Eu tenho, evidentemente, a ideia do que haveria de ser uma crónica muito bem feita. Se isto fosse um diálogo, em palco, entrava aqui a réplica legítima do leitor: 《Então, por que não escreves uma única que o seja?》 Bem. Porque entre o conceito e a realidade sobeja sempre a clivagem que só alguns raros exercícios de talento conseguem preencher.
Mas diria que tudo principia na linguagem. No Verbo, como na origem de tudo. Primeira complexidade a transpor: a linguagem deve ser simples, não porque a crónica precise de chegar aos néscios, mas porque tem de provocar um particular prazer de leitura, uma errância agradável, sem escolhos, um flâner, um percurso leve ao longo de um rio, sem que soçobremos ao peso de uma mochila ou tenhamos optado pela bicicleta como meio de transporte, que nos obriga a pedalar; mas, ao mesmo tempo, suficientemente culta, não ao ponto da erudição, que maça, mas que não descaia em cedências que fariam o leitor sentir-se diminuído.
A crónica perfeita, ou a que assim me soa, carece de humor. Não tem de se construir como uma performance cómica, como as do Veríssimo ou, entre nós, as do Ricardo Araújo Pereira, mas seria interessante que, no mínimo, mantivesse um sorriso no rosto do leitor e, de vez em quando, o levasse, sei lá, a uma gargalhada, um sopro que fosse, um estremecimento físico de boa-disposição. Sabia perfeitamente o que queria, quando decidi, arrogantemente, nomear este blogue Crómicas. Se passarem uma vista de olhos pelo que aqui fui publicando ao longo do tempo, terão consciência da dimensão do falhanço. Seria como ter chamado Ética & Etiqueta a um blogue sobre comportamentos de deputados de um certo partido no parlamento.
Do meu ponto de vista, a crónica perfeita recolhe e oferece uma história da História, como ilustração de um argumento ou do próprio tema. De preferência, uma história sobre uma figura bastante conhecida, mas suficientemente bizarra e, portanto, inesperada, para que prenda a atenção. Falar de um músico se o tema for música, de um pintor, de um escritor, de um político. Não têm de ser histórias morais. Apenas que façam exclamar ao leitor, de si para si: "Esta agora!" ou "É boa!"
Talvez, também, mas nem sempre e não, portanto, obrigatoriamente, uma confissão pessoal. Um acontecimento autobiográfico, sem qualquer expressão de vaidade ou arrogância. Um apontamento que estabeleça um vínculo de afecto e compreensão com o leitor. Santo Agostinho, por exemplo, teria sido um excelente autor de crónicas: a escrita simples e cultivada, o humor omnipresente, as histórias e os desabafos. Refiro-me ao Agostinho de As Confissões, não ao de A Cidade de Deus.
No início de toda esta elaboração, é claro, estariam um tema e um argumento, que toda a crónica fosse o trabalho de explicitar e desenvolver. Se a crónica for apenas o argumento, sem nenhum dos benefícios que elenquei, torna-se maçadora. Um leitor de crónicas preferiria um ensaio, se se interessasse apenas pelo argumento. Podia referir imediatamente dois ou três maçadores que se fixam nesta lente e não são capazes de respirar o ar e o tempo da crónica.
Posso, às vezes, ser um deles. Mas não me indicaria em primeiro lugar. Comparativamente, o meu falhanço sistemático nesta matéria não é mais do que um falhançozito.