Da mesma maneira que, em tempos de PREC, pessoas bruscamente politizadas começaram a usar a palavra "fáchista" como insulto primordial, que decidiram caber indiferenciadamente a todos os indivíduos, ideias, actos, que os maçassem, também hoje se principiou a recorrer ao termo "negacionista" com o mesmo tipo de facilidade.
Quaisquer palavras que se usem para etiquetar o que, a mim, parece certo e inquestionável se tornam perigosas. A palavra "negacionista", por maioria de razão. Parte do princípio que há "factos", estabelecidos pela ordem correcta, pelo paradigma que eu aceito - e nem me atrevo a acrescentar pelo "sistema", porque sei ao que soaria imediatamente. Mas a verdade é que a ciência é mais do que se põe em cima do tapete. A ciência opera como um conjunto de metodologias que podem ser discutidas e vão sendo revistas, de teorias incompletas e outras que se lhes opõem, experiências que nunca confirmamuma verdade absoluta.
De vez em quando, sem andar à procura deles, sou confrontado com livros, sérios, de investigadores, sérios, que põem em causa ideias ainda consagradas e tabu por parte de reconhecidos cientistas. Testes em que confiámos cegamente, por exemplo quase todos os que usam animais como cobaias, são considerados questionados - e não apenas por razões éticas, mas metodológicas, ou seja, técnicas e científicas.
Pelo que um nome como "negacionista" é, no fundo, um homem-do-saco, muito feio e pouco subtil, que, na sua crítica, absorve e confunde, como se se tratasse do mesmo, teorias da conspiração, ideias sem suporte crítico e científico, fogachos de ignorância e posições rigorosas, que divergem, simplesmente, da imagem "oficial" do que é científico - como se, o que é científico, se reduzisse a um corpo sagrado de dogmas, como se, pelo contrário, não fosse, em última análise, uma luta entre diferentes tipos de erro e de correcções, diferentes conjecturas e refutações, até diferentes vias, umas mais consolidadas, outras mais exploratórias, nenhuma definitiva.