Tanto quanto podemos falar de ter-se historicamente razão, suportando essa razoabilidade numa dimensão ética e política, para além dos interesses particulares de cada povo e de cada momento, Israel não tem razão.
Se procuramos determinar esse "ter razão" como remetendo para critérios que a História veio e irá desvendando e afinando como universais, num consenso, como diria Espinosa, e na medida do possível, "sub specie aeternitas", então Israel não tem razão: porque se tratou da criação de um Estado num território onde viviam pessoas, que foram discriminadas (nunca houve igualdade de direitos e cidadania entre os judeus, que chegavam dos mais diversos pontos da Europa, e os palestinianos, nativos de havia muito); porque se procedeu a essa "colonização" em um momento em que a História principiava a condenar o pretenso direito do mais forte a instalar-se em terras habitadas, ou seja, quando já se compreendia tratar-se de um acto eticamente inaceitável; porque os palestinianos nunca foram ouvidos, não puderam pronunciar-se, os expulsaram das suas terras e confinaram a um espaço cada vez mais estreito. O sionismo fê-lo porque, sendo os judeus, inicialmente, muito menos numerosos em Israel, contou sempre com armamento superior e o apoio de grandes potências: a Inglaterra, a França e nada menos do que os EUA.
Há um argumento que, na defesa dos sucessivos governos de Israel, lembra que não falamos de um povo qualquer: falamos das vítimas do holocausto. De resto, do holocausto como momento final de uma História violenta de perseguições, expulsões, maus-tratos. Ser judeu foi sempre uma marca de opróbio e sofrimento. E um outro argumento, segundo o qual estar do lado de Israel será escolher o lado de uma democracia de tipo ocidental, contra as formas de um modo de vida árabe e muçulmao, identificado com o que mais afastado podemos conceber da "civilização ocidental".
O primeiro argumento é eticamente indefensável, como se o sofrimento de um povo pudesse tornar-se um passaporte para todos os actos de crueldade. Como se os judeus pudessem estar acima de todas as críticas, como se o governo de um Estado decidindo em nome de todos os judeus considerasse antissemitas todas e quaisquer objecções à sua prática de desprezo e afronta.
O segundo argumento é xenófobo e colonialista: baseia-se na diminuição dos nativos como culturalmente inferiores, sem uma História, sem raízes, precisamente como, desde sempre, os conquistasores viam os povos indígenas como bárbaros ou animais, natureza a ser domada.
Ambos me parecem desprezíveis. E não há qualquer traço do que hoje se entende por antissemitismo nesta afirmação.
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