Um jogo de futebol é como uma melodia. O futebol aspira à condição de música. Posso dizê-lo eu, precisamente, que percebo pouco de bola e tenho pouco ouvido musical.
Olho para o campo, vejo homens em calções que correm, vejo fintas e transições, mas falta-me o órgão, abundante nos comentadores desportivos, que permite captar a arte colectiva, o desenho descrito por uma equipa, em que cada um descobre onde vai estar o companheiro; onde vai encontrar-se, no instante seguinte, o adversário a evitar; e como, de homem em homem, se inventa um caminho para mais inesperadamente se conduzir a bola à baliza dos outros. Falta-me a visão de conjunto e de antecipação: percepcionar os homens como notas musicais, que se procuram segundo uma ideia, negando a aleatoriedade, ou melhor, transformando o aleatório, o acidental, em elemento de um sentido.Oiço a música e não, não é verdade que a não siga com o espírito, como dei a entender, para tornar a analogia mais simples e mais divertida. Apenas não sei "reproduzi-la". Digamos que é a minha voz que, por alguma estranha razão, não acerta nas notas que, no entanto, ouvi tocar e me tocaram. Se sinto inequivocamente a melodia tomar conta de mim, do meu corpo, da minha alma, não consigo trauteá-la. Muito menos cantá-la.
A primeira coisa que me criticarão nesta analogia é o modo como ponho lado a lado um entretenimento menor e, no seu melhor, uma forma de arte maior. O futebol, lembrarão, é alienação, intolerância, corrupção. O ópio das massas. A música, erudição, elevação. Enquanto o primeiro se produz através de corpos atléticos, movendo-se da cintura para baixo, se quisermos reduzi-lo aos pontapés e ignorar a técnica e a inteligência indispensáveis, a segunda produz-se pelo uso dos corpos frágeis, da cintura para cima. Mente e mãos. Enquanto o futebol vive de gritos emotivos e ataques cardíacos, a música precisa que se faça silêncio em volta. O espectador do futebol expressa-se para o círculo exterior. O ouvinte da música entra em si, onde criou um círculo íntimo e um tempo próprios, interiores, para recolher o sentido dos sons que lhe chegam.
E, no entanto, Dmitri Shostakovich, esse extraordinário compositor do século XX, que viveu sob o regime soviético, que o perseguiu e humilhou (Stalin não apreciara uma ópera sua), acossado, preso, caído em desgraça, descobriria de novo, justamente no futebol, o gosto pela vida. Interessou-se profunda e amorosamente pelo jogo, tomava notas, estudava tácticas, escrevia crónicas, acompanhava com deleite uma pequena equipa russa. Consigo vê-lo. Também conseguem? Sou capaz de penetrar no seu medo e no seu desespero, em noites asfixiantes e escuras, em que o menor som poderia significar a aproximação de soldados que o vinham buscar; penetro no seu isolamento, na sensação de que a música lhe morrera, de que nunca mais teria força ou vontande para compor. E sou capaz de o ver, por outro lado, em tudo o que o futebol lhe ofereceu: a concentração, o entusiamo, a fidelidade, o amor, a alegria.
Imagino, a partir deste exemplo, um compositor contemporâneo que goste de futebol. Ao longe, de certa forma. Nunca assistira, ao vivo, a um jogo.
Imagino que, um dia, aceitasse o convite de um grupo de amigos melómanos e futebolómanos.
Imagino-o surpreendido com a multidão, que nunca sentira sob a forma de corpos concretos que se empurram, ruído, odores.
Imagino-o como o único sem cachecol, sem bandeira, sem nenhuma marca que ostentasse o seu orgulho de adepto.
Imagino-o percebendo as oscilações de excitação, as concentrações de ódio, de frustração, de irritação contra o árbitro, de euforia, ao longo de todo o jogo.
E imagino, por fim, que, reentrando em casa, sem fome nem sono, com a mente ainda a vibrar da memória e de sensações da sua tarde como espectador de futebol, se levante da cama, hipnotizado, se sente ao piano, e comece a compor a melhor das suas melodias.
E imagino, por fim, que, reentrando em casa, sem fome nem sono, com a mente ainda a vibrar da memória e de sensações da sua tarde como espectador de futebol, se levante da cama, hipnotizado, se sente ao piano, e comece a compor a melhor das suas melodias.
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