Devo confessar que quando comecei a seguir uma série inglesa chamada 'Bridgerton', me irritei um pouco. Sim, a Inglaterra do século XIX de que estamos a falar nunca pretendeu, assumidamente, ser a que conhecemos da História, mas, digamos assim, a de uma realidade alternativa, em que, num espaço e num tempo em tudo similares aos dessa-Inglaterra-desse-século, a aristocracia seria constituída por brancos, negros ou indianos, sem que a questão da raça sequer alguma vez se pusesse. Nem sei bem por que a ideia me pareceu incomodamente errada. Talvez porque, ainda que aceitássemos essa premissa e quiséssemos entrar no jogo, estarmos a ser constantemente confrontados com lugares, hábitos, meios de transporte e vestuário, que delimitam um círculo bem definido na História, preenchidos por pessoas que não faziam parte desse círculo, criou um efeito incómodo de inverosimilhança. Não se tratava de uma questão ideológica, portanto, mas puramente histórica.
O que mudou a propósito da "Helena negra", da 'Odisseia', de Nolan? Nem vou usar o argumento de que estamos, agora, perante a adaptação de uma obra que remete para a mitologia e em que, portanto, todas as liberdades são admissíveis. Ou que, segundo a interpretação de algumas passagens da 'Odisseia', "o livro", o próprio Ulisses era negro - e que, em contrapartida, a única alusão textual à brancura de Helena parece ser a referência aos seus "braços brancos", o que, aliás, também pode ter variadas interpretações.
Não asseguro que se não tenha imiscuído, desta vez, um elemento ideológico: ver o tom da crítica contra o "politicamente correcto" da escolha de actores, feita, maioritariamente, pelos suspeitos do costume, a deputada do partido que não me apetece mencionar e outros racistas, travestidos de estudiosos da 'Odisseia'
[dêem-me um minuto para parar de rir, retomarei a crónica assim que me seja possível]
indispõe imediatamente qualquer alma pensante.
Feita esta declaração de interesse, este reconhecimento de tendência, apraz-me acrescentar a ideia de que a obra de Homero (também ele, o pretenso autor, mais da ordem do mito do que da realidade) se tornou uma matéria imensa e grandiosa, de uma poderosíssima criatividade popular, que Nolan toma livremente, como um realizador para quem todas as escolhas e decisões ganham um valor estético e artístico - a ponto de pensarmos: "Esta é a Helena que valoriza o filme; a sua raça devém, aqui, irrelevante. É a Helena certa para a forma como se quer dar a ver esta história." Por fim, percebemos que nenhuma outra actriz seria tão adequada para o papel.
Não vale a pena discutirem. Não porque esteja a ser dogmático, mas porque não designaria sequer esta ideia como um argumento. É um sentimento. Quem viu o filme, sem juízos pré-fabricados, sentiu isto. Entender-me-á.
Post-scriptum: será, nos tempos que correm, inútil advertir para que o título desta crónica contém ironia?