A colonoscopia é, entre machões, um assunto delicado. Como se não bastasse temerem os resultados, sublinham a ideia de que se trata de se lhes introduzir no ânus seja o que for (que, no que me diz respeito, prefiro não estudar previamente). Como todos os machões têm uma face oculta, inconfessável nas conversas entre tipos de pêlos no peito e murros na mesa, desconfio que o seu receio número um seja o de poderem vir a apreciar a invasão rectal.
Na verdade, é o dia anterior que se deve detestar. A "preparação". Um relativo jejum que facilite o trabalho de certo líquido desagradável, que deveremos ir tomando ao longo das horas e nos desapertará brutalmente os intestinos. Devo dizer que há um tempo, quando me marcaram uma colonoscopia para o dia a seguir ao meu aniversário, aceitei a ideia com imprudência e estupidez. Devo ter pensado: "Muito bem. Fazer anos no dia a seguir, poderá aliar a alegria de estar com os amigos, ao alívio de ter realizado na véspera o procedimento". Já perceberam que passei o dia de anos na fase da preparação? Que desfestejei o aniversário, solitariamente, na casa de banho?
Pondo de parte o dia-antes, devo reconhecer que, em si, a colonoscopia é um momento bem passado: à anestesia, com que me dei mal em todas as cirurgias, ficando, durante semanas de insónias, a ver, à noite, caveiras e monstros no tecto e nas paredes, prefiro a sedação. Perco rapidamente os sentidos, mal me dando tempo para contar de 10 para 1, e recobro prazenteiro e bem-disposto, com o sentido de humor em alta e uma leveza eufórica. Concordo com a analogia de Woody Allen: acordar de uma colonoscopia equivale a percebermos que chegámos ao céu. O dia anterior, o da "preparação", à nossa passagem pela vida na terra.
O acto de ser colonoscopiado devia estar ao alcance fácil de todos. É lamentável que, através do serviço nacional de saúde, se haja tornado um objectivo praticamente impossível. Ressinto-me de que, agora que me apetecia, de novo, ser submetido a uma, não haja vagas; que me digam que depois me telefonarão, a marcar, e pareçam perder o número: como aqueles amigos que reencontramos ao fim de muito tempo, nos garantem, de ar saudoso, abraçando-nos e lembrando episódios divertidíssimos do passado comum, que temos de combinar qualquer coisa, antes de desaparecerem para sempre da nossa vista.
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