Do partido do dr. Ventura, André, há duas particularidades a reter: que é um compósito do pior da idiossincrasia portuguesa e que o pior da idiosincrasia portuguesa se revela eficaz no país dos portugueses.
Para começar, trata-se de um "partido de protesto": traduzindo isso para a língua da realidade, significa que cresceu como o ponto de encontro dos ressentidos: os que nunca ninguém levou a sério na política porque eram pouco instruídos, ou porque sacaram uns cursos "inclusivos", em que Portugal se tornou pródigo para, em teoria, oferecer a todos as mesmas oportunidades académicas, enquanto a nova elite estudava em universidades prestigiadas do estrangeiro; os que, provenientes da "província" ou de meios "suburbanos", nunca fariam carreira nos partidos do "sistema", já tomados por aparelhos de universitários que haviam subido nas juventudes partidárias; os pequenos corruptos, sem um discurso ideológica (e moralmente, sobretudo) articulado, que os ajudasse a justificar os seus golpes rasca: furtar malas em aeroportos, caixas de moedas da paróquia, combustível das ambulâncias ou de veículos de bombeiros da agremiação de Bombeiros em que trabalhavam; não pagar impostos ou aldrabar nas declarações. Enfim, isto para dar uma ideia do nível a que nos referimos.
O 25 de abril criara, por sua vez, milhares de ressentidos. Entre outros, pessoas que retornaram das ex-colónias, com o sonho das grandes paisagens e das praias maravilhosas para que os olhos da memória continuavam a olhar, e de que se sentiam "despojados", "espoliados": tinham sido traídos; os latifundiários que se escaparam para os brasis, maldizendo comunistas e "esquerdalha"; os eclesiásticos postos em causa nos seus privilégios e na influência sobre o rebanho; e todos os esquecidos do que era o Portugal do Estado Novo, afagando, agora que os filhos podem estudar, a ideia de que antes (quando eles próprios não puderam estudar) era bom, era melhor, havia ordem e segurança. Este é o eleitorado potencial que o Chega despertou e uniu. Este, a que se juntaram, como sempre, os arruaceiros, os jovens estudantes sem objectivo, em idade de votar, que encontram, em Ventura e no seu partido, uma imagem de rebelião com que se identificam: a grosseria, o berrar mais alto, o provocar, o achincalhar, o "é para partir tudo!" - no fundo, o comportamento, entretanto impune e generalizado, que sempre tiveram em aulas, onde viam o professor como o velho que tinham de confrontar e os colegas mais fracos como alvos a perseguir.
A estratégia do Chega é a não-estratégia de dividir: nós contra os outros (imigrantes, pessoas de esquerda, todos os que questionam o padrão da sexualidade e da identidade de género, por exemplo), e de lançar, sobre esses outros, todas as responsabilidades pela insegurança, pela corrupção, pelos incêndios, pelos males que nos assolam. Acusa-se, deturpa-se, mente-se. As redes são o autêntico poder de condicionamento de mentes menos sofisticadas.
O que aconteceu recentemente em torno do pretenso festival do hambúrguer, a invenção que foi uma amostra de iliteracia e má-fé, parece exemplar: primeiro, o(correu) a divulgação da notícia falsa; depois, reconhecendo-se o erro, ainda se achou maneira de disparar culpas em todas as direcções: o Presidente fez várias viagens inúteis à custa do erário público (portanto seria fácil crer que se tratava de mais uma); o parlamento escreveu erradamente a palavra, esquecendo o "trema" ("a trema", lamentava-se Rita Matias) e, assim, provocando o equívoco (como se um deputado não tivesse de procurar mais informação, antes de vir para o tic toc); e a estocada final: foi cometido um lapso, de acordo, mas a imprensa, "antidemocraticamente anti-Chega", falou nele "como se tivesse havido um atentado" ou alguma coisa muito grave.
Dizem que o partido veio subindo nas sondagens, que está à frente da própria AD.
Há quem se espante?
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