Poucas pessoas me conhecem. Mas essas poucas e, de entre elas, as, ainda em menor número, que aqui ou ali me vão lendo, sabem que sou um viciado em romances policiais. E se há quem pareça ter a certeza de que se trata de um género menor, tenho, pelo meu lado, a certeza de que quem tenha lido alguns autores do policial, americanos, franceses, espanhóis ou nórdicos (não é por lapso que não refiro ingleses, embora Conan Doyle ou Agatha Christie façam parte da História e tenham um lugar especial à mesa) se apercebeu de que podemos, na verdade, falar de literatura maior.
Sou, igualmente, um apreciador de teorias sobre o policial. Ou teorias acerca de "antecipações" das regras que fundariam o género. Conhecem a tese de Savater, por exemplo? A de que a primeira narrativa de solução do crime pode ser encontrada na Bíblia: a passagem sobre a Casta Susana, em que reside, inconscientemente, a génese do 'modus operandi' de Poirot, reunindo a sua audiência de suspeitos, para, vaidoso em face desse público (um público, para todos os efeitos), desenvolver o argumento cuja conclusão apontará o dedo ao assassino?
Agora, por favor, prestem atenção a uma pintura de Bosch. Chama-se 'O Prestidigitador' e, ao invés de nos abrir para o segredo de consequências de pecados humanos, a que nos acostumou, com vislumbres de caos e de inferno, revelados por figuras bizarras, absurdas, horrendas ou cómicas, antes se limita à observação de uma cena de rua, não só, diríamos, pouco boschiana, mas, também, pouco vulgar entre os pintores da sua época.
O prestidigitador seria um desses aldrabões de rua, que teremos visto, também, algum dia. Atrás de uma mesa em que estão pousados uns copinhos, prepara-se para esconder, sob um deles, uma pequena esfera: manipulará, depois, ágil e vertiginosamente, os copos, com o intuito de que o público tente (não) adivinhar onde se acha, isto é, se engane quando julga ter percepcionado e seguido perfeitamente os movimentos.
Nessa pintura, vemos como o prestigitador concentra a atenção de um ajuntamento de curiosos, numa pequena bola, talvez uma bolota, enquanto, por trás da multidão, um cúmplice corta a bolsa de um homem especialmente atento, infantilmente atento, ingenuamente atento ao fruto exibido pela mão que o artista de rua ergue diante dos seus olhos.
Ora, identifico, aqui, o princípio do policial. Fixar a atenção do leitor nos acontecimentos ou nas personagens que o desviam do essencial. É, no fundo, subterraneamente que, julgando estarmos a compreender os arames do mistério, se vai armando o que não vemos, ou melhor, aquilo a que não prestamos atenção, mas será decisivo para a solução.
No maravilhoso quadro de Bosch, é esse engano (aliás, duplo: uma bolinha que será escondida, mas não onde nos pareceu que a víamos sê-lo; e o engano de não olharmos de imediato para o que completa e esclarece a situação), é essa quase ilusão óptica que ocorre, não só no que toca aos protagonistas da cena, mas aos espectadores desta pintura. Também nós, inevitavelmente, começamos por nos prender ao prestidigitador, à sua mão e ao que ela segura, como se se tratasse do foco do quadro. Só num segundo momento nos apercebemos da fraude. De que estamos em presença de um furto em que não reparávamos.