Não aprecio a personalidade que veio sendo destapada a Luís Neves. Só para começar. Podem branquear a situação com os argumentos que quiserem, clamando, excitadamente, que se formou uma cabala, que se assiste a um aproveitamento pela extrema-direita, que se mobiliza um ataque injusto e sistemático por parte dos seus arqui-inimigos, que, do meu ponto de vista, no nó do problema nada muda, nem mudaria ainda que houvesse cabala e aproveitamento. Eis o aspecto que não se consegue apagar: nenhuma das suas explicações foi convincente - a arrogância de um homem a mascar pastilha, repetindo a idiotice de que os desmandos e ilegalidades por si cometidos teriam sido actos superiores de gestão, poupando milhares ao Estado, vê-se e ouve-se como um cruel e patético tiro no pé.
O carro apreendido, que se usava como veículo próprio, ou de serviço, tanto faz, parece-me mais um exemplo de espertice. Do género "Chico". Posso admitir que, em relação às questões da piscina/tanque, do modo de pagamento da casa, dos lapsos nas declarações, pudessem ter existido enganos, esquecimentos, sei lá - muito bem. E tenho noção, claro, como alguém comentava, que, teleguiada ou não, a imprensa o tomou como alvo obsessivo, não lhe largando o calcanhar - de modo que, quando só se fala dele, todos os pecadilhos, em conjunto, fomentam nos leitores e nos tele-espectadores a percepção de se estar perante um mafioso.
Lamento muito. Porque ao governo de um país que arde por todo o lado ao despontar dos verões, Luís Neves chegava como um ministro competentíssimo, quase como o que, mais do que antecipar e prevenir minuciosamente as catástrofes prováveis, munir, as forças de combate ao fogo, de meios novos e eficazes, ou prender os criminosos que se passeassem pelas matas, de isqueiro no bolso, ia dizer ao clima e ao arvoredo: "Take it easy, que, agora, aqui ao leme, estou eu!"
Não sei se as condições objectivas, como dizia Sérgio Sousa Pinto, com a sua típica voz de cansaço ante as enormidades dos que dele discordam, lhe permitirão aguentar-se no poder. É uma história em que ninguém fica bem. Palpita-me que, independentemente das "condições objectivas", o primeiro-ministro não irá despedi-lo. Assim sendo, o partido intragável do intragável dr. Ventura pavonear-se-á, no palco, por muito tempo. Neves mostra a roupa toda rota, como um náufrago, e dificilmente conseguirá retirar à jangada, intacta e credível, a autoridade. Caramba, é mau. Que, ao menos, em relação aos fogos faça um excelente trabalho. Já teria valido a pena gramarmos a vergonha.