Simone de Beauvoir - que não deve ter sido uma pessoa de fácil convivência, mas pensava bem, a despeito das contradições e de algumas ideias que soariam como música superior ao Zeitgeist em que viveu, mas a história veio revelar como grave e pesadamente erradas - afirmou que o facto de as mulheres muçulmanas terem de cobrir o rosto era um problema religioso e cultural, que os intelectuais ocidentais não tinham o direito de julgar e com que não deviam interferir. Repito, Simone de Beauvoir: uma feminista, a autora do brilhante Le Deuxième Sexe.
Mais do que uma contradição grosseira, identifico, aqui, um tipo de dilema que me não é indiferente e com o qual a esquerda, tendo sempre por referência o sentido de justiça e de moral, frequentemente se debate. Este é um exemplo, mas falarei também de outros. Qual o limiar, no meu desejo de que as mulheres sejam tão livres como os homens, em que, a partir da minha visão de liberdade, assumida como padrão universal, não devo ousar - eu, homem, privilegiado, branco, ateu, heterossexual - falar em nome do que sentem mulheres que não conheço, não compreendo e não partilham comigo as crenças?
Um exemplo mais simples, banal, até, mas que me intrigou profundamente na altura, foi ter sido apresentado a uma brasileira progressista, que, quando falávamos sobre música brasileira e eu, ingenuamente, trazia à baila o samba, me retorquiu gelidamente: "Eu não oiço samba". O subentendido sendo: música brasileira é MPB - Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil. Não traga à conversa essas sub-canções que desrespeitam a mulher e alienam o povão.
Deus do céu. Teria ela ideia da heresia? De que poderia não gostar, sem depreciar, como se não houvesse sambas encantadores e como se a sua proximidade ao povo, justamente, não fosse uma marca de grandeza? Martinho da Vila, Sô Jorge? Não?
Continuemos com dilemas do quotidiano, menores, mas sugestivos no que põem evidência: o caso Jerry Seinfeld.
Seinfeld, cuja sitcom me fazia rir a bandeiras despregadas nos anos 80/90, tornou-se um dos mais acérrimos defensores de Israel. O seu desdém pelos palestinianos e pelo que se passa em Gaza atinge raias do repulsivo. Se me sinto frustrado, incomodado? Se me despedi de um dos ídolos da minha juventude? Sem dúvida.
Vejo artistas que faziam parte do cartaz a retirar-se. Oiço (leio), à volta deles, levantarem-se coros de indignação. Assisto ao apontar tremente de dedos à falta de espírito democrático destes humoristas, que se mostrariam - segundo as críticas - incapazes de comungar o palco com quem tenha uma diferente visão.
E claro que se trata de uma falácia. Porque, sobretudo, não há como estes comediantes, permanecendo no festival, não estivessem a aderir, a validar, como agora se diz, a posição política do cabeça de cartaz. Estão, portanto, a assumir a sua liberdade - não a cancelar ou a impedir, mas a não querer misturar-se. A questão Israel/Gaza, aliás, mantém-se muitíssimo delicada e está demasiado ao rubro, para que possamos assobiar para o lado.
Mas eis que cómicos da esquerda, os pesos-pesados do humor português, Bruno Nogueira e Ricardo Araújo Pereira, sobem a dizer mal dos seus parceiros de comédia: centrando-se na ideia de que participar num festival de humor não implica aceitar as posições políticas do comediante principal (peço que pensem outra vez no assunto, por favor, do ponto de vista do olhar do público), e retomando a questão do atraso dos desertores na decisão pelo abandono (como se isso fosse fundamental, como se caísse mal mudar-se de ideias).
Do sofá relativamente anónimo de onde sigo a discussão, BN e RAP não têm razão. Nenhuma. Mas, uma vez mais, onde está a linha que separa os justos e os traidores, os legitimamente de esquerda e os que se venderam?
Pensem na Ucrânia por um segundo. E em como todos os que consideram justo e legítimo que os ucranianos se defendam do Dr. Nefando têm de entrar em choque com o PCP e, de algum modo, neste ponto, estarem ao lado da ignorante e imprestável Helena Ferro Gouveia.
Tudo se confunde, não é?
Porque ser de esquerda não se assume no abstracto, como uma adesão a uma visão nobre e uniforme, independente de outras razões, de outros afectos, de singularidades biográficas, de amores pessoais.
É tramado.