesmo, podemos perdoar. Não que o meu perdão sirva, ou faça diferença.  Nâo esquecer. Esquecer nada, esquecer nunca. Mas rever o que, dele, merece que se veja. E lamentar: sentir tristeza pela sua impotência para sentir tristeza pelos outros. Somos todos projectos errados com muito de bom, ou excelentes projectos com demasiados erros e culpa. A morte é sempre perda.

sábado, 10 de agosto de 2024

IRMÃO MAIS VELHO

 Eu gostava imenso do meu irmão. Gostava e gosto, claro. Mas é diferente amar uma pessoa viva e amar a sua memória. A memória não nos agarra fisicamente, não ri connosco ou de nós, e não nos surpreende, porque se limita a repetir o que já experimentámos, só que, nesta forma, transformada em saudade, mais dolorosa mas muito menos nitidamente. Amava-o, portanto: um misto de mito em que se tornam, frequentemente, os irmãos mais velhos, feito a partir das aventuras de que suspeitamos; do mundo jovem, depois adulto, em que queremos penetrar quando somos crianças, mas de que temos, apenas, vislumbres, como a uma janela mágica, que falseia e agiganta o que julgamos estar a ver; de provocação irritante, que somos muito novos para levar a bem; de um humor trepidante; e daquela sanguinidade, composta por diferenças e semelhanças que me fizeram sempre sentir que eu era um dos seus rostos, que ele era um dos meus rostos, como se representasse aquele em que eu me tornaria quando mais velho, como se fosse o José Pacheco do futuro visitando-me numa encruzilhada do tempo.

Meu irmão foi admirável com a minha mãe. Tornou possível que ela ficasse a viver na «sua casinha», evitando, com unhas e dentes, que acabasse num Lar, seu derradeiro terror. Com sacrifício da sua vida, dormindo mal para poder acompanhá-la, cuidando-lhe das refeições e da medicação, às vezes no limiar do exaspero e da depressão, o meu irmão nunca virou costas.

A nossa relação não vogou sempre pacificamente. Demo-nos bem e demo-nos mal: neste amor que às vezes negávamos e que tantas vezes renegámos imiscuíam-se indignações, ciúmes, quase traições. O meu irmão não era uma pessoa fácil, como eu próprio só devo parecer fácil a mim mesmo.

Mas se ele não era fácil, da sua complexidade (emocional, intelectual, ética) fazia parte uma grandeza que tendia a passar despercebida. O seu percurso de jornalista e de especialista em assuntos africanos permitiu-lhe momentos decisivos, muitos dos quais só vieram a ser conhecidos por mim, através de interpostas pessoas, já após a sua morte. Como Secretário da Fundação Pro Dignitate, presidida pela Dra. Maria de Jesus Barroso (até aos terríveis choques que foram o falecimento da Presidente, primeiro, e o encerramento da organização), terá vivido o tempo mais feliz, mais empenhado, mais intenso dos últimos anos, ajudando a proporcionar apoios, negociando decisivamente, no terreno, com líderes desavindos, trabalhando para a Paz. Foi, aliás, um dos mais sérios e abnegados pensadores do que designava por Jornalismo para a Paz. Pensou-o e praticou-o, viajando e dando formação em Cabo Verde e na Guiné-Bissau. 

Não tivemos, durante muito tempo, a necessidade de nos encontrar com regularidade. Nos últimos meses, quando o cancro, já instalado e a multiplicar-se havia muito (escondido por ele que, certamente, desconfiaria, mas nos quis poupar), quando o maldito cancro, escrevia, não podia continuar a ser varrido para debaixo do tapete, reaproximámo-nos. Vivemos, então, tempos horrorosos e maravilhosos: o horror de assistir à rápida degradação física, à dificuldade de se deslocar, às esperas prolongadas, e inúteis, de consultas e de exames, num périplo desgastante pelos hospitais de um sistema público bem intencionado, mas impotente, e a maravilha dessa nossa reaproximação. Conversávamos, lembrávamo-nos, nunca nos faltou assunto, seríamos sempre dois africanos retornados a Portugal, e aos retornados de África nunca falta assunto, almoçávamos no restaurante do casal misto, ela brasileira, ele português, com uma proibida jarra de vinho tinto a forçar a sua presença, manchando o papel que cobria a mesa. Insistia em comprar-me jornais, entre os quais o 'Tal & Qual', que não aprecio, mas me recomendava por causa da crónica, muito interessante, dizia ele, da Rita Ferro. Enviava-me as reportagens que ainda fazia para a Rádio África, as últimas, preciosas, com lapsos de tempo e uma voz enfraquecida, mas sempre de uma informação completíssima e exposta com a simplicidade dos grandes homens que escolhem a modéstia.

Queria sentir-se amado. Cumprimentava todas as pessoas no seu bairro, exagerando nas gorjetas, quer fosse tomar um café ou cortar o cabelo. Fazia questão de me apresentar: É o meu irmão mais novo.

Telefonava-me todas as noites.   

Às vezes, à noite, esperando um seu telefonema, demoro alguns instantes até aperceber-me que já não haverá.


     

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

DA FALTA DE NOÇÃO E DO CRISTIANISMO

 1. Estou sentado numa espécie de banco de jardim; medito sobre como principiar cuidadosamente esta crónica, de forma a, em simultâneo, relacionar situações muito diferentes, que me têm perturbado e feito reflectir nos últimos dias, expor sem superficialidade aquilo que penso, mas, ainda, opor-me a ideias e pessoas credíveis e amadas, sem que considerem que as deprecio, nem as ferir. A tarefa afigura-se-me excessiva e complexa.

Primeiramente, teria de me referir ao que cada vez mais se designa por "falta de noção": observo muitos humanóides destituídos da mais elementar noção, mas como compreender essa ausência, quando os sujeitos são pessoas que prezo, ou quando considero o mar ideológico  em que se banham, meritório e respeitável? Trata-se de um problema. Sou, então, obrigado a lembrar que a "falta de noção" tem que ver com o não reconhecimento (obtuso, parece sempre), de limites. Mas por que teriam os meus limites, ou os do meu grupo, morais ou do bom-gosto e do bom-senso, devir o padrão, o critério universal? Sem querer cair no perigoso e triste relativismo, a presença deste horizonte, deste lembrete, torna-se imperiosa quando, às vezes, nos interrogamos: Mas como raio é que ele não vê (o ridículo das suas palavras ou actos, a imbecilidade, a inexistência de um resquício de pudor ou decoro)?

A visão moral cristã não é estúpida nem superficial. Falo da autêntica visão cristã, não da apropriação que a igreja tradicional dela veio fazendo, reavivando os interditos do Antigo Testamento e o precipitado desejo de julgar outrem; falo, antes, da compaixão, do amor pelo próximo ou de pô-lo primeiro do que a mim mesmo. Julgo que se, em parte, esta visão, ao longo de muitos anos de ditadura, inspirou uma ética da esmolinha e da caridade, num Portugal miserável, e se, entre os mais abastados, não passava de um lenitivo para as suas consciências, que se mordiam, foi, por outro lado, sempre a possibilidade de ajuda em casos concretos, ou de manter acesos ver, ouvirlernão ignorar, em suma, preocupar-se; a - e vou usar uma palavra que conta, hoje, com poucos amigos -, a piedade.

Tudo isto exposto, não consigo, portanto, arrasar uma pessoa como Laurinda Alves. Quando muito, surpreender-me pela sua mudança. Mas, aí, nada de novo: surpreendo-me sempre com o espectáculo de uma pessoa, ainda jovem, tornando-se na reaccionária que nunca propriamente fora. O seu mundo fixou-se: cristão e conservador. Todavia, a sua intenção aspira sempre ao melhor, mesmo quando fantasia uma enorme marcha de mendigos e sem-abrigo. A falta de noção advém, aqui, da inadequação entre a intenção e os meios. A falta de noção resulta de que se pense que, se há tantas marchas (políticas, ou querendo dar a vibrar um grito de orgulho, etc.), por que não uma que confrontasse as conscienciazinhas burguesas com o sofrimento e a carência? 

Por que não? Porque é indigno, claro. Porque os sem-abrigo não são aberrações de feira. O que faltará a alguém como Laurinda Alves para medir isso, para intuí-lo, para ter noção do que há de errado nesta proposta de exposição, ainda que com a melhor das intenções? Em algum aspecto de toda este projecto, paradoxalmente, tem de subsistir uma falha moral, uma incapacidade de perceber que os indivíduos devem ser protegidos e não transformados em figuras de exibição e circo. Tem de subsistir algum desrespeito, no fundo, pelas pessoas concretas, ainda que a sua condição socio-económica nos indigne. Pergunto-me: a falha está contida na própria visão cristã do mundo? É-lhe intrínseca? São coisas diferentes?

2. Do meu ponto de vista (mas creio que esta catalogação não deixará de ser polémica, embora esteja longe de, aqui, pretender ser insultuosa), é no mesmo tipo de formação cristã que, inconscientemente, radica uma crítica generalizada contra a Joana Marques e o seu programa Extremamente Desagradável.

Quando oiço dizer, a pessoas que respeito e sigo com o melhor da minha atenção, que o Extremamente Desagradável roça o bullying e exerce um tipo de humor fascizante, malévolo, em sistemática busca da falha do outro como matéria de troça, a minha reacção mistura demasiados ingredientes em contradição. Por um lado, pergunto-me se estes críticos terão razão, e "perguntá-lo" é já, certamente, a manifestação de uma secreta culpabilidade, uma vez que o programa me faz rir.

Passemos à frente do facto de que, em Portugal, desde o 25 de Abril, aprendemos a usar com certa imoderação, convertendo-as em insultos, palavras formadas a partir de "fascista" (fascistóide, fascizante...); ainda me recordo de um colega que gostava de citar - espero que errónea ou descontextualizadamente - Roland Barthes, para me dizer que "a linguagem é fascista."

Esmiuçando um argumento que acabei de ler, tento compreender por que razão uma amiga minha afirma ser necessariamente malvadez ridicularizar alguém que teve menos oportunidades, ou instrução, ou meios, do que eu. Posso fazer crítica de costumes, aventa, sem nomear. O pecado reside em apontar. Sobretudo, tomando, por objecto, gente "vulnerável" (intelectual, social, cultural, economicamente).

É a visão cristã. Bondosa e incapaz de humilhar ou rebaixar. Ao mesmo tempo, há que acrescentar: trata-se de uma visão piedosamente sobranceira - nunca rir dos pobres de porventos nem dos pobres de espírito. Entendo. Sem ironia: entendo, realmente. Onde me parece que o argumento claudica? No facto de que Joana Marques se mete com pessoas que, de uma ou de outra forma, têm sucesso, poder, influência; triunfam neste mundo frágil e estranho, que nos domina, de algum modo, a todos: genericamente, as redes sociais. Um participante do Big Brother, por exemplo, não é apenas un abruti. Nem tão-só um homem ou uma mulher que profere inanidades e expressa preconceitos, reduzindo o mundo a uma dimensão única. Mas um homem ou uma mulher que fazem cabeças, influenciam, assumiram-se como modelos sociais. Ou seja, numa sociedade em mudança contínua e global, as classes culturais já não são células estanques. Como se, pertencendo, pelo nascimento, a esta, se tornasse de mau-gosto e moralmente inadequado gozar com os daquela, a quem, coitados! não fora oferecida, de bandeja, a mesma educação. Talvez não, mas a verdade é que eles próprios deram em educadores. Vendem lições. Escrevem livros de auto-ajuda. Entram-nos pela TV. Viajam para entrevistar o Bolsonaro himself e, não o conseguindo, conversam, pelo menos, com a Maria Vieira. Onde raio os vai Joana Marques buscar? Onde diabo os descobre? Retira-os, cruelmente, ao anonimato? Eram donas de casa sossegadas, cidadãos pacatos, ouvidos, por acaso, numa taberna, a discutir, preconceituosamente, os ciganos, a política, o futebol? Ora reparem melhor. Estão aí, por toda a parte, como zombies, revelando a sua vaidade, o seu senso-comum tacanho e os erros de Português. 

Num dos últimos Extremamente Desagradável Joana Marques debruçou-se sobre Rita Pereira, a propósito de uma conversa entre ela e Cláudio Ramos e Maria Botelho Moniz, num programa da TVI. Não quero mal a Rita Pereira. Nem me move a inveja, porque nada do que RP conquistou me interessa. Não sei se parece feio achincalhar-lhe o discurso. Mas, que diabo!, são as palavras dela, num momento televisivo com centenas de tele-espectadores. Ou milhares, não sei. Não se pegar na falta de noção e na imodéstia da actriz, no orgulho, patente, por se achar superior (e incompreendida), ou na franqueza de nos jurar que os seus detractores o são, porque ela está "aqui" e eles não", conquistou "o mercado, e eles não", conquistou "o mundo, e eles não", seria perder o potencial crítico e, até, pedagógico, do humor. Não se trata de rirmos de um lapso, de uma queda, de um erro. Mas de rirmos de um discurso cheio de si e de um olhar egocêntrico e auto-indulgente sobre si-no-mundo. O discurso poder invadir-nos, alastrar, implantar-se, e a crítica dever calar-se para não humilhar o visado, seria a negação de qualquer exercício de humor social e cultural.