quinta-feira, 30 de julho de 2026

ALGUMAS PERGUNTAS MUITO INGÉNUAS

 Preferem comer primeiro a torradinha do meio, ou deixá-la para o fim?

Excluindo as séries americanas de polícias e bandidos (e para efeitos dramáticos), quando alguém invade um gabinete, em busca de alguma coisa, terá vantagem em deixar tudo desarrumado?

Os arquitectos que desenharam a entrada estreita e em caracol para o parque de estacionamento do "Corte Inglês" já teriam ouvido falar de claustrofobia?

Segundo a "navalha de Okham", a explicação que economiza meios tende a ser a mais razoável. Qual parece ser a versão que barbeia melhor o episódio do gabinete vandalizado de Ventura? Que tenha sido um deputado que o odeia, por exemplo Isabel Moreira? Um segurança a expensas de Luís Neves? Ou alguém do próprio partido, numa encenação completamente idiota?

Será boa ideia ir à praia durante estas ondas de excessivo calor?

Como adivinharia, o pepetrador da vandalização do gabinete, que o conteúdo da 'pen' era precisamente o que lhe interessava? Tê-la-á ali mesmo experimentado num computador? E se sim, da mesma maneira que o escritório ficava aberto, o computador também dispensava uma palavra passe?

Por que razão continua a haver pessoas que me decepcionam e eu continuo a decepcionar pessoas?

Numa desarrumação sistemática de um gabinete, qual a probabilidade de um quadro de Nossa Senhora, protegido por um vidro, cair ao chão sem se partir - com um cucifixo, ou lá o que seja, cuidadosamente pousado por cima?

O 'Frize limão' é artificialmente gaseificado?

Alguém acredita na história da invasão do gabinete?


terça-feira, 28 de julho de 2026

BOSCH E A ARTE DE ESCONDER À VISTA DE TODOS

 

Poucas pessoas me conhecem. Mas essas poucas e, de entre elas, as, ainda em menor número, que aqui ou ali me vão lendo, sabem que sou um viciado em romances policiais. E se há quem pareça ter a certeza de que se trata de um género menor, tenho, pelo meu lado, a certeza de que quem tenha lido alguns autores do policial, americanos, franceses, espanhóis ou nórdicos (não é por lapso que não refiro ingleses, embora Conan Doyle ou Agatha Christie façam parte da História e tenham um lugar especial à mesa) se apercebeu de que podemos, na verdade, falar de literatura maior.

Sou, igualmente, um apreciador de teorias sobre o policial. Ou teorias acerca de "antecipações" das regras que fundariam o género. Conhecem a tese de Savater, por exemplo? A de que a primeira narrativa de solução do crime pode ser encontrada na Bíblia: a passagem sobre a Casta Susana, em que reside, inconscientemente, a génese do 'modus operandi' de Poirot, reunindo a sua audiência de suspeitos, para, vaidoso em face desse público (um público, para todos os efeitos), desenvolver o argumento cuja conclusão apontará o dedo ao assassino?

Agora, por favor, prestem atenção a uma pintura de Bosch. Chama-se 'O Prestidigitador' e, ao invés de nos abrir para o segredo de consequências de pecados humanos, a que nos acostumou, com vislumbres de caos e de inferno, revelados por figuras bizarras, absurdas, horrendas ou cómicas, antes se limita à observação de uma cena de rua, não só, diríamos, pouco boschiana, mas, também, pouco vulgar entre os pintores da sua época.

O prestidigitador seria um desses aldrabões de rua, que teremos visto, também, algum dia. Atrás de uma mesa em que estão pousados uns copinhos, prepara-se para esconder, sob um deles, uma pequena esfera: manipulará, depois, ágil e vertiginosamente, os copos, com o intuito de que o público tente (não) adivinhar onde se acha, isto é, se engane quando julga ter percepcionado e seguido perfeitamente os movimentos.

Nessa pintura, vemos como o prestigitador concentra a atenção de um ajuntamento de curiosos, numa pequena bola, talvez uma bolota, enquanto, por trás da multidão, um cúmplice corta a bolsa de um homem especialmente atento, infantilmente atento, ingenuamente atento ao fruto exibido pela mão que o artista de rua ergue diante dos seus olhos.

Ora, identifico, aqui, o princípio do policial. Fixar a atenção do leitor nos acontecimentos ou nas personagens que o desviam do essencial. É, no fundo, subterraneamente que, julgando estarmos a compreender os arames do mistério, se vai armando o que não vemos, ou melhor, aquilo a que não prestamos atenção, mas será decisivo para a solução. 

No maravilhoso quadro de Bosch, é esse engano (aliás, duplo: uma bolinha que será escondida, mas não onde nos pareceu que a víamos sê-lo; e o engano de não olharmos de imediato para o que completa e esclarece a situação), é essa quase ilusão óptica que ocorre, não só no que toca aos protagonistas da cena, mas aos espectadores desta pintura. Também nós, inevitavelmente, começamos por nos prender ao prestidigitador, à sua mão e ao que ela segura, como se se tratasse do foco do quadro. Só num segundo momento nos apercebemos da fraude. De que estamos em presença de um furto em que não reparávamos.

sábado, 25 de julho de 2026

DE COMO OS PRETOS QUEREM ADULTERAR A VERDADE DOS FACTOS

 

Devo confessar que quando comecei a seguir uma série inglesa chamada 'Bridgerton', me irritei um pouco. Sim, a Inglaterra do século XIX de que estamos a falar nunca pretendeu, assumidamente, ser a que conhecemos da História, mas, digamos assim, a de uma realidade alternativa, em que, num espaço e num tempo em tudo similares aos dessa-Inglaterra-desse-século, a aristocracia seria constituída por brancos, negros ou indianos, sem que a questão da raça sequer alguma vez se pusesse. Nem sei bem por que a ideia me pareceu incomodamente errada. Talvez porque, ainda que aceitássemos essa premissa e quiséssemos entrar no jogo, estarmos a ser constantemente confrontados com lugares, hábitos, meios de transporte e vestuário, que delimitam um círculo bem definido na História, preenchidos por pessoas que não faziam parte desse círculo, criou um efeito incómodo de inverosimilhança. Não se tratava de uma questão ideológica, portanto, mas puramente histórica.

O que mudou a propósito da "Helena negra", da 'Odisseia', de Nolan? Nem vou usar o argumento de que estamos, agora, perante a adaptação de uma obra que remete para a mitologia e em que, portanto, todas as liberdades são admissíveis. Ou que, segundo a interpretação de algumas passagens da 'Odisseia', "o livro", o próprio Ulisses seria negro - e que, em contrapartida, a única alusão textual à brancura de Helena parece ser a referência aos seus "braços brancos", o que, aliás, também pode ter variadas interpretações. 

Não asseguro que se não tenha imiscuído, desta vez, um elemento ideológico: ver o tom da crítica contra o que designaram por "politicamente correcto" da escolha de actores, crítica, essa, feita, maioritariamente, pelos suspeitos do costume, a deputada do partido que não me apetece mencionar e outros racistas, travestidos de estudiosos da 'Odisseia' 

[dêem-me um minuto para parar de rir, retomarei a crónica assim que me seja possível]

indispõe imediatamente qualquer alma pensante.

Feita esta declaração de interesse, este reconhecimento de tendência, apraz-me acrescentar a ideia de que a obra de Homero (também ele, o pretenso autor, mais da ordem do mito do que da realidade) se tornou uma matéria imensa e grandiosa, de uma poderosíssima criatividade popular, que Nolan toma livremente, como um realizador para quem todas as escolhas e decisões ganham um valor estético e artístico - a ponto de pensarmos: "Esta é a Helena que valoriza o filme; a sua raça devém, aqui, irrelevante. É a Helena certa para a forma como se quer dar a ver esta história." Por fim, percebemos que nenhuma outra actriz seria tão adequada para o papel.

Não vale a pena discutirem. Não porque esteja a ser dogmático, mas porque não designaria sequer esta ideia como um argumento. É um sentimento. Quem viu o filme, sem juízos pré-fabricados, sentiu isto. Entender-me-á.

Post-scriptum: será, nos tempos que correm, inútil advertir para que o título desta crónica contém ironia?



domingo, 12 de julho de 2026

A COLONOSCOPIA E OUTRAS BENÇÃOS

 A colonoscopia é, entre machões, um assunto delicado. Como se não bastasse temerem os resultados, sublinham a ideia de que se trata de se lhes introduzir no ânus seja o que for (que, no que me diz respeito, prefiro não estudar previamente). Como todos os machões têm uma face oculta, inconfessável nas conversas entre tipos de pêlos no peito e murros na mesa, desconfio que o seu receio número um seja o de poderem vir a apreciar a invasão rectal.


Na verdade, é o dia anterior que se deve detestar. A "preparação". Um relativo jejum que facilite o trabalho de certo líquido desagradável, que teremos de ir tomando ao longo das horas e nos desapertará brutalmente os intestinos. Há algum tempo, quando me marcaram uma colonoscopia para o dia a seguir ao meu aniversário, aceitei a ideia com imprudência e estupidez. Devo ter pensado: "Muito bem. Fazer anos no dia a seguir, vai certamente aliar a alegria de estar com os amigos, ao alívio de ter realizado na véspera o procedimento". Já perceberam que passei o dia de anos na fase da preparação? Que, portanto, desfestejei o aniversário, solitariamente, na casa de banho?

Pondo de parte o dia-antes, reconheço que, em si, a colonoscopia é um momento bem passado: à anestesia, com que me dei mal em todas as cirurgias, ficando, durante semanas de insónias, a ver, à noite, caveiras e monstros no tecto e nas paredes, prefiro a sedação. Perco rapidamente os sentidos, mal me dando tempo para contar de 10 para 1, e recobro prazenteiro e bem-disposto, com o sentido de humor em alta e uma leveza eufórica. Concordo com a analogia de Woody Allen: acordar de uma colonoscopia equivale a percebermos que chegámos ao céu. O dia anterior, o da "preparação", seria a nossa cruel passagem pela vida na terra.

O acto de ser colonoscopiado devia estar ao alcance fácil de todos. Antes de mais, porque possibilita um diagnóstico fundamental. Salva vidas. É lamentável que, através do serviço nacional de saúde, se haja tornado um objectivo praticamente impossível. Ressinto-me de que, agora que me apetecia (e me convinha), de novo, ser submetido a uma, não haja vagas; que me digam que depois me telefonarão, para marcar, e pareçam perder o número: como aqueles amigos que reencontramos ao fim de muito tempo, nos garantem, de ar saudoso, abraçando-nos e lembrando episódios divertidíssimos do passado comum, que temos de combinar qualquer coisa, antes de desaparecerem para sempre da nossa vista.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

A ARROGÂNCIA DE CHAMAR UM 'NEGACIONISTA' A ALGUÉM

 

Da mesma maneira que, em tempos de PREC, pessoas bruscamente politizadas começaram a usar a palavra "fáchista" como insulto primordial, que decidiam caber indiferenciadamente a todos os indivíduos, ideias, actos que os maçassem, também hoje se principiou a recorrer ao termo "negacionista" com o mesmo tipo de pouca ponderação.

Quaisquer palavras que se usem para etiquetar os críticos de, a quem se tome por sujeito pareça certo e inquestionável, se tornam perigosas. O novo insulto - "negacionista" -, por maioria de razão. Em ciência, então, vê-se bem de que se trata. Parte do princípio de que há "factos", provados e estabelecidos, pela ordem correcta, pelo paradigma que o sujeito virtuoso, não-negacionista, assume - e nem me atrevo a acrescentar: pelo "sistema", porque sei ao que soaria imediatamente. Mas a verdade é que a ciência é mais do que se põe em cima do tapete. A ciência opera como um conjunto de metodologias que podem ser discutidas e vão sendo revistas, de teorias incompletas e outras que se lhes opõem, experiências que nunca confirmam uma verdade absoluta.

De vez em quando, sem andar à procura deles, sou confrontado com livros, sérios, de investigadores, sérios, que põem em causa ideias ainda consagradas e consideradas tabu por parte de reconhecidos cientistas. Testes em que confiámos cegamente, por exemplo quase todos os que usam animais como cobaias, são agora questionados - e não apenas por razões éticas, mas metodológicas, ou seja, técnicas e científicas.

Pelo que um nome como "negacionista" é, no fundo, um homem-do-saco, muito feio e pouco subtil, que, na sua crítica, absorve e confunde, como se se tratasse do mesmo, teorias da conspiração, ideias sem suporte crítico e científico, fogachos de ignorância, mas também posições rigorosas, que divergem, simplesmente, da imagem "oficial" do que é científico - como se, o que é científico, se reduzisse a um corpo sagrado de dogmas, como se, pelo contrário, não fosse, em última análise, uma luta entre diferentes tipos de erro e de correcções, diferentes conjecturas e refutações, até diferentes vias, umas mais consolidadas, outras mais exploratórias, nenhuma definitiva.

segunda-feira, 6 de julho de 2026

A MÚSICA DO FUTEBOL

 Um jogo de futebol é como uma melodia. O futebol aspira à condição de música. Posso dizê-lo eu, precisamente, que percebo pouco de bola e tenho pouco ouvido musical.

Olho para o campo, vejo homens em calções, que correm, vejo fintas e transições, mas falta-me o órgão, abundante nos comentadores desportivos, que permite captar a arte colectiva, o desenho descrito por uma equipa, em que cada um descobre onde vai estar o companheiro; onde se achará, no instante seguinte, o adversário a evitar; e como, de homem em homem, se inventa um caminho para mais inesperadamente se conduzir a bola contra a baliza dos oponentes. Falta-me a visão de conjunto e de antecipação: percepcionar os homens como notas musicais, que se procuram segundo uma ideia, negando a aleatoriedade, ou melhor, transformando o aleatório, o acidental, em elemento de um sentido.

Oiço a música e não, não é verdade que a não siga com o espírito, como dei a entender, para tornar a analogia mais simples e mais divertida. Apenas não sei "reproduzi-la". Digamos que é a minha voz que, por alguma estranha razão, não acerta nas notas que, no entanto, ouvi tocar e me tocaram. Se sinto inequivocamente a melodia tomar conta de mim, do meu corpo, da minha alma, não consigo trauteá-la. Muito menos cantá-la.

A primeira coisa que me criticarão nesta analogia é o modo como ponho lado a lado um entretenimento menor e, no seu melhor, uma forma de arte maior. O futebol, lembrarão, é alienação, intolerância, corrupção. O ópio das massas. A música, erudição, elevação. Enquanto o primeiro se produz através de corpos atléticos, movendo-se da cintura para baixo, se quisermos reduzi-lo aos pontapés e ignorar a técnica e a inteligência indispensáveis, a segunda produz-se pelo uso dos corpos frágeis, da cintura para cima. Mente e mãos. Enquanto o futebol vive de gritos emotivos e ataques cardíacos, a música precisa que se faça silêncio em volta. O espectador do futebol expressa-se para o círculo exterior. O ouvinte da música entra em si, onde criou um círculo íntimo e um tempo próprios, interiores, para recolher o sentido dos sons que lhe chegam.

E, no entanto, Dmitri Shostakovich, esse extraordinário compositor do século XX, sob a inclemência do regime soviético que o perseguiu e humilhou (Stalin não apreciara uma ópera sua), acossado, preso, caído em desgraça, descobriria de novo, justamente no futebol, o gosto pela vida. Interessou-se profunda e amorosamente pelo jogo, tomava notas, estudava tácticas, escrevia crónicas, acompanhava com deleite uma pequena equipa russa. Consigo vê-lo. Também conseguem? Sou capaz de penetrar no seu medo e no seu desespero, em noites asfixiantes e escuras, em que o menor som, em vez do possível despertar, em si, de uma nova música, poderia significar a aproximação de soldados que o vinham buscar; penetro no seu isolamento, na sensação de que a música lhe morrera, de que nunca mais teria força ou vontande para compor. E sou capaz de o ver, por outro lado, em tudo o que o futebol lhe ofereceu: a concentração, o entusiamo, a fidelidade, o amor, a alegria.

Imagino, a partir deste exemplo, um compositor contemporâneo que goste de futebol. Ao longe, de certa forma. Nunca assistira, ao vivo, a um jogo.
Imagino que, um dia, aceitasse o convite de um grupo de amigos melómanos e futebolómanos.
Imagino-o surpreendido com a multidão, que nunca sentira sob a forma de corpos concretos que se empurram, ruído, odores. 
Imagino-o como o único sem cachecol, sem bandeira, sem nenhuma marca que ostentasse o seu vago orgulho de adepto.
Imagino-o percebendo as oscilações de excitação, as concentrações de ódio, de frustração, de irritação contra o árbitro, de euforia, ao longo de todo o jogo.

E imagino, por fim, que, reentrando em casa, sem fome nem sono, com a mente ainda a vibrar da memória e de sensações da sua tarde como espectador de futebol, se levante da cama, hipnotizado, se sente ao piano, e comece a compor a melhor das suas melodias.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

TER RAZÃO EM HISTÓRIA: ISRAEL E A PALESTINA

 Tanto quanto podemos falar de ter-se historicamente razão, suportando essa razoabilidade numa dimensão ética e política, para além dos interesses particulares de cada povo e de cada momento, Israel não tem razão.

Não que me queira pronunciar como um deus omnisciente no momento de uma revelação. Mas se procuramos determinar esse "ter razão" como remetendo para critérios que a História veio e irá desvendando e afinando como universais, ou seja, para além dos valores de cada tempo, num consenso, como diria Espinosa, e na medida do possível, "sub specie aeternitas", então Israel não tem razão: porque se tratou da criação de um Estado num território onde viviam pessoas, que foram discriminadas (nunca houve igualdade de direitos e cidadania entre os judeus, que chegavam dos mais diversos pontos da Europa, e os palestinianos, nativos de havia muito); porque se procedeu a essa "colonização" em um momento em que a História principiava a condenar o pretenso direito do mais forte a instalar-se em terras habitadas, ou seja, quando já se compreendia tratar-se de um acto eticamente inaceitável; porque os palestinianos nunca foram ouvidos, não puderam pronunciar-se, os expulsaram das suas terras e confinaram a um espaço cada vez mais estreito. O sionismo fê-lo porque, sendo os judeus, inicialmente, muito menos numerosos em Israel, contou sempre com armamento  superior e o apoio de grandes potências: a Inglaterra, a França e nada menos do que os EUA. 

Há um argumento que, na defesa dos sucessivos governos de Israel, lembra que não falamos de um povo qualquer: falamos das vítimas do holocausto. De resto, do holocausto como momento final de uma História violenta de perseguições, expulsões, maus-tratos. Ser judeu foi sempre uma marca de opróbio e sofrimento. E um outro argumento, segundo o qual estar do lado de Israel será escolher o lado de uma democracia de tipo ocidental, contra as formas de um modo de vida árabe e muçulmano, identificado com o que mais afastado podemos conceber da "civilização ocidental".

O primeiro argumento é eticamente indefensável, como se o sofrimento de um povo pudesse tornar-se um passaporte para todos os actos de crueldade por parte desse povo. Como se os judeus pudessem estar acima de qualquer crítica, como se o governo de um Estado decidindo em nome do judaísmo considerasse anti-semitas as objecções à sua prática de desprezo e afronta.

O segundo argumento é racista e colonialista: baseia-se na diminuição dos nativos a sub-humanos: culturalmente inferiores, sem identidade, sem uma História, sem raízes, precisamente como, desde sempre, os conquistadores reduziam os povos indígenas a bárbaros ou animais, natureza a ser domada.

Ambos os argumentos me parecem desprezíveis. E não há qualquer traço do que hoje se entende por anti-semitismo nesta afirmação.