sábado, 13 de dezembro de 2025

AS FONTES DA ESTÉTICA NACIONALISTA

 Miguel Carvalho, autor de Por Dentro do Chega, que considero serviço público - com a pecha de todo o serviço público: não interessar a quem mais carece da instrução e da cultura que ele possa oferecer - preocupava-se, e justamente, com a adesão da juventude ao partido de André Ventura. Nas escolas secundárias, dizia ele, onde captura miúdos que ainda nem votam, e nas universidades, onde a penetração do Chega é tristemente surpreendente.

A que se deve esse fascínio, perguntavam-lhe na entrevista radiofónica que eu ouvia. Por um lado, respondeu MC, ao facto de o partido apostar forte e eficazmente nas redes sociais, e nas redes consumidas de preferência por jovens. Os tic tocs e o instagram. Com tudo o que essa utilização facilita: simplificação da mensagem, adesão em rede e, portanto, em massa, fake news inverificáveis no imediato e não verificadas a longo prazo, etc. Não podia estar mais de acordo com a análise: não foi por acaso que os 60 deputados do caos votaram contra um aspecto particular de certa proposta: a penalização da divulgação de mentiras nas redes sociais. Ousaram fazê-lo e assumi-lo, a coberto do chapéu da defesa da liberdade de expressão. Faltar-lhes-á muita coisa. Lata, não.

Outra razão apresentada por MC residiria na própria leccionação, nas escolas, de um conteúdo e de uma imagética patrioteiras, herdados do Estado Novo: citava como exemplos um manual, onde, numa ilustração, se vía uma sereia olhando, no horizonte, as caravelas lusas; ao que acrescentava a referência ao que se aprende dos Lusíadas, centrado grandiloquentemente na epopeia 

O segundo exemplo pode aludir, marginalmente, a um motivo. Mas duvido de que seja a lição escolar, que este tipo de alunos contesta e que pouco lhe diz, uma das causas relevantes para a génese dessa cultura ultranacionalista. Querem lá eles saber dos manuais; querem lá saber de Camões; lêem-no lá eles; querem lá saber dos professores de Português ou de História. Para essa cultura, para essa estética ideológica, para essa visão arrepiante do português puro sangue, tropeçam em outras fontes. Vivas e activas. Geralmente, em mau Português. 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

UM PEDIDO DE DESCULPA AOS ILETRADOS BONS

 Entre os adeptos do partido que não devemos nomear, no meio de comentários que, nas redes sociais, escrevem sistematicamente que "nada é pior do que a corrupessão que dura á 50 anos", ou "FORCA VENTURA" [não lhe desejando a pena capital, e sim coragem], ou "Deus o elimine" [este não sei se verídico, ou se uma piada, mas si non e vero...], corre a ideia de que a baixa instrução e os erros de Português são uma marca de simplicidade popular: quem assim escreve, fá-lo porque é do povo, começou a trabalhar cedo na vida (enquanto os privilegiados do sistema estudavam, bebiam e descansavam), sai de casa às 5 da manhã, regressando, à noite, cansado, ao lar disfuncional para que 50 anos de corrupessão o lançaram, e presume-se que, mesmo assim, para se sentar ainda ao computador, de forma a usar, no resto de tempo disponível do extenuante dia de trabalho, a sua liberdade de expressão, de forma a infundir energia a quem o há-de vingar e catapultar.

Confesso o meu guilty pleasure: às vezes, respondo. Atiro-me à lama. Entro em guerrilhas que sei de antemão quão vãs não podem deixar de ser. Chafurdo, respondo. Corrijo, sobretudo corrijo; aponto as falácias, emendo os erros arrepiantes.

Como o faço frequentemente, para além de me chamarem excremento, nas diversas formas populares, ou artista circense, e de me mandarem para lugares mal frequentados, ou (um clássico) me esfregarem na cara que não passo de um esquerdalho, acusam-me de ser um pretensioso (pertenssioso), que gosta de "umilhar gente de trabalho que não teve as mesmas opurtunidades".

Vinda de quem humilha e despreza os ciganos e os imigrantes, os insulta e persegue, rebaixando, portanto, os mais vulneráveis da sociedade, esta crítica desfaz-se por si na gargalhada que provoca. Mas a questão é que tenho muito respeito pelos iletrados. Apropriando-me ironicamente da expressão de Ventura, pelos "iletrados bons". Não por aqueles que não vêem contradição, nem têm vergonha, no mau uso da língua, quando se trata de excluir os que consideram menos portugueses, menos puros, menos conhecedores das tradições e da essência de Portugal, do que eles.

Tenho de odiar um partido que manipula, se aproveita e traz a reboque aquela parte dos menos instruídos, que faz, da sua baixa instrução, um motivo de ódio, um desejo de vingança, um ressentimento profundo. E canaliza a raiva contra os alvos: pessoas ainda abaixo de si na hierarquia social.

Posso compreendê-los? Sem dúvida. Posso temê-los e àquilo em que se tornará um ajuntamento de devoradores de tudo o que é limpo e saudável, desde o amor e a generosidade, até à gramática? É o que sucede.

Que os verdadeiros trabalhadores, cuja vida lhes não permitiu estudar, os iletrados que nunca fizeram da sua iliteracia uma forma vingativa de superioridade (e que não lerão provavelmente este texto, nem terão tempo a perder nas redes sociais) não confundam as coisas. A eles, as minhas desculpas. 

sábado, 27 de setembro de 2025

UMA TENTATIVA DE EXPLICAÇÃO DO INEXPLICÁVEL

 O que o Partido CHEGA representa é ambíguo e confuso, como em todas os exercícios onde se tenta definir contornos ideológicos a uma mera dinâmica de ambições e oportunismo. Mas o que é está descaradamente à vista: gente sem princípios nem educação, ressentidos que se manifestam aos berros e com insultos, instalando-se na assembleia como, dizia a minha saudosa mãe, "vilão em casa de seu sogro". 

O fascismo e o nazismo eram guiados por uma weltanschauung, insana, fracturante, opressiva, mas, ainda assim, uma visão do mundo que, à época, atraiu filósofos ainda hoje estudados, como o sinistro e brilhante Heidegger, ou investigadores com uma obra científica importante (e, já agora, merecedora do Prémio Nobel), como Konrad Lorenz. Eram pessoas ética e politicamente más, ou distorcidas, crendo em uma ideologia ignara, mas logicamente consistente. 

Tanto não poderíamos dizer dos membros do CHEGA. Reaccionários, claro, com referências e heranças que se dispersam, desde mal digeridas citações de Salazar, até doutrinas indiscutivelmente nazis, amassadas num fervor de claques de futebol e no espírito do marketing, dos tic tocs, das fake news, da simplificação extrema e da repetição contínua das mensagens. Claro que parte do nazismo alemão já era isso: as hordas, os ressentidos violentos, as tropas brutais. Uma anti-cultura, uma anti-inteligência. 

Seria quase impossível que, num partido onde as lutas internas, as invejas e as traições, mas, sobretudo, ressentimentos opostos e confusos, se movem, não transparecessem, para o exterior, erros de decisão. E isto sem ignorar a eficácia da sua propaganda. Mas os disparates e os tiros nos pés são tão constantes, que se torna um study case compreender por que razão não parecem afectar negativamente o seu eleitorado, fazer pensar duas vezes, levar a um recuo ou a uma hesitação entre os fiéis. 

A resposta fácil e mais vulgarizada tem sido: porque o saco em que o partido faz as suas conversões é o de gente sem instrução e sem horizontes, sem espírito crítico e, por isso, manipulável. Sem dúvida, trata-se de uma razão: quando se constrói um ídolo e se dissemina uma fé, os pés de barro são ardilosamente explicados; quando se defende uma máquina que divide um povo entre os nossos e os inimigos, as críticas e as denúncias proviriam necessariamente de inimigos e, portanto, nunca ultrapassam um viés mental: é tudo mentira, o que eles querem sabemos nós, ou, admitindo que se instale alguma dúvida, nunca a dúvida ganhará o peso de um problema acutilante, corrosivo e desagregador, uma vez que, em última análise - dirão -, os outros fizeram muito pior, foram mais corruptos e maldosos, e foram-no ao longo de cinquenta anos. 

Diria que há dois conceitos da psicologia que ajudam a entender a persistência da fé, apesar de uma realidade provocadora, que insiste em a desmentir sistematicamente. 

Um é o conceito de pertença: quando os seguidores são, em geral, deserdados e desfavorecidos, frustrados, os que já não têm esperança e odeiam a sua vida (a qual representam sob a forma de "o sistema"), nada pode abater a emoção de se sentirem ligados a um grupo, uma espécie de vencidos da vida, sem o talento dos originais vencidos da vida, que se unem para um derradeiro combate. "Agora vão ouvir-nos: aos nossos medos, aos nossos falhanços, à nossa raiva". 

O outro é a dissonância cognitiva. O mecanismo que permite separar, em esferas diferentes, desconectadas entre si, experiências e crenças que, conjugadas, levariam ao colapso daquilo em que acredito. Posso amar os animais, e apreciar um espectáculo de tourada, como se não existisse qualquer contradição. Posso crer em Deus, e fazer do roubo e da violência o meu modo de vida, ou crer numa profecia que não se verifica, sem pôr em causa as fontes da profecia. Posso ter conhecimento das burrices e dos vícios de deputados do CHEGA, e continuar a pensar que, nas suas mãos, o país, um dia, sairá do que tomei como "a miséria e a corrupção em que tem vivido desde o 25 de Abril".

domingo, 14 de setembro de 2025

UMA SUBIDA ANUNCIADA

Do partido do dr. Ventura, André, há duas particularidades a reter: que é um compósito do pior da idiossincrasia portuguesa e que o pior da idiosincrasia portuguesa se revela eficaz no país dos portugueses.

Para começar, trata-se de um "partido de protesto": traduzindo isso para a língua da realidade, significa que cresceu como o ponto de encontro dos ressentidos: os que nunca ninguém levou a sério na política porque eram pouco instruídos, ou porque sacaram uns cursos "inclusivos", em que Portugal se tornou pródigo para, em teoria, oferecer a todos as mesmas oportunidades académicas, enquanto a nova elite estudava em universidades prestigiadas do estrangeiro; os que, provenientes da "província" ou de meios "suburbanos", nunca fariam carreira nos partidos do "sistema", já tomados por aparelhos de universitários que haviam subido nas juventudes partidárias; os pequenos corruptos, sem um discurso ideológica (e moralmente, sobretudo) articulado, que os ajudasse a justificar os seus golpes rasca: furtar malas em aeroportos, caixas de moedas da paróquia, combustível das ambulâncias ou de veículos de bombeiros da agremiação de Bombeiros em que trabalhavam; não pagar impostos ou aldrabar nas declarações. Enfim, isto para dar uma ideia do nível a que nos referimos. 

O 25 de abril criara, por sua vez, milhares de ressentidos. Entre outros, pessoas que retornaram das ex-colónias, com o sonho das grandes paisagens e das praias maravilhosas para que os olhos da memória continuavam a olhar, e de que  se sentiam "despojados", "espoliados": tinham sido traídos; os latifundiários que se escaparam para os brasis, maldizendo comunistas e "esquerdalha"; os eclesiásticos postos em causa nos seus privilégios e na influência sobre o rebanho; e todos os esquecidos do que era o Portugal do Estado Novo, afagando, agora que os filhos podem estudar, a ideia de que antes (quando eles próprios não puderam estudar) era bom, era melhor, havia ordem e segurança. Este é o eleitorado potencial que o Chega despertou e uniu. Este, a que se juntaram, como sempre, os arruaceiros, os jovens estudantes sem objectivo, em idade de votar, que encontram, em Ventura e no seu partido, uma imagem de rebelião com que se identificam: a grosseria, o berrar mais alto, o provocar, o achincalhar, o "é para partir tudo!" - no fundo, o comportamento, entretanto impune e generalizado, que sempre tiveram em aulas, onde viam o professor como o velho que tinham de confrontar e os colegas mais fracos como alvos a perseguir. 

A estratégia do Chega é a não-estratégia de dividir: nós contra os outros (imigrantes, pessoas de esquerda, todos os que questionam o padrão da sexualidade e da identidade de género, por exemplo), e de lançar, sobre esses outros, todas as responsabilidades pela insegurança, pela corrupção, pelos incêndios, pelos males que nos assolam. Acusa-se, deturpa-se, mente-se. As redes são o autêntico poder de condicionamento de mentes menos sofisticadas. 

O que aconteceu recentemente em torno do pretenso festival do hambúrguer, a invenção que foi uma amostra de iliteracia e má-fé, parece exemplar: primeiro, o(correu) a divulgação da notícia falsa; depois, reconhecendo-se o erro, ainda se achou maneira de disparar culpas em todas as direcções: o Presidente fez várias viagens inúteis à custa do erário público (portanto seria fácil crer que se tratava de mais uma); o parlamento escreveu erradamente a palavra, esquecendo o "trema" ("a trema", lamentava-se Rita Matias) e, assim, provocando o equívoco (como se um deputado não tivesse de procurar mais informação, antes de vir para o tic toc); e a estocada final: foi cometido um lapso, de acordo, mas a imprensa, "antidemocraticamente anti-Chega", falou nele "como se tivesse havido um atentado" ou alguma coisa muito grave. 

Dizem que o partido veio subindo nas sondagens, que está à frente da própria AD. 

Há quem se espante?

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

O MISTÉRIO 'CARMEN MOLA'

 Desde Poe e Doyle (ou, se levarmos a sério a tese de Savater, desde, pelo menos, o Antigo Testamento, onde a história da Casta Susana prefigura e já em latência contém as normas do policial) que se foi estabelecendo um modelo de narrativa sobre resolução de crimes. Ingleses e norte-americanos, mais tarde autores franceses, vieram definindo os contornos, e o desafio agarrou e bastou aos leitores; não se pedia mais: um assassino extremamente inteligente, um investigador excêntrico, com miolos ágeis, aplicados à resolução de assassinatos impossíveis, uma mão cheia de suspeitos num ambiente fechado, e duas competições paralelas, que, paradoxalmente, se confundem: uma entre o criminoso e o solucionador de charadas, mas, sobretudo, outra entre o autor e o leitor. Enganei-te? Fui brilhante? Desviei-te a atenção do essencial? Acreditaste que o assassino era o suspeito que tornei mais provável? Ou, antes do fim, já te aperceberas do truque, da manobra, do indício oculto?

Mais tarde vieram os escritores nórdicos de histórias policiais e nada voltou a ser como era: já havia prenúncios, mas nunca a este ponto a introdução, no romance, de uma vida pesada e complexa, de detectives com problemas psicológicos, de alcoolismo, divórcios, tristezas e dramas profundos. Não demorou até que este modo deviesse a nova fórmula, e se digo fórmula também insinuo que acabou por ser a conjugação de alguns clichés.

Isto assente, estamos de férias, um policial lê-se sempre com prazer e dêmos a vez a uma autora espanhola. Mentira, para já. Tal como "Ferrante", também "Carmen Mola" não é real: um truque de magia, um nome vazio, um pseudónimo que se não sabia a quem fazer corresponder, uma operação de 'marketing'. Até que, no segundo volume da trilogia, se veio a saber (informação revelada na badana) que Carmen Mola é o nome sob que se ocultam três autores, escrevendo em conjunto, Antonio Mercero, Agustin Martínez e Jorge Díaz.

Os clichés, diríamos, estão reunidos e prontos a servir: a chefe de uma equipa, que bebe à tarde e à noite, ou faz sexo, no seu jipe, mais raramente no seu apartamento, em Madrid, com engates de bar (onde vai fazer karaoke), enquanto continua em busca do filho raptado há anos, insuportável situação que ditou a separação entre a Inspectora Elena Blanco e o pai do seu filho, que optou por continuar a vida e ser feliz.

E contudo, quando começamos a ler os romances, primeiro 'A Noiva Cigana', depois 'A Rede Púrpura' (e faltar-me-á o terceiro), muito bem escritos, isto é, literariamente exigentes, convincentes, com um toque de crueldade que nos incomoda, mas a que se não resiste, percebemos que os clichés não servem senão para sinalizar e confirmar um género, porque, na verdade, estas narrativas são literatura na verdadeira acepção da palavra, mas também um jogo de inteligência e suspense. Como se os autores nos dissessem: Mesmo com ingredientes de merda, que já viram centenas de vezes e não faltam em nenhuma despensa - até, na verdade, uma criminosa enviada para seduzir um polícia e, no fim, uma vez descoberta, lhe diz: "Pode ter começado como uma manobra, mas, a partir de certa altura, apaixonei-me de facto, fui sincera" -, vejam bem que pratos de luxo somos capazes de cozinhar. 

Carmen Mola, que não é Carmen Mola, oculta três autores que descobriram o método perfeito de trabalhar, a três, como se fossem um, produzindo policiais cultos e intensos.

sexta-feira, 1 de novembro de 2024

UM ABRAÇO AO AMORIM

 

Como sou um sportinguista de coração, mas não de sofrimentos cardíacos, posso apresentar-me na qualidade de um dos raros adeptos do Sporting com o espírito justo para compreender um lado e outro.

Por um lado, como todos os Leões (se é que a denominação me não fica larga), sinto-me triste. Não desesperado, não choroso; não arrepanho cabelos. Não vagueio por túneis de insónia. Mas é verdade que, tendo o meu filho, quando o Sporting perdia mais jogos do que ganhava, aos dez anos, desertado para o FCP (aliciado pelo padrinho), passei a ter de enfrentar mais isoladamente as sucessivas derrotas, a travessia da ditadura de Bruno de Carvalho, a vergonha do ataque a Alcochete. 

A chegada de Rúben Amorim foi, pois, uma revolução benéfica. Em todos os aspectos: as escolhas e os contratos bem feitos, o plano de acção, a construção de uma equipa. A humildade e a retórica exemplares. O Sporting tornou-se no que era. Mesmo um adepto longínquo como eu, amante rendido, sim, mas, ainda assim, longínquo, percebeu o orgulho a bater em si, o prazer, que não conhecia, ou não deste modo, de assistir a um jogo, de ver o Gyökeres a marcar golos ou os rivais eternos a embater num grupo fortíssimo.

Por outro lado, compreendo inteiramente a decisão de Amorim. Direi sempre que se tratou de uma escolha profissional, não ética. Pelo amor de Deus! A fidelidade a um clube de futebol não deve estar submetida a um imperativo categórico, nem o adeus terá consequências que superem o domínio do jogo. Fico impressionado com o que tenho ouvido proclamar: que Amorim se vendeu; que a despedida revela uma falha na sua integridade moral; que é uma traição. 

Só me entristece pensar que talvez o Sporting não encontre ninguém à altura. Que a aura dos últimos tempos se desfaça. Que, porventura, uma época que tão bom início teve, possa não ter a conclusão que prometia.

Mas, se tenho algumas palavras a enviar a Rúben Amorim, são: obrigado por tanto. 

Que me orgulhes, agora, como treinador português a trabalhar "lá fora".

segunda-feira, 19 de agosto de 2024

ALAIN DELON

 Por alguma razão, não me sentiria bem comigo mesmo, ainda na esfera de reverberação da morte do meu irmão, também levado, sofridamente, por um cancro, se não me pronunciasse aqui acerca de Alain Delon.

Existem, de que me tenha apercebido, duas correntes: a dos saudosos, que choram a partida do homem indiscutivelmente bonito e do bom actor (que outros garantem não ter sido assim tão bom, sequer) e a dos indignados, que fazem questão de relembrar o narcisista de extrema-direita, que - não sei se é verdade - teria batido em mulheres, e nunca reconheceu um filho. Como de costume, e não me orgulho, não consigo incluir-me em nenhum dos lados.

Delon não só era bonito, como a sua beleza marcou uma época. Então não me recordo dos suspiros da minha prima Paulinha que, recém entrada na fase pateta da juventude, assistira ao filme 'A Piscina', com um Alain Delon na sua melhor figura e uma fascinante Romy Schneider? Nem todas as belezas marcam desse modo, e os anos 60 não podem ser revisitados sem a pujança do cinema francês, e sem Bardot, Belmondo e Delon, para referir apenas três ícones de uma cultura cinematográfica pop.

Será pouco. Será o elemento superficial. Ou não, porque o ar de um actor ou de uma actriz definem as imitações que os espectadores farão, o modo de vestir, a pose de parte de uma geração. E também disso se faz o espírito e a imagem de um tempo, como as fotografias nos revelam.

Para além disso, discordo dos que afirmam que nunca foi senão um actor mediano ou medíocre. Diria que é um preconceito da mesma ordem dos que subjazem aos homens que, sobre uma mulher bela, insistirão sempre que se trata apenas de uma mulher bela, nunca inteligente ou talentosa. Comunguei desse preconceito, evidentemente. (Em relação a Delon, não a mulheres belas). Até a minha mãe me chamar, um dia, a atenção para a magnífica representação do jovem Alain Delon em 'O Leopardo', de Visconti. Nunca vira o filme. Tive a oportunidade de o fazer: ensinou-me a olhar para o actor com surpresa.

A sua vida pessoal pode ser ignorada ou esquecida? Não pode. Mas, em primeiro lugar, reivindico a separação, como sempre, entre a obra e a pessoa. Os seus filmes valem por si. Muito bons ou medíocres, não podem, não devem ser medidos pelos actos do realizador ou dos actores.

Que fosse de extrema-direita, confunde-me. Uma pessoa sensível e inteligente nunca será de extrema-direita. É o reino da estupidez, do medo e da ausência da inteligência emocional. Que fosse amigo de Le Pen e votante no partido dele e da filha ajusta-se perfeitamente à biografia do homem, que infelizmente foi, homofóbico e sem respeito pelas mulheres. Mas um homem é um homem - miserável, contraditório, com uma visão do mundo, da vida e dos outros, impregnada de vícios, terrores e péssimas escolhas. E se me parece fácil e linear pensar que nunca me daria com ele, razões várias me levam, hoje, a conviver com pessoas que ideologicamente me fazem estremecer.

A um homem que sofreu, que acabou detestando um mundo, a que, sem dúvida, legou alguma coisa muito boa e muita coisa má, ou terrível, e que já só desejava morrer, obviamente em guerra consigo mesmo, podemos perdoar. Não que o meu perdão sirva, ou faça diferença.  Nâo esquecer. Esquecer nada, esquecer nunca. Mas rever o que, dele, merece que se veja. E lamentar: sentir tristeza pela sua impotência para sentir tristeza pelos outros. Somos todos projectos errados com muito de bom, ou excelentes projectos com demasiados erros e culpa. A morte é sempre perda.