Eu gostava imenso do meu irmão. Gostava e gosto, claro. Mas é diferente amar uma pessoa viva e amar a sua memória. A memória não nos agarra fisicamente, não ri connosco ou de nós, e não nos surpreende, porque se limita a repetir o que já experimentámos, só que, nesta forma, transformada em saudade, mais dolorosa mas muito menos nitidamente. Amava-o, portanto: um misto de mito em que se tornam, frequentemente, os irmãos mais velhos, feito a partir das aventuras de que suspeitamos; do mundo jovem, depois adulto, em que queremos penetrar quando somos crianças, mas de que temos, apenas, vislumbres, como a uma janela mágica, que falseia e agiganta o que julgamos estar a ver; de provocação irritante, que somos muito novos para levar a bem; de um humor trepidante; e daquela sanguinidade, composta por diferenças e semelhanças que me fizeram sempre sentir que eu era um dos seus rostos, que ele era um dos meus rostos, como se representasse aquele em que eu me tornaria quando mais velho, como se fosse o José Pacheco do futuro visitando-me numa encruzilhada do tempo.
Meu irmão foi admirável com a minha mãe. Tornou possível que ela ficasse a viver na «sua casinha», evitando, com unhas e dentes, que acabasse num Lar, seu derradeiro terror. Com sacrifício da sua vida, dormindo mal para poder acompanhá-la, cuidando-lhe das refeições e da medicação, às vezes no limiar do exaspero e da depressão, o meu irmão nunca virou costas.
A nossa relação não vogou sempre pacificamente. Demo-nos bem e demo-nos mal: neste amor que às vezes negávamos e que tantas vezes renegámos imiscuíam-se indignações, ciúmes, quase traições. O meu irmão não era uma pessoa fácil, como eu próprio só devo parecer fácil a mim mesmo.
Mas se ele não era fácil, da sua complexidade (emocional, intelectual, ética) fazia parte uma grandeza que tendia a passar despercebida. O seu percurso de jornalista e de especialista em assuntos africanos permitiu-lhe momentos decisivos, muitos dos quais só vieram a ser conhecidos por mim, através de interpostas pessoas, já após a sua morte. Como Secretário da Fundação Pro Dignitate, presidida pela Dra. Maria de Jesus Barroso (até aos terríveis choques que foram o falecimento da Presidente, primeiro, e o encerramento da organização), terá vivido o tempo mais feliz, mais empenhado, mais intenso dos últimos anos, ajudando a proporcionar apoios, negociando decisivamente, no terreno, com líderes desavindos, trabalhando para a Paz. Foi, aliás, um dos mais sérios e abnegados pensadores do que designava por Jornalismo para a Paz. Pensou-o e praticou-o, viajando e dando formação em Cabo Verde e na Guiné-Bissau.
Não tivemos, durante muito tempo, a necessidade de nos encontrar com regularidade. Nos últimos meses, quando o cancro, já instalado e a multiplicar-se havia muito (escondido por ele que, certamente, desconfiaria, mas nos quis poupar), quando o maldito cancro, escrevia, não podia continuar a ser varrido para debaixo do tapete, reaproximámo-nos. Vivemos, então, tempos horrorosos e maravilhosos: o horror de assistir à rápida degradação física, à dificuldade de se deslocar, às esperas prolongadas, e inúteis, de consultas e de exames, num périplo desgastante pelos hospitais de um sistema público bem intencionado, mas impotente, e a maravilha dessa nossa reaproximação. Conversávamos, lembrávamo-nos, nunca nos faltou assunto, seríamos sempre dois africanos retornados a Portugal, e aos retornados de África nunca falta assunto, almoçávamos no restaurante do casal misto, ela brasileira, ele português, com uma proibida jarra de vinho tinto a forçar a sua presença, manchando o papel que cobria a mesa. Insistia em comprar-me jornais, entre os quais o 'Tal & Qual', que não aprecio, mas me recomendava por causa da crónica, muito interessante, dizia ele, da Rita Ferro. Enviava-me as reportagens que ainda fazia para a Rádio África, as últimas, preciosas, com lapsos de tempo e uma voz enfraquecida, mas sempre de uma informação completíssima e exposta com a simplicidade dos grandes homens que escolhem a modéstia.
Queria sentir-se amado. Cumprimentava todas as pessoas no seu bairro, exagerando nas gorjetas, quer fosse tomar um café ou cortar o cabelo. Fazia questão de me apresentar: É o meu irmão mais novo.
Telefonava-me todas as noites.
Às vezes, à noite, esperando um seu telefonema, demoro alguns instantes até aperceber-me que já não haverá.
Uma homenagem muito bonita.
ResponderEliminarO Antoninho foi uma personagem inesquecível da minha adolescência: primo mais velho e a viver ali ao lado, dava-me livros para ler e falava "de coisas importantes" com os amigos, que me aceitavam no grupo apesar de um pouco mais nova! Nessa altura da vida em que uma pesssoa se sente especial por ser-se aceite pelos jovens "mais velhos"!
Sempre me ficou uma recordação carinhosa, não só dele mas também dos teus pais e de ti, a quem recordo especialmente como artista dos teatros que organizavas!
Um abraço com muita ternura a voar deste lado.
Muito obrigado, minha querida prima. Há a ideia de uma vida vivida em comum por nós, que estávamos, então, juntos em Moçambique, que será sempre, para mim, das mais gratas recordaçõess que guardo. Os teus avós, a tua mãe (que não sei bem se ainda conheci), o teu pai, as tuas irmãs e o teu irmão, os meus pais e o meu irmão, os primos, os amigos - e os circos, os teatros, as festas que nos reuniam até tarde na vossa casa, constituirão sempre a memória imorredoira de uma infância e de uma juventude quase perfeitas.
ResponderEliminarQue lindo Pax, fez me chorar...Um grande abraço.
ResponderEliminarObrigado. Não queria fazer chorar...
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