O que o Partido CHEGA representa é ambíguo e confuso, como em todas os exercícios onde se tenta definir contornos ideológicos a uma mera dinâmica de ambições e oportunismo. Mas o que é está descaradamente à vista: gente sem princípios nem educação, ressentidos que se manifestam aos berros e com insultos, instalando-se na assembleia como, dizia a minha saudosa mãe, "vilão em casa de seu sogro".
O fascismo e o nazismo eram guiados por uma weltanschauung, insana, fracturante, opressiva, mas, ainda assim, uma visão do mundo que, à época, atraiu filósofos ainda hoje estudados, como o sinistro e brilhante Heidegger, ou investigadores com uma obra científica importante (e, já agora, merecedora do Prémio Nobel), como Konrad Lorenz. Eram pessoas ética e politicamente más, ou distorcidas, crendo em uma ideologia ignara, mas logicamente consistente.
Tanto não poderíamos dizer dos membros do CHEGA. Reaccionários, claro, com referências e heranças que se dispersam, desde mal digeridas citações de Salazar, até doutrinas indiscutivelmente nazis, amassadas num fervor de claques de futebol e no espírito do marketing, dos tic tocs, das fake news, da simplificação extrema e da repetição contínua das mensagens. Claro que parte do nazismo alemão já era isso: as hordas, os ressentidos violentos, as tropas brutais. Uma anti-cultura, uma anti-inteligência.
Seria quase impossível que, num partido onde as lutas internas, as invejas e as traições, mas, sobretudo, ressentimentos opostos e confusos, se movem, não transparecessem, para o exterior, erros de decisão. E isto sem ignorar a eficácia da sua propaganda. Mas os disparates e os tiros nos pés são tão constantes, que se torna um study case compreender por que razão não parecem afectar negativamente o seu eleitorado, fazer pensar duas vezes, levar a um recuo ou a uma hesitação entre os fiéis.
A resposta fácil e mais vulgarizada tem sido: porque o saco em que o partido faz as suas conversões é o de gente sem instrução e sem horizontes, sem espírito crítico e, por isso, manipulável. Sem dúvida, trata-se de uma razão: quando se constrói um ídolo e se dissemina uma fé, os pés de barro são ardilosamente explicados; quando se defende uma máquina que divide um povo entre os nossos e os inimigos, as críticas e as denúncias proviriam necessariamente de inimigos e, portanto, nunca ultrapassam um viés mental: é tudo mentira, o que eles querem sabemos nós, ou, admitindo que se instale alguma dúvida, nunca a dúvida ganhará o peso de um problema acutilante, corrosivo e desagregador, uma vez que, em última análise - dirão -, os outros fizeram muito pior, foram mais corruptos e maldosos, e foram-no ao longo de cinquenta anos.
Diria que há dois conceitos da psicologia que ajudam a entender a persistência da fé, apesar de uma realidade provocadora, que insiste em a desmentir sistematicamente.
Um é o conceito de pertença: quando os seguidores são, em geral, deserdados e desfavorecidos, frustrados, os que já não têm esperança e odeiam a sua vida (a qual representam sob a forma de "o sistema"), nada pode abater a emoção de se sentirem ligados a um grupo, uma espécie de vencidos da vida, sem o talento dos originais vencidos da vida, que se unem para um derradeiro combate. "Agora vão ouvir-nos: aos nossos medos, aos nossos falhanços, à nossa raiva".
O outro é a dissonância cognitiva. O mecanismo que permite separar, em esferas diferentes, desconectadas entre si, experiências e crenças que, conjugadas, levariam ao colapso daquilo em que acredito. Posso amar os animais, e apreciar um espectáculo de tourada, como se não existisse qualquer contradição. Posso crer em Deus, e fazer do roubo e da violência o meu modo de vida, ou crer numa profecia que não se verifica, sem pôr em causa as fontes da profecia. Posso ter conhecimento das burrices e dos vícios de deputados do CHEGA, e continuar a pensar que, nas suas mãos, o país, um dia, sairá do que tomei como "a miséria e a corrupção em que tem vivido desde o 25 de Abril".
Realmente contraditório. O importante é poder! Infelizmente. Escreve muito bem. Parabéns!
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