sábado, 12 de setembro de 2026

DE ALGUMAS CONTRADIÇÕES DA ESQUERDA

 

Simone de Beauvoir - que não deve ter sido uma pessoa de fácil convivência, mas pensava bem, a despeito das contradições e de algumas ideias que soariam como música superior ao Zeitgeist em que viveu, mas a história veio revelar como grave e pesadamente erradas - afirmou que o facto de as mulheres muçulmanas terem de cobrir o rosto era um problema religioso e cultural, que os intelectuais ocidentais não tinham o direito de julgar e com que não deviam interferir. Repito, Simone de Beauvoir: uma feminista, a autora do brilhante Le Deuxième Sexe.

Mais do que uma contradição grosseira, identifico, aqui, um tipo de dilema que me não é indiferente e com o qual a esquerda, tendo sempre por referência o sentido de justiça e de moral, frequentemente se debate. Este é um exemplo, mas falarei também de outros. Qual o limiar, no meu desejo de que as mulheres sejam tão livres como os homens, em que, a partir da minha visão de liberdade, assumida como padrão universal, não devo ousar - eu, homem, privilegiado, branco, ateu, heterossexual - falar em nome do que sentem mulheres que não conheço, não compreendo e não partilham comigo as crenças?

Um exemplo mais simples, banal, até, mas que me intrigou profundamente na altura, foi ter sido apresentado a uma brasileira progressista, que, quando falávamos sobre música brasileira e eu, ingenuamente, trazia à baila o samba, me retorquiu gelidamente: "Eu não oiço samba". O subentendido sendo: música brasileira é MPB - Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil. Não traga à conversa essas sub-canções que desrespeitam a mulher e alienam o povão.

Deus do céu. Teria ela ideia da heresia? De que poderia não gostar, sem depreciar, como se não houvesse sambas encantadores e como se a sua proximidade ao povo, justamente, não fosse uma marca de grandeza? Martinho da Vila, Sô Jorge? Não?

Continuemos com dilemas do quotidiano, menores, mas sugestivos no que põem evidência: o caso  Jerry Seinfeld.

Seinfeld, cuja sitcom me fazia rir a bandeiras despregadas nos anos 80/90, tornou-se um dos mais acérrimos defensores de Israel. O seu desdém pelos palestinianos e pelo que se passa em Gaza atinge raias do repulsivo. Se me sinto frustrado, incomodado? Se me despedi de um dos ídolos da minha juventude? Sem dúvida. 

Vejo artistas que faziam parte do cartaz a retirar-se. Oiço (leio), à volta deles, levantarem-se coros de indignação. Assisto ao apontar tremente de dedos à falta de espírito democrático destes humoristas, que se mostrariam - segundo as críticas - incapazes de comungar o palco com quem tenha uma diferente visão. 

E claro que se trata de uma falácia. Porque, sobretudo, não há como estes comediantes, permanecendo no festival, não estivessem a aderir, a validar, como agora se diz, a posição política do cabeça de cartaz. Estão, portanto, a assumir a sua liberdade - não a cancelar ou a impedir, mas a não querer misturar-se. A questão Israel/Gaza, aliás, mantém-se muitíssimo delicada e está demasiado ao rubro, para que possamos assobiar para o lado. 

Mas eis que cómicos da esquerda, os pesos-pesados do humor português, Bruno Nogueira e Ricardo Araújo Pereira, sobem a dizer mal dos seus parceiros de comédia: centrando-se na ideia de que participar num festival de humor não implica aceitar as posições políticas do comediante principal (peço que pensem outra vez no assunto, por favor, do ponto de vista do olhar do público), e retomando a questão do atraso dos desertores na decisão pelo abandono (como se isso fosse fundamental, como se caísse mal mudar-se de ideias).

Do sofá relativamente anónimo de onde sigo a discussão, BN e RAP não têm razão. Nenhuma. Mas, uma vez mais, onde está a linha que separa os justos e os traidores, os legitimamente de esquerda e os que se venderam?

Pensem na Ucrânia por um segundo. E em como todos os que consideram justo e legítimo que os ucranianos se defendam do Dr. Nefando têm de entrar em choque com o PCP e, de algum modo, neste ponto, estarem ao lado da ignorante e imprestável Helena Ferro Gouveia.

Tudo se confunde, não é?

Porque ser de esquerda não se assume no abstracto, como uma adesão a uma visão nobre e uniforme, independente de outras razões, de outros afectos, de singularidades biográficas, de amores pessoais.

É tramado.

sábado, 5 de setembro de 2026

ADEUS, SEINFELD

 

Eu tenho um problema com Jerry Seinfeld: infelizmente, é achar-lhe tanta graça. 

Recordo-me de que, nos anos 80 (porventura; não sou particularmente hábil no jogo de propor à memória que situe as lembranças no tempo), vindo, eu, não havia muito, de Moçambique, quando os programas de televisão (como A Visita da Cornélia ou a Gabriela...) ainda me ofereciam o prazer da surpresa, sofri o humor de Seinfeld como uma deleitosa punhalada. As conversas surreais daqueles quatro abriam-me comportas desconhecidas na forma de fazer humor. O sarcasmo acutilante de Seinfeld, as ideias, os projectos, a movimentação física, delirantes, de Kramer, o espírito contundente de Elaine e - guardo para o fim a referência à minha personagem predilecta - o egoísmo patético de George, o seu hilariante modo de fazer, do insucesso, uma atitude na vida, preenchiam euforicamente as tardes de um jovem retornado, sem planos, sem amigos, sem objectivos. Devo-lhe isto. Não propriamente o não me ter suicidado, mas, com certeza, haver lidado melhor com um princípio de esgotamento.

Daria fosse o que fosse, transcorridos tantos anos, para o ir ver, ao vivo, em Portugal. Teria comprado bilhete, mesmo que fosse caro. Planeara-o com antecedência. Seria um daqueles momentos de reencontro com o melhor do passado, cujas oportunidades se acham raramente e, ao suceder, se iluminam e nos iluminam.

Mas eis que fui cruelmente surpreendido pela sua posição acerca da Palestina. Eis que, inadvertidamente, o ouvi dizer, respondendo a uma pergunta, enquanto caminhava, que a Palestina não existe. Ou, com uma piada de gosto duvidoso, que o assassínio de crianças palestinianas não o preocupa. (Pensará que não passa de propaganda antissemita? ou que que Israel apenas se defende de um cerrado e violento cerco inimigo?)

Escrevi, em outra crónica, que é possível (e fundamental) separar-se o autor e a obra. Lorenz nunca deixará de ter sido um contributo importante na criação da etologia. E por que haveríamos de deixar de ler um dos melhores cultores da língua francesa, como o genial Céline? Ou riscar da nossa lista os filmes de Woody Allen, culpado ou inocente?

Mas, de súbito, percebo, sob a desilusão, que, por vezes, na prática, a separação pode não ser tão fácil de se efectuar. Pode estar aquém de qualquer tentativa em que nos empenhássemos. Não teria capacidade para ir assistir, neste momento, a um espectáculo de Seinfeld. Parece, aliás, que já se não realizará. Mas não o faria, fosse como fosse. Prevejo que, no momento, sentado numa cadeira confortável, repentinamente tornada desconfortável, os olhos postos no meu ídolo de outrora, de cada vez que me risse, estaria a arrancar-me gargalhadas insuportavelmente dolorosas. A minha consciência não vem dotada de sentido de humor.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

QUE AO MENOS O VERÃO...

 

Não aprecio a personalidade que veio sendo destapada a Luís Neves. Só para começar. Podem branquear a situação com os argumentos que quiserem, clamando, excitadamente, que se formou uma cabala, que se assiste a um aproveitamento pela extrema-direita, que se mobiliza um ataque injusto e sistemático por parte dos seus arqui-inimigos, que, do meu ponto de vista, no nó do problema nada muda, nem mudaria ainda que houvesse cabala e aproveitamento. Eis o aspecto que não se consegue apagar: nenhuma das suas explicações foi convincente - a arrogância de um homem a mascar pastilha, repetindo a idiotice de que os desmandos e ilegalidades por si cometidos teriam sido actos superiores de gestão, poupando milhares ao Estado, vê-se e ouve-se como um cruel e patético tiro no pé. 

O carro apreendido, que se usava como veículo próprio, ou de serviço, tanto faz, parece-me mais um exemplo de espertice. Do género "Chico". Posso admitir que, em relação às questões da piscina/tanque, do modo de pagamento da casa, dos lapsos nas declarações, pudessem ter existido enganos, esquecimentos, sei lá - muito bem. Entretanto, em relativamente pouco tempo, consta que novas bizarrias foram sendo descobertas, desde aproveitamento de um sofá, a nem sei, nem quero saber que mais... 

Tenho noção, claro, como alguém comentava, que, teleguiada ou não, a imprensa o tomou como alvo obsessivo, não lhe largando o calcanhar - de modo que, quando só se fala dele, todos os pecadilhos, em conjunto, fomentam nos leitores e nos tele-espectadores a percepção de se estar perante um mafioso.

Lamento muito. Porque ao governo de um país que arde por todo o lado ao despontar dos verões, Luís Neves chegava como um ministro competentíssimo, quase como o que, mais do que antecipar e prevenir minuciosamente as catástrofes prováveis, munir, as forças de combate ao fogo, de meios novos e eficazes, ou prender os criminosos que se passeassem pelas matas, de isqueiro no bolso, ia dizer ao clima e ao arvoredo: "Take it easy, que, agora, aqui ao leme, estou eu!"

Não sei se as condições objectivas, como dizia Sérgio Sousa Pinto, com a sua típica voz de cansaço ante as enormidades dos que dele discordam, lhe permitirão aguentar-se no poder. É uma história em que ninguém fica bem. Palpita-me que, independentemente das "condições objectivas", o primeiro-ministro não irá despedi-lo. Assim sendo, o partido intragável do intragável dr. Ventura pavonear-se-á, no palco, por muito tempo. Neves mostra a roupa toda rota, como um náufrago, e dificilmente conseguirá retirar à jangada, intacta e credível, a autoridade. Caramba, é mau. Que, ao menos, em relação aos fogos faça um excelente trabalho. Já teria valido a pena gramarmos a vergonha.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

O QUE SERIA A CRÓNICA PERFEITA QUE ESTA NÃO É

 Eu tenho, evidentemente, a ideia do que haveria de ser uma crónica muito bem feita. Se isto fosse um diálogo em palco, entrava aqui a réplica legítima do leitor: 《Então, por que não escreves uma única que o seja?》 Bem. Porque entre o conceito e a realidade sobeja sempre a clivagem que só alguns raros exercícios de talento conseguem preencher. 

Mas diria que tudo principia na linguagem. No Verbo, como na origem de tudo. Primeira complexidade a transpor: a linguagem deve ser simples, não porque a crónica precise de chegar aos néscios, mas porque tem de provocar um particular prazer de leitura, uma errância agradável, sem escolhos, um flâner, um percurso leve ao longo de um rio, sem que soçobremos ao peso de uma mochila ou tenhamos optado pela bicicleta como meio de transporte, que nos obriga a pedalar; mas, ao mesmo tempo, suficientemente culta, não ao ponto da erudição, que maça, porém, ainda assim, sem que descaia em cedências que fariam o leitor sentir-se desrespeitado.

A crónica perfeita, ou a que assim me soa, carece de humor. Não tem de se construir como uma performance cómica, como as do Veríssimo ou, entre nós, as do Ricardo Araújo Pereira, mas seria interessante que, no mínimo, mantivesse um sorriso no rosto do leitor e, de vez em quando, o levasse, sei lá, a uma gargalhada, um sopro que fosse, um estremecimento físico de boa-disposição. Sabia exactamente o que queria, quando decidi, com alguma dose de arrogância, nomear este blogue Crómicas. Se passarem uma vista de olhos pelo que aqui fui publicando ao longo do tempo, terão consciência da dimensão do falhanço. Seria como ter chamado Ética & Etiqueta a um blogue sobre comportamentos de deputados de um certo partido no parlamento.

Do meu ponto de vista, a crónica perfeita recolhe e oferece uma história da História, como ilustração de um argumento ou do próprio tema. De preferência, uma história sobre uma figura bastante conhecida, uma narrativa suficientemente bizarra e, portanto, inesperada, para que prenda a atenção. Falar de um músico se o tema for música, de um pintor, de um escritor, de um político, se for o que vem a propósito. Não têm de ser histórias morais. Apenas que façam exclamar ao leitor, de si para si: "Esta agora!" ou "É boa!"

Talvez, também, mas nem sempre e não, portanto, obrigatoriamente, uma confissão pessoal. Um acontecimento autobiográfico, sem qualquer expressão de vaidade ou arrogância. Um apontamento que estabeleça um vínculo de afecto e compreensão com o leitor. Santo Agostinho, por exemplo, teria sido um excelente autor de crónicas: a escrita simples e cultivada, o humor omnipresente, as histórias e os desabafos. Refiro-me ao Agostinho de As Confissões, não ao de A Cidade de Deus.

No início de toda esta elaboração, é claro, estariam um tema e um argumento, que toda a crónica fosse o trabalho de explicitar e desenvolver. Se a crónica for apenas o argumento, em todo o seu peso e articulação lógica, sem nenhum dos benefícios que elenquei, torna-se aborrecida. Um leitor de crónicas preferiria um ensaio, se se interessasse apenas pelo argumento. Podia referir imediatamente dois ou três maçadores que se fixam nesta lente e não são capazes de respirar o ar e o tempo da crónica.

Posso, às vezes, ser um deles. Mas não me indicaria em primeiro lugar. Comparativamente, o meu falhanço sistemático nesta matéria não é mais do que um falhançozito.


terça-feira, 1 de setembro de 2026

O CASO ARDAY, TANTO TEMPO DEPOIS

 

Nada faz pensar que escrever acerca de Arday, tanto tempo volvido sobre os acontecimentos (e, mais do que tudo, sobre o seu trágico suicídio) me apresente como a pessoa mais apta a manter-se na crista da informação e do pensamento. Mas, para além do facto de que ter preferido o silêncio quando todos se apressavam a disparar opiniões (e não confundam, pelo amor de Deus vos peço, este meu cuidado, com a crítica aos opinion-makers mais lestos, feita, a propósito da 'Odisseia', por Rodrigo Guedes de Carvalho) me deu tempo para considerar vários ângulos e sopesar os diferentes pesos, numa questão tão delicada e complexa, terrível e espinhosa. Não só isso: é certamente verdade, também, que num blogue de 4a categoria, soterrado nos escombros de uma subcave praticamente invisível, e mesmo sem querer desrespeitar os meus 3 leitores habituais, a urgência dos assuntos se torne um pouco irrelevante - o que me faz sentir, é claro, mais livre e solto para falar do que bem entenda, quando bem me apeteça. Por fim, que, mesmo tratando-se de um assunto que se volatilizou, entretanto, na voragem das notícias a sobrepor-se, sob os holofotes, umas às outras, o "caso Jason Arday" exija uma reflexão política e filosófica intemporal. O caso terá deixado de estar nas bocas, sim, mas o seu significado último permanece. 


Há duas leituras opostas (ou tendencialmente opostas), que não deveríamos reduzir a uma tese 1, conservadora, de Direita, e a uma tese 2, humanista, à Esquerda. A primeira tese parece ter toda a importância no âmbito de uma certa concepção de Academia - valorizando a ideia do rigor e da seriedade da dinâmica e do trabalho nas universidades. Segundo essa visão, que não quero nem faz sentido descartar, o prestígio da função académica vive de um distanciamento em relação às ideologias - as quais, se, e em todas as acepções da palavra, aliás, podem estar presentes - e é até preferível que não ocultadas -, nunca deverão, todavia, ter o primado e ser o motor das contratações, do estudo e da investigação. Deste ponto de vista, a universidade cometeu um pecado capital: aceitar, por motivos ideológicos, um professor cujo currículo e cujas publicações não foram exaustivamente investigados. Por outras palavras: que, para diluir a fama de elitista e discriminatória, uma universidade mostrasse demasiada pressa em incluir, sob um fraco exame, um professor convenientemente negro e autista, terá sido um acto indigno e contraproducente. O que venho de escrever, para que não subsistam dúvidas, em nada põe em causa a existência de políticas de inclusão ou a existência de quotas. Elas, porém, não querem dizer que não deva haver uma avaliação profunda das competências de cada candidato para o que se proponha. Concordamos todos - parto eu do princípio, e se não, temos muito mais para discutir - que uma pessoa cega, excelente quadro, consiga fazer mais e melhor, em muitas áreas, do que a maioria dos seus pares, mesmo dos dotados de uma visão de águia, mas nunca seria, ainda assim, a escolha ideal para o lugar de cirurgião ou de condutor de veículos pesados. Espera-se de um professor que, independentemento da sua etnia ou da sua condição mental, garanta qualidade, não tenha cometido plágio nem nos acene com uma biografia irrealista, mais ou menos alucinada. (Aliás, não vejo muitas profissões em que estes indícios não fossem sinais de alerta).


A tese 2 remete criticamente para as motivações e razões das denúncias contra Jason Arday: que, no seu desencadeamento, encontremos um nefando professor racista (ou, como se definiu, um "realista racial"), a defender, sem qualquer fundamento e sem a menor sensibilidade, a ideia de que, na ausência de políticas "facilitadoras" e "permissivas" de inclusão, os negros desapareceriam de todas as actividades não ligadas ao entretenimento e ao desporto, explica em grande parte a tensão e a polarização. Explica, sem dúvida, que uma corrente recalque, para o obscuro inconsciente, as provas de fraude e de mentira compulsiva de Arday, detendo-se, ao invés, no que vê como uma perseguição e uma tentativa de exclusão, dos lugares mais prestigiados da Academia, de quantos não sejam homens, brancos, hetero. Ou seja: aqui desembocados, ao cabo de séculos de uma luta, em diversas frentes, contra a predominância e a dominação dos que se consideraram sempre os únicos representantes legítimos da cultura ocidental, e os seus líderes intelectuais naturais, eis que tudo indica que, nos postos mais respeitados, nos lugares que formam a nata do poder e do pensamento, nada terá substancialmente mudado.

A morte trágica do jovem Jason Arday com as suas box braids, uma leve barba, uma simpatia irradiante, a necessidade premente de divulgar por toda a parte um percurso suspeito, improvável, criativamente delirante, mas que se percebeu, por fim, como era incapaz de lidar com a exposição das fragilidades, das falhas, e com a devassa da sua vida, tem de nos levar a formular uma equação em que as duas formas de considerar o problema coexistam. Ambas têm toda a razão no que revelam.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

ALGUMAS PERGUNTAS MUITO INGÉNUAS

 Preferem comer primeiro a torradinha do meio, ou deixá-la para o fim?

Excluindo as séries americanas de polícias e bandidos (e para efeitos dramáticos), quando alguém invade um gabinete, em busca de alguma coisa, terá vantagem em deixar tudo desarrumado?

Os arquitectos que desenharam a entrada estreita e em caracol para o parque de estacionamento do "Corte Inglês" já teriam ouvido falar de claustrofobia?

Segundo a "navalha de Okham", a explicação que economiza meios tende a ser a mais razoável. Qual parece ser a versão que barbeia melhor o episódio do gabinete vandalizado de Ventura? Que tenha sido um deputado que o odeia, por exemplo Isabel Moreira? Um segurança a expensas de Luís Neves? Ou alguém do próprio partido, numa encenação completamente idiota?

Será boa ideia ir à praia durante estas ondas de excessivo calor?

Como adivinharia, o responsável pela vandalização do gabinete, que o conteúdo da 'pen' era precisamente o que lhe interessava? Tê-la-á ali mesmo experimentado num computador? E se sim, da mesma maneira que o escritório ficava aberto, o computador também dispensava uma palavra passe?

Por que razão continua a haver pessoas que me decepcionam e eu continuo a decepcionar pessoas?

Numa desarrumação sistemática de um gabinete, qual a probabilidade de um quadro de Nossa Senhora, protegido por um vidro, cair ao chão sem se partir - com um cucifixo, ou lá o que seja, cuidadosamente pousado por cima?

O 'Frize limão' é artificialmente gaseificado?

Alguém acredita na história da invasão do gabinete?


terça-feira, 28 de julho de 2026

BOSCH E A ARTE DE ESCONDER À VISTA DE TODOS

 

Poucas pessoas me conhecem. Mas essas poucas e, de entre elas, as, ainda em menor número, que aqui ou ali me vão lendo, sabem que sou um viciado em romances policiais. E se há quem pareça ter a certeza de que se trata de um género menor, tenho, pelo meu lado, a certeza de que quem leu alguns autores do policial, americanos, franceses, espanhóis ou nórdicos (não é por lapso que não refiro ingleses, embora Conan Doyle ou Agatha Christie façam parte da História e conseguissem um lugar especial à mesa) se apercebeu de que podemos, na verdade, falar de literatura maior.

Sou, igualmente, um apreciador de teorias sobre o policial. Ou teorias acerca de "antecipações" das regras que fundariam o género. Conhecem a tese de Savater, por exemplo? A de que a primeira narrativa de solução do crime pode ser encontrada na Bíblia: a passagem sobre a Casta Susana, em que reside, inconscientemente, a génese do 'modus operandi' de Poirot, reunindo a sua audiência de suspeitos, para, vaidoso em face desse público (um público, para todos os efeitos), desenvolver o argumento cuja conclusão apontará o dedo ao assassino?

Agora, por favor, prestem atenção a uma pintura de Bosch. Chama-se 'O Prestidigitador' e, ao invés de nos abrir para o segredo de consequências de pecados humanos, a que nos acostumou, com vislumbres de caos e de inferno, revelados por figuras bizarras, absurdas, horrendas ou cómicas, antes se limita à observação de uma cena de rua, não só, diríamos, pouco boschiana, mas, também, pouco vulgar entre os pintores da sua época.

O prestidigitador seria um desses aldrabões de rua, que teremos visto, também, algum dia. Atrás de uma mesa em que estão pousados uns copinhos, prepara-se para esconder, sob um deles, uma pequena esfera: manipulará, depois, ágil e vertiginosamente, os copos, com o intuito de que o público tente (não) adivinhar onde se acha, isto é, se engane quando julga ter percepcionado e seguido perfeitamente os movimentos.

Nessa pintura, vemos como o prestigitador concentra a atenção de um ajuntamento de curiosos, numa pequena bola, talvez uma bolota, enquanto, por trás da multidão, um cúmplice corta a bolsa de um homem especialmente atento, infantilmente atento, ingenuamente atento ao fruto exibido pela mão que o artista de rua ergue diante dos seus olhos.

Ora, identifico, aqui, o princípio do policial. Fixar a atenção do leitor nos acontecimentos ou nas personagens que o desviam do essencial. É, no fundo, subterraneamente que, julgando nós estarmos a compreender os arames do mistério, se vai armando o que não vemos, ou melhor, aquilo a que não prestamos atenção, mas será decisivo para a solução. 

No maravilhoso quadro de Bosch, é esse engano (aliás, duplo: uma bolinha que será escondida, mas não onde nos pareceu que a víamos sê-lo; e o engano de não olharmos de imediato para o que completa e esclarece a situação), é essa quase ilusão óptica que ocorre, não só no que toca aos protagonistas da cena, mas aos espectadores desta pintura. Também nós, inevitavelmente, começamos por nos prender ao prestidigitador, à sua mão e ao que ela segura, como se se tratasse do foco do quadro. Só num segundo momento nos apercebemos da fraude. De que estamos em presença de um furto em que não reparávamos.

sábado, 25 de julho de 2026

DE COMO OS PRETOS QUEREM ADULTERAR A VERDADE DOS FACTOS

 

Devo confessar que quando comecei a seguir uma série inglesa chamada 'Bridgerton', me irritei um pouco. Sim, a Inglaterra do século XIX de que estamos a falar nunca pretendeu, assumidamente, ser a que conhecemos da História, mas, digamos assim, a de uma realidade alternativa, em que, num espaço e num tempo em tudo similares aos dessa-Inglaterra-desse-século, a aristocracia seria constituída por brancos, negros ou indianos, sem que a questão da raça sequer alguma vez se pusesse. Nem sei bem por que a ideia me pareceu incomodamente errada. Talvez porque, ainda que aceitássemos essa premissa e quiséssemos entrar no jogo, estarmos a ser constantemente confrontados com lugares, hábitos, meios de transporte e vestuário, que delimitam um círculo bem definido na História, preenchidos por pessoas que não faziam parte desse círculo, criou um efeito incómodo de inverosimilhança. Não se tratava de uma questão ideológica, portanto, mas puramente histórica.

O que mudou a propósito da "Helena negra", da 'Odisseia', de Nolan? Nem vou usar o argumento de que estamos, agora, perante a adaptação de uma obra que remete para a mitologia e em que, portanto, todas as liberdades são admissíveis. Ou que, segundo a interpretação de algumas passagens da 'Odisseia', "o livro", o próprio Ulisses seria negro - e que, em contrapartida, a única alusão textual à brancura de Helena parece ser a referência aos seus "braços brancos", o que, aliás, também pode ter variadas interpretações. 

Não asseguro que se não tenha imiscuído, desta vez, um elemento ideológico: ver o tom da crítica contra o que designaram por "politicamente correcto" da escolha de actores, crítica, essa, feita, maioritariamente, pelos suspeitos do costume, a deputada do partido que não me apetece mencionar e outros racistas, travestidos de estudiosos da 'Odisseia' 

[dêem-me um minuto para parar de rir, retomarei a crónica assim que me seja possível]

indispõe imediatamente qualquer alma pensante.

Feita esta declaração de interesse, este reconhecimento de tendência, apraz-me acrescentar a ideia de que a obra de Homero (também ele, o pretenso autor, mais da ordem do mito do que da realidade) se tornou uma matéria imensa e grandiosa, de uma poderosíssima criatividade popular, que Nolan toma livremente, como um realizador para quem todas as escolhas e decisões ganham um valor estético e artístico - a ponto de pensarmos: "Esta é a Helena que valoriza o filme; a sua raça devém, aqui, irrelevante. É a Helena certa para a forma como se quer dar a ver esta história." Por fim, percebemos que nenhuma outra actriz seria tão adequada para o papel.

Não vale a pena discutirem. Não porque esteja a ser dogmático, mas porque não designaria sequer esta ideia como um argumento. É um sentimento. Quem viu o filme, sem juízos pré-fabricados, sentiu isto. Entender-me-á.

Post-scriptum: será, nos tempos que correm, inútil advertir para que o título desta crónica contém ironia?



domingo, 12 de julho de 2026

A COLONOSCOPIA E OUTRAS BENÇÃOS

 A colonoscopia é, entre machões, um assunto delicado. Como se não bastasse temerem os resultados, sublinham a ideia de que se trata de se lhes introduzir no ânus seja o que for (que, no que me diz respeito, prefiro não estudar previamente). Como todos os machões têm uma face oculta, inconfessável nas conversas entre tipos de pêlos no peito e murros na mesa, desconfio que o seu receio número um seja o de poderem vir a apreciar a invasão rectal.


Na verdade, é o dia anterior que se deve detestar. A "preparação". Um relativo jejum que facilite o trabalho de certo líquido desagradável, que teremos de ir tomando ao longo das horas e nos desapertará brutalmente os intestinos. Há algum tempo, quando me marcaram uma colonoscopia para o dia a seguir ao meu aniversário, aceitei a ideia com imprudência e estupidez. Devo ter pensado: "Muito bem. Fazer anos no dia a seguir, vai certamente aliar a alegria de estar com os amigos, ao alívio de ter realizado na véspera o procedimento". Já perceberam que passei o dia de anos na fase da preparação? Que, portanto, desfestejei o aniversário, solitariamente, na casa de banho?

Pondo de parte o dia-antes, reconheço que, em si, a colonoscopia é um momento bem passado: à anestesia, com que me dei mal em todas as cirurgias, ficando, durante semanas de insónias, a ver, à noite, caveiras e monstros no tecto e nas paredes, prefiro a sedação. Perco rapidamente os sentidos, mal me dando tempo para contar de 10 para 1, e recobro prazenteiro e bem-disposto, com o sentido de humor em alta e uma leveza eufórica. Concordo com a analogia de Woody Allen: acordar de uma colonoscopia equivale a percebermos que chegámos ao céu. O dia anterior, o da "preparação", seria a nossa cruel passagem pela vida na terra.

O acto de ser colonoscopiado devia estar ao alcance fácil de todos. Antes de mais, porque possibilita um diagnóstico fundamental. Salva vidas. É lamentável que, através do serviço nacional de saúde, se haja tornado um objectivo praticamente impossível. Ressinto-me de que, agora que me apetecia (e me convinha), de novo, ser submetido a uma, não haja vagas; que me digam que depois me telefonarão, para marcar, e pareçam perder o número: como aqueles amigos que reencontramos ao fim de muito tempo, nos garantem, de ar saudoso, abraçando-nos e lembrando episódios divertidíssimos do passado comum, que temos de combinar qualquer coisa, antes de desaparecerem para sempre da nossa vista.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

A ARROGÂNCIA DE CHAMAR UM 'NEGACIONISTA' A ALGUÉM

 

Da mesma maneira que, em tempos de PREC, pessoas bruscamente politizadas começaram a usar a palavra "fáchista" como insulto primordial, que decidiam caber indiferenciadamente a todos os indivíduos, ideias, actos que os maçassem, também hoje se principiou a recorrer ao termo "negacionista" com o mesmo tipo de pouca ponderação.

Quaisquer palavras que se usem para etiquetar os críticos de, a quem se tome por sujeito pareça certo e inquestionável, se tornam perigosas. O novo insulto - "negacionista" -, por maioria de razão. Em ciência, então, vê-se bem de que se trata. Parte do princípio de que há "factos", provados e estabelecidos, pela ordem correcta, pelo paradigma que o sujeito virtuoso, não-negacionista, assume - e nem me atrevo a acrescentar: pelo "sistema", porque sei ao que soaria imediatamente. Mas a verdade é que a ciência é mais do que se põe em cima do tapete. A ciência opera como um conjunto de metodologias que podem ser discutidas e vão sendo revistas, de teorias incompletas e outras que se lhes opõem, experiências que nunca confirmam uma verdade absoluta.

De vez em quando, sem andar à procura deles, sou confrontado com livros, sérios, de investigadores, sérios, que põem em causa ideias ainda consagradas e consideradas tabu por parte de reconhecidos cientistas. Testes em que confiámos cegamente, por exemplo quase todos os que usam animais como cobaias, são agora questionados - e não apenas por razões éticas, mas metodológicas, ou seja, técnicas e científicas.

Pelo que um nome como "negacionista" é, no fundo, um homem-do-saco, muito feio e pouco subtil, que, na sua crítica, absorve e confunde, como se se tratasse do mesmo, teorias da conspiração, ideias sem suporte crítico e científico, fogachos de ignorância, mas também posições rigorosas, que divergem, simplesmente, da imagem "oficial" do que é científico - como se, o que é científico, se reduzisse a um corpo sagrado de dogmas, como se, pelo contrário, não fosse, em última análise, uma luta entre diferentes tipos de erro e de correcções, diferentes conjecturas e refutações, até diferentes vias, umas mais consolidadas, outras mais exploratórias, nenhuma definitiva.

segunda-feira, 6 de julho de 2026

A MÚSICA DO FUTEBOL

 Um jogo de futebol é como uma melodia. O futebol aspira à condição de música. Posso dizê-lo eu, precisamente, que percebo pouco de bola e tenho pouco ouvido musical.

Olho para o campo, vejo homens em calções, que correm, vejo fintas e transições, mas falta-me o órgão, abundante nos comentadores desportivos, que permite captar a arte colectiva, o desenho descrito por uma equipa, em que cada um descobre onde vai estar o companheiro; onde se achará, no instante seguinte, o adversário a evitar; e como, de homem em homem, se inventa um caminho para mais inesperadamente se conduzir a bola contra a baliza dos oponentes. Falta-me a visão de conjunto e de antecipação: percepcionar os homens como notas musicais, que se procuram segundo uma ideia, negando a aleatoriedade, ou melhor, transformando o aleatório, o acidental, em elemento de um sentido.

Oiço a música e não, não é verdade que a não siga com o espírito, como dei a entender, para tornar a analogia mais simples e mais divertida. Apenas não sei "reproduzi-la". Digamos que é a minha voz que, por alguma estranha razão, não acerta nas notas que, no entanto, ouvi tocar e me tocaram. Se sinto inequivocamente a melodia tomar conta de mim, do meu corpo, da minha alma, não consigo trauteá-la. Muito menos cantá-la.

A primeira coisa que me criticarão nesta analogia é o modo como ponho lado a lado um entretenimento menor e, no seu melhor, uma forma de arte maior. O futebol, lembrarão, é alienação, intolerância, corrupção. O ópio das massas. A música, erudição, elevação. Enquanto o primeiro se produz através de corpos atléticos, movendo-se da cintura para baixo, se quisermos reduzi-lo aos pontapés e ignorar a técnica e a inteligência indispensáveis, a segunda produz-se pelo uso dos corpos frágeis, da cintura para cima. Mente e mãos. Enquanto o futebol vive de gritos emotivos e ataques cardíacos, a música precisa que se faça silêncio em volta. O espectador do futebol expressa-se para o círculo exterior. O ouvinte da música entra em si, onde criou um círculo íntimo e um tempo próprios, interiores, para recolher o sentido dos sons que lhe chegam.

E, no entanto, Dmitri Shostakovich, esse extraordinário compositor do século XX, sob a inclemência do regime soviético que o perseguiu e humilhou (Stalin não apreciara uma ópera sua), acossado, preso, caído em desgraça, descobriria de novo, justamente no futebol, o gosto pela vida. Interessou-se profunda e amorosamente pelo jogo, tomava notas, estudava tácticas, escrevia crónicas, acompanhava com deleite uma pequena equipa russa. Consigo vê-lo. Também conseguem? Sou capaz de penetrar no seu medo e no seu desespero, em noites asfixiantes e escuras, em que o menor som, em vez do possível despertar, em si, de uma nova música, poderia significar a aproximação de soldados que o vinham buscar; penetro no seu isolamento, na sensação de que a música lhe morrera, de que nunca mais teria força ou vontande para compor. E sou capaz de o ver, por outro lado, em tudo o que o futebol lhe ofereceu: a concentração, o entusiamo, a fidelidade, o amor, a alegria.

Imagino, a partir deste exemplo, um compositor contemporâneo que goste de futebol. Ao longe, de certa forma. Nunca assistira, ao vivo, a um jogo.
Imagino que, um dia, aceitasse o convite de um grupo de amigos melómanos e futebolómanos.
Imagino-o surpreendido com a multidão, que nunca sentira sob a forma de corpos concretos que se empurram, ruído, odores. 
Imagino-o como o único sem cachecol, sem bandeira, sem nenhuma marca que ostentasse o seu vago orgulho de adepto.
Imagino-o percebendo as oscilações de excitação, as concentrações de ódio, de frustração, de irritação contra o árbitro, de euforia, ao longo de todo o jogo.

E imagino, por fim, que, reentrando em casa, sem fome nem sono, com a mente ainda a vibrar da memória e de sensações da sua tarde como espectador de futebol, se levante da cama, hipnotizado, se sente ao piano, e comece a compor a melhor das suas melodias.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

TER RAZÃO EM HISTÓRIA: ISRAEL E A PALESTINA

 Tanto quanto podemos falar de ter-se historicamente razão, suportando essa razoabilidade numa dimensão ética e política, para além dos interesses particulares de cada povo e de cada momento, Israel não tem razão.

Não que me queira pronunciar como um deus omnisciente no momento de uma revelação. Mas se procuramos determinar esse "ter razão" como remetendo para critérios que a História veio e irá desvendando e afinando como universais, ou seja, para além dos valores de cada tempo, num consenso, como diria Espinosa, e na medida do possível, "sub specie aeternitas", então Israel não tem razão: porque se tratou da criação de um Estado num território onde viviam pessoas, que foram discriminadas (nunca houve igualdade de direitos e cidadania entre os judeus, que chegavam dos mais diversos pontos da Europa, e os palestinianos, nativos de havia muito); porque se procedeu a essa "colonização" em um momento em que a História principiava a condenar o pretenso direito do mais forte a instalar-se em terras habitadas, ou seja, quando já se compreendia tratar-se de um acto eticamente inaceitável; porque os palestinianos nunca foram ouvidos, não puderam pronunciar-se, os expulsaram das suas terras e confinaram a um espaço cada vez mais estreito. O sionismo fê-lo porque, sendo os judeus, inicialmente, muito menos numerosos em Israel, contou sempre com armamento  superior e o apoio de grandes potências: a Inglaterra, a França e nada menos do que os EUA. 

Há um argumento que, na defesa dos sucessivos governos de Israel, lembra que não falamos de um povo qualquer: falamos das vítimas do holocausto. De resto, do holocausto como momento final de uma História violenta de perseguições, expulsões, maus-tratos. Ser judeu foi sempre uma marca de opróbio e sofrimento. E um outro argumento, segundo o qual estar do lado de Israel será escolher o lado de uma democracia de tipo ocidental, contra as formas de um modo de vida árabe e muçulmano, identificado com o que mais afastado podemos conceber da "civilização ocidental".

O primeiro argumento é eticamente indefensável, como se o sofrimento de um povo pudesse tornar-se um passaporte para todos os actos de crueldade por parte desse povo. Como se os judeus pudessem estar acima de qualquer crítica, como se o governo de um Estado decidindo em nome do judaísmo considerasse anti-semitas as objecções à sua prática de desprezo e afronta.

O segundo argumento é racista e colonialista: baseia-se na diminuição dos nativos a sub-humanos: culturalmente inferiores, sem identidade, sem uma História, sem raízes, precisamente como, desde sempre, os conquistadores reduziam os povos indígenas a bárbaros ou animais, natureza a ser domada.

Ambos os argumentos me parecem desprezíveis. E não há qualquer traço do que hoje se entende por anti-semitismo nesta afirmação.

sábado, 13 de dezembro de 2025

AS FONTES DA ESTÉTICA NACIONALISTA

 Miguel Carvalho, autor de Por Dentro do Chega, que considero serviço público - com a pecha de todo o serviço público: não interessar a quem mais carece da instrução e da cultura que ele possa oferecer - preocupava-se, e justamente, com a adesão da juventude ao partido de André Ventura. Nas escolas secundárias, dizia ele, onde captura miúdos que ainda nem votam, e nas universidades, onde a penetração do Chega é tristemente surpreendente.

A que se deve esse fascínio, perguntavam-lhe na entrevista radiofónica que eu ouvia. Por um lado, respondeu MC, ao facto de o partido apostar forte e eficazmente nas redes sociais, e nas redes consumidas de preferência por jovens. Os tic tocs e o instagram. Com tudo o que essa utilização facilita: simplificação da mensagem, adesão em rede e, portanto, em massa, fake news inverificáveis no imediato e não verificadas a longo prazo, etc. Não podia estar mais de acordo com a análise: não foi por acaso que os 60 deputados do caos votaram contra um aspecto particular de certa proposta: a penalização da divulgação de mentiras nas redes sociais. Ousaram fazê-lo e assumi-lo, a coberto do chapéu da defesa da liberdade de expressão. Faltar-lhes-á muita coisa. Lata, não.

Outra razão apresentada por MC residiria na própria leccionação, nas escolas, de um conteúdo e de uma imagética patrioteiras, herdados do Estado Novo: citava como exemplos um manual, onde, numa ilustração, se vía uma sereia olhando, no horizonte, as caravelas lusas; ao que acrescentava a referência ao que se aprende dos Lusíadas, centrado grandiloquentemente na epopeia 

O segundo exemplo pode aludir, marginalmente, a um motivo. Mas duvido de que seja a lição escolar, que este tipo de alunos contesta e que pouco lhe diz, uma das causas relevantes para a génese dessa cultura ultranacionalista. Querem lá eles saber dos manuais; querem lá saber de Camões; lêem-no lá eles; querem lá saber dos professores de Português ou de História. Para essa cultura, para essa estética ideológica, para essa visão arrepiante do português puro sangue, tropeçam em outras fontes. Vivas e activas. Geralmente, em mau Português. 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

UM PEDIDO DE DESCULPA AOS ILETRADOS BONS

 Entre os adeptos do partido que não devemos nomear, no meio de comentários que, nas redes sociais, escrevem sistematicamente que "nada é pior do que a corrupessão que dura á 50 anos", ou "FORCA VENTURA" [não lhe desejando a pena capital, e sim coragem], ou "Deus o elimine" [este não sei se verídico, ou se uma piada, mas si non e vero...], corre a ideia de que a baixa instrução e os erros de Português são uma marca de simplicidade popular: quem assim escreve, fá-lo porque é do povo, começou a trabalhar cedo na vida (enquanto os privilegiados do sistema estudavam, bebiam e descansavam), sai de casa às 5 da manhã, regressando, à noite, cansado, ao lar disfuncional para que 50 anos de corrupessão o lançaram, e presume-se que, mesmo assim, para se sentar ainda ao computador, de forma a usar, no resto de tempo disponível do extenuante dia de trabalho, a sua liberdade de expressão, de forma a infundir energia a quem o há-de vingar e catapultar.

Confesso o meu guilty pleasure: às vezes, respondo. Atiro-me à lama. Entro em guerrilhas que sei de antemão quão vãs não podem deixar de ser. Chafurdo, respondo. Corrijo, sobretudo corrijo; aponto as falácias, emendo os erros arrepiantes.

Como o faço frequentemente, para além de me chamarem excremento, nas diversas formas populares, ou artista circense, e de me mandarem para lugares mal frequentados, ou (um clássico) me esfregarem na cara que não passo de um esquerdalho, acusam-me de ser um pretensioso (pertenssioso), que gosta de "umilhar gente de trabalho que não teve as mesmas opurtunidades".

Vinda de quem humilha e despreza os ciganos e os imigrantes, os insulta e persegue, rebaixando, portanto, os mais vulneráveis da sociedade, esta crítica desfaz-se por si na gargalhada que provoca. Mas a questão é que tenho muito respeito pelos iletrados. Apropriando-me ironicamente da expressão de Ventura, pelos "iletrados bons". Não por aqueles que não vêem contradição, nem têm vergonha, no mau uso da língua, quando se trata de excluir os que consideram menos portugueses, menos puros, menos conhecedores das tradições e da essência de Portugal, do que eles.

Tenho de odiar um partido que manipula, se aproveita e traz a reboque aquela parte dos menos instruídos, que faz, da sua baixa instrução, um motivo de ódio, um desejo de vingança, um ressentimento profundo. E canaliza a raiva contra os alvos: pessoas ainda abaixo de si na hierarquia social.

Posso compreendê-los? Sem dúvida. Posso temê-los e àquilo em que se tornará um ajuntamento de devoradores de tudo o que é limpo e saudável, desde o amor e a generosidade, até à gramática? É o que sucede.

Que os verdadeiros trabalhadores, cuja vida lhes não permitiu estudar, os iletrados que nunca fizeram da sua iliteracia uma forma vingativa de superioridade (e que não lerão provavelmente este texto, nem terão tempo a perder nas redes sociais) não confundam as coisas. A eles, as minhas desculpas. 

sábado, 27 de setembro de 2025

UMA TENTATIVA DE EXPLICAÇÃO DO INEXPLICÁVEL

 O que o Partido CHEGA representa é ambíguo e confuso, como em todas os exercícios onde se tenta definir contornos ideológicos a uma mera dinâmica de ambições e oportunismo. Mas o que é está descaradamente à vista: gente sem princípios nem educação, ressentidos que se manifestam aos berros e com insultos, instalando-se na assembleia como, dizia a minha saudosa mãe, "vilão em casa de seu sogro". 

O fascismo e o nazismo eram guiados por uma weltanschauung, insana, fracturante, opressiva, mas, ainda assim, uma visão do mundo que, à época, atraiu filósofos ainda hoje estudados, como o sinistro e brilhante Heidegger, ou investigadores com uma obra científica importante (e, já agora, merecedora do Prémio Nobel), como Konrad Lorenz. Eram pessoas ética e politicamente más, ou distorcidas, crendo em uma ideologia ignara, mas logicamente consistente. 

Tanto não poderíamos dizer dos membros do CHEGA. Reaccionários, claro, com referências e heranças que se dispersam, desde mal digeridas citações de Salazar, até doutrinas indiscutivelmente nazis, amassadas num fervor de claques de futebol e no espírito do marketing, dos tic tocs, das fake news, da simplificação extrema e da repetição contínua das mensagens. Claro que parte do nazismo alemão já era isso: as hordas, os ressentidos violentos, as tropas brutais. Uma anti-cultura, uma anti-inteligência. 

Seria quase impossível que, num partido onde as lutas internas, as invejas e as traições, mas, sobretudo, ressentimentos opostos e confusos, se movem, não transparecessem, para o exterior, erros de decisão. E isto sem ignorar a eficácia da sua propaganda. Mas os disparates e os tiros nos pés são tão constantes, que se torna um study case compreender por que razão não parecem afectar negativamente o seu eleitorado, fazer pensar duas vezes, levar a um recuo ou a uma hesitação entre os fiéis. 

A resposta fácil e mais vulgarizada tem sido: porque o saco em que o partido faz as suas conversões é o de gente sem instrução e sem horizontes, sem espírito crítico e, por isso, manipulável. Sem dúvida, trata-se de uma razão: quando se constrói um ídolo e se dissemina uma fé, os pés de barro são ardilosamente explicados; quando se defende uma máquina que divide um povo entre os nossos e os inimigos, as críticas e as denúncias proviriam necessariamente de inimigos e, portanto, nunca ultrapassam um viés mental: é tudo mentira, o que eles querem sabemos nós, ou, admitindo que se instale alguma dúvida, nunca a dúvida ganhará o peso de um problema acutilante, corrosivo e desagregador, uma vez que, em última análise - dirão -, os outros fizeram muito pior, foram mais corruptos e maldosos, e foram-no ao longo de cinquenta anos. 

Diria que há dois conceitos da psicologia que ajudam a entender a persistência da fé, apesar de uma realidade provocadora, que insiste em a desmentir sistematicamente. 

Um é o conceito de pertença: quando os seguidores são, em geral, deserdados e desfavorecidos, frustrados, os que já não têm esperança e odeiam a sua vida (a qual representam sob a forma de "o sistema"), nada pode abater a emoção de se sentirem ligados a um grupo, uma espécie de vencidos da vida, sem o talento dos originais vencidos da vida, que se unem para um derradeiro combate. "Agora vão ouvir-nos: aos nossos medos, aos nossos falhanços, à nossa raiva". 

O outro é a dissonância cognitiva. O mecanismo que permite separar, em esferas diferentes, desconectadas entre si, experiências e crenças que, conjugadas, levariam ao colapso daquilo em que acredito. Posso amar os animais, e apreciar um espectáculo de tourada, como se não existisse qualquer contradição. Posso crer em Deus, e fazer do roubo e da violência o meu modo de vida, ou crer numa profecia que não se verifica, sem pôr em causa as fontes da profecia. Posso ter conhecimento das burrices e dos vícios de deputados do CHEGA, e continuar a pensar que, nas suas mãos, o país, um dia, sairá do que tomei como "a miséria e a corrupção em que tem vivido desde o 25 de Abril".

domingo, 14 de setembro de 2025

UMA SUBIDA ANUNCIADA

Do partido do dr. Ventura, André, há duas particularidades a reter: que é um compósito do pior da idiossincrasia portuguesa e que o pior da idiosincrasia portuguesa se revela eficaz no país dos portugueses.

Para começar, trata-se de um "partido de protesto": traduzindo isso para a língua da realidade, significa que cresceu como o ponto de encontro dos ressentidos: os que nunca ninguém levou a sério na política porque eram pouco instruídos, ou porque sacaram uns cursos "inclusivos", em que Portugal se tornou pródigo para, em teoria, oferecer a todos as mesmas oportunidades académicas, enquanto a nova elite estudava em universidades prestigiadas do estrangeiro; os que, provenientes da "província" ou de meios "suburbanos", nunca fariam carreira nos partidos do "sistema", já tomados por aparelhos de universitários que haviam subido nas juventudes partidárias; os pequenos corruptos, sem um discurso ideológica (e moralmente, sobretudo) articulado, que os ajudasse a justificar os seus golpes rasca: furtar malas em aeroportos, caixas de moedas da paróquia, combustível das ambulâncias ou de veículos de bombeiros da agremiação de Bombeiros em que trabalhavam; não pagar impostos ou aldrabar nas declarações. Enfim, isto para dar uma ideia do nível a que nos referimos. 

O 25 de abril criara, por sua vez, milhares de ressentidos. Entre outros, pessoas que retornaram das ex-colónias, com o sonho das grandes paisagens e das praias maravilhosas para que os olhos da memória continuavam a olhar, e de que  se sentiam "despojados", "espoliados": tinham sido traídos; os latifundiários que se escaparam para os brasis, maldizendo comunistas e "esquerdalha"; os eclesiásticos postos em causa nos seus privilégios e na influência sobre o rebanho; e todos os esquecidos do que era o Portugal do Estado Novo, afagando, agora que os filhos podem estudar, a ideia de que antes (quando eles próprios não puderam estudar) era bom, era melhor, havia ordem e segurança. Este é o eleitorado potencial que o Chega despertou e uniu. Este, a que se juntaram, como sempre, os arruaceiros, os jovens estudantes sem objectivo, em idade de votar, que encontram, em Ventura e no seu partido, uma imagem de rebelião com que se identificam: a grosseria, o berrar mais alto, o provocar, o achincalhar, o "é para partir tudo!" - no fundo, o comportamento, entretanto impune e generalizado, que sempre tiveram em aulas, onde viam o professor como o velho que tinham de confrontar e os colegas mais fracos como alvos a perseguir. 

A estratégia do Chega é a não-estratégia de dividir: nós contra os outros (imigrantes, pessoas de esquerda, todos os que questionam o padrão da sexualidade e da identidade de género, por exemplo), e de lançar, sobre esses outros, todas as responsabilidades pela insegurança, pela corrupção, pelos incêndios, pelos males que nos assolam. Acusa-se, deturpa-se, mente-se. As redes são o autêntico poder de condicionamento de mentes menos sofisticadas. 

O que aconteceu recentemente em torno do pretenso festival do hambúrguer, a invenção que foi uma amostra de iliteracia e má-fé, parece exemplar: primeiro, o(correu) a divulgação da notícia falsa; depois, reconhecendo-se o erro, ainda se achou maneira de disparar culpas em todas as direcções: o Presidente fez várias viagens inúteis à custa do erário público (portanto seria fácil crer que se tratava de mais uma); o parlamento escreveu erradamente a palavra, esquecendo o "trema" ("a trema", lamentava-se Rita Matias) e, assim, provocando o equívoco (como se um deputado não tivesse de procurar mais informação, antes de vir para o tic toc); e a estocada final: foi cometido um lapso, de acordo, mas a imprensa, "antidemocraticamente anti-Chega", falou nele "como se tivesse havido um atentado" ou alguma coisa muito grave. 

Dizem que o partido veio subindo nas sondagens, que está à frente da própria AD. 

Há quem se espante?

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

O MISTÉRIO 'CARMEN MOLA'

 Desde Poe e Doyle (ou, se levarmos a sério a tese de Savater, desde, pelo menos, o Antigo Testamento, onde a história da Casta Susana prefigura e já em latência contém as normas do policial) que se foi estabelecendo um modelo de narrativa sobre resolução de crimes. Ingleses e norte-americanos, mais tarde autores franceses, vieram definindo os contornos, e o desafio agarrou e bastou aos leitores; não se pedia mais: um assassino extremamente inteligente, um investigador excêntrico, com miolos ágeis, aplicados à resolução de assassinatos impossíveis, uma mão cheia de suspeitos num ambiente fechado, e duas competições paralelas, que, paradoxalmente, se confundem: uma entre o criminoso e o solucionador de charadas, mas, sobretudo, outra entre o autor e o leitor. Enganei-te? Fui brilhante? Desviei-te a atenção do essencial? Acreditaste que o assassino era o suspeito que tornei mais provável? Ou, antes do fim, já te aperceberas do truque, da manobra, do indício oculto?

Mais tarde vieram os escritores nórdicos de histórias policiais e nada voltou a ser como era: já havia prenúncios, mas nunca a este ponto a introdução, no romance, de uma vida pesada e complexa, de detectives com problemas psicológicos, de alcoolismo, divórcios, tristezas e dramas profundos. Não demorou até que este modo deviesse a nova fórmula, e se digo fórmula também insinuo que acabou por ser a conjugação de alguns clichés.

Isto assente, estamos de férias, um policial lê-se sempre com prazer e dêmos a vez a uma autora espanhola. Mentira, para já. Tal como "Ferrante", também "Carmen Mola" não é real: um truque de magia, um nome vazio, um pseudónimo que se não sabia a quem fazer corresponder, uma operação de 'marketing'. Até que, no segundo volume da trilogia, se veio a saber (informação revelada na badana) que Carmen Mola é o nome sob que se ocultam três autores, escrevendo em conjunto, Antonio Mercero, Agustin Martínez e Jorge Díaz.

Os clichés, diríamos, estão reunidos e prontos a servir: a chefe de uma equipa, que bebe à tarde e à noite, ou faz sexo, no seu jipe, mais raramente no seu apartamento, em Madrid, com engates de bar (onde vai fazer karaoke), enquanto continua em busca do filho raptado há anos, insuportável situação que ditou a separação entre a Inspectora Elena Blanco e o pai do seu filho, que optou por continuar a vida e ser feliz.

E contudo, quando começamos a ler os romances, primeiro 'A Noiva Cigana', depois 'A Rede Púrpura' (e faltar-me-á o terceiro), muito bem escritos, isto é, literariamente exigentes, convincentes, com um toque de crueldade que nos incomoda, mas a que se não resiste, percebemos que os clichés não servem senão para sinalizar e confirmar um género, porque, na verdade, estas narrativas são literatura na verdadeira acepção da palavra, mas também um jogo de inteligência e suspense. Como se os autores nos dissessem: Mesmo com ingredientes de merda, que já viram centenas de vezes e não faltam em nenhuma despensa - até, na verdade, uma criminosa enviada para seduzir um polícia e, no fim, uma vez descoberta, lhe diz: "Pode ter começado como uma manobra, mas, a partir de certa altura, apaixonei-me de facto, fui sincera" -, vejam bem que pratos de luxo somos capazes de cozinhar. 

Carmen Mola, que não é Carmen Mola, oculta três autores que descobriram o método perfeito de trabalhar, a três, como se fossem um, produzindo policiais cultos e intensos.

sexta-feira, 1 de novembro de 2024

UM ABRAÇO AO AMORIM

 

Como sou um sportinguista de coração, mas não de sofrimentos cardíacos, posso apresentar-me na qualidade de um dos raros adeptos do Sporting com o espírito justo para compreender um lado e outro.

Por um lado, como todos os Leões (se é que a denominação me não fica larga), sinto-me triste. Não desesperado, não choroso; não arrepanho cabelos. Não vagueio por túneis de insónia. Mas é verdade que, tendo o meu filho, quando o Sporting perdia mais jogos do que ganhava, aos dez anos, desertado para o FCP (aliciado pelo padrinho), passei a ter de enfrentar mais isoladamente as sucessivas derrotas, a travessia da ditadura de Bruno de Carvalho, a vergonha do ataque a Alcochete. 

A chegada de Rúben Amorim foi, pois, uma revolução benéfica. Em todos os aspectos: as escolhas e os contratos bem feitos, o plano de acção, a construção de uma equipa. A humildade e a retórica exemplares. O Sporting tornou-se no que era. Mesmo um adepto longínquo como eu, amante rendido, sim, mas, ainda assim, longínquo, percebeu o orgulho a bater em si, o prazer, que não conhecia, ou não deste modo, de assistir a um jogo, de ver o Gyökeres a marcar golos ou os rivais eternos a embater num grupo fortíssimo.

Por outro lado, compreendo inteiramente a decisão de Amorim. Direi sempre que se tratou de uma escolha profissional, não ética. Pelo amor de Deus! A fidelidade a um clube de futebol não deve estar submetida a um imperativo categórico, nem o adeus terá consequências que superem o domínio do jogo. Fico impressionado com o que tenho ouvido proclamar: que Amorim se vendeu; que a despedida revela uma falha na sua integridade moral; que é uma traição. 

Só me entristece pensar que talvez o Sporting não encontre ninguém à altura. Que a aura dos últimos tempos se desfaça. Que, porventura, uma época que tão bom início teve, possa não ter a conclusão que prometia.

Mas, se tenho algumas palavras a enviar a Rúben Amorim, são: obrigado por tanto. 

Que me orgulhes, agora, como treinador português a trabalhar "lá fora".

segunda-feira, 19 de agosto de 2024

ALAIN DELON

 Por alguma razão, não me sentiria bem comigo mesmo, ainda na esfera de reverberação da morte do meu irmão, também levado, sofridamente, por um cancro, se não me pronunciasse aqui acerca de Alain Delon.

Existem, de que me tenha apercebido, duas correntes: a dos saudosos, que choram a partida do homem indiscutivelmente bonito e do bom actor (que outros garantem não ter sido assim tão bom, sequer) e a dos indignados, que fazem questão de relembrar o narcisista de extrema-direita, que - não sei se é verdade - teria batido em mulheres, e nunca reconheceu um filho. Como de costume, e não me orgulho, não consigo incluir-me em nenhum dos lados.

Delon não só era bonito, como a sua beleza marcou uma época. Então não me recordo dos suspiros da minha prima Paulinha que, recém entrada na fase pateta da juventude, assistira ao filme 'A Piscina', com um Alain Delon na sua melhor figura e uma fascinante Romy Schneider? Nem todas as belezas marcam desse modo, e os anos 60 não podem ser revisitados sem a pujança do cinema francês, e sem Bardot, Belmondo e Delon, para referir apenas três ícones de uma cultura cinematográfica pop.

Será pouco. Será o elemento superficial. Ou não, porque o ar de um actor ou de uma actriz definem as imitações que os espectadores farão, o modo de vestir, a pose de parte de uma geração. E também disso se faz o espírito e a imagem de um tempo, como as fotografias nos revelam.

Para além disso, discordo dos que afirmam que nunca foi senão um actor mediano ou medíocre. Diria que é um preconceito da mesma ordem dos que subjazem aos homens que, sobre uma mulher bela, insistirão sempre que se trata apenas de uma mulher bela, nunca inteligente ou talentosa. Comunguei desse preconceito, evidentemente. (Em relação a Delon, não a mulheres belas). Até a minha mãe me chamar, um dia, a atenção para a magnífica representação do jovem Alain Delon em 'O Leopardo', de Visconti. Nunca vira o filme. Tive a oportunidade de o fazer: ensinou-me a olhar para o actor com surpresa.

A sua vida pessoal pode ser ignorada ou esquecida? Não pode. Mas, em primeiro lugar, reivindico a separação, como sempre, entre a obra e a pessoa. Os seus filmes valem por si. Muito bons ou medíocres, não podem, não devem ser medidos pelos actos do realizador ou dos actores.

Que fosse de extrema-direita, confunde-me. Uma pessoa sensível e inteligente nunca será de extrema-direita. É o reino da estupidez, do medo e da ausência da inteligência emocional. Que fosse amigo de Le Pen e votante no partido dele e da filha ajusta-se perfeitamente à biografia do homem, que infelizmente foi, homofóbico e sem respeito pelas mulheres. Mas um homem é um homem - miserável, contraditório, com uma visão do mundo, da vida e dos outros, impregnada de vícios, terrores e péssimas escolhas. E se me parece fácil e linear pensar que nunca me daria com ele, razões várias me levam, hoje, a conviver com pessoas que ideologicamente me fazem estremecer.

A um homem que sofreu, que acabou detestando um mundo, a que, sem dúvida, legou alguma coisa muito boa e muita coisa má, ou terrível, e que já só desejava morrer, obviamente em guerra consigo mesmo, podemos perdoar. Não que o meu perdão sirva, ou faça diferença.  Nâo esquecer. Esquecer nada, esquecer nunca. Mas rever o que, dele, merece que se veja. E lamentar: sentir tristeza pela sua impotência para sentir tristeza pelos outros. Somos todos projectos errados com muito de bom, ou excelentes projectos com demasiados erros e culpa. A morte é sempre perda.

sábado, 10 de agosto de 2024

IRMÃO MAIS VELHO

 Eu gostava imenso do meu irmão. Gostava e gosto, claro. Mas é diferente amar uma pessoa viva e amar a sua memória. A memória não nos agarra fisicamente, não ri connosco ou de nós, e não nos surpreende, porque se limita a repetir o que já experimentámos, só que, nesta forma, transformada em saudade, mais dolorosa mas muito menos nitidamente. Amava-o, portanto: um misto de mito em que se tornam, frequentemente, os irmãos mais velhos, feito a partir das aventuras de que suspeitamos; do mundo jovem, depois adulto, em que queremos penetrar quando somos crianças, mas de que temos, apenas, vislumbres, como a uma janela mágica, que falseia e agiganta o que julgamos estar a ver; de provocação irritante, que somos muito novos para levar a bem; de um humor trepidante; e daquela sanguinidade, composta por diferenças e semelhanças que me fizeram sempre sentir que eu era um dos seus rostos, que ele era um dos meus rostos, como se representasse aquele em que eu me tornaria quando mais velho, como se fosse o José Pacheco do futuro visitando-me numa encruzilhada do tempo.

Meu irmão foi admirável com a minha mãe. Tornou possível que ela ficasse a viver na «sua casinha», evitando, com unhas e dentes, que acabasse num Lar, seu derradeiro terror. Com sacrifício da sua vida, dormindo mal para poder acompanhá-la, cuidando-lhe das refeições e da medicação, às vezes no limiar do exaspero e da depressão, o meu irmão nunca virou costas.

A nossa relação não vogou sempre pacificamente. Demo-nos bem e demo-nos mal: neste amor que às vezes negávamos e que tantas vezes renegámos imiscuíam-se indignações, ciúmes, quase traições. O meu irmão não era uma pessoa fácil, como eu próprio só devo parecer fácil a mim mesmo.

Mas se ele não era fácil, da sua complexidade (emocional, intelectual, ética) fazia parte uma grandeza que tendia a passar despercebida. O seu percurso de jornalista e de especialista em assuntos africanos permitiu-lhe momentos decisivos, muitos dos quais só vieram a ser conhecidos por mim, através de interpostas pessoas, já após a sua morte. Como Secretário da Fundação Pro Dignitate, presidida pela Dra. Maria de Jesus Barroso (até aos terríveis choques que foram o falecimento da Presidente, primeiro, e o encerramento da organização), terá vivido o tempo mais feliz, mais empenhado, mais intenso dos últimos anos, ajudando a proporcionar apoios, negociando decisivamente, no terreno, com líderes desavindos, trabalhando para a Paz. Foi, aliás, um dos mais sérios e abnegados pensadores do que designava por Jornalismo para a Paz. Pensou-o e praticou-o, viajando e dando formação em Cabo Verde e na Guiné-Bissau. 

Não tivemos, durante muito tempo, a necessidade de nos encontrar com regularidade. Nos últimos meses, quando o cancro, já instalado e a multiplicar-se havia muito (escondido por ele que, certamente, desconfiaria, mas nos quis poupar), quando o maldito cancro, escrevia, não podia continuar a ser varrido para debaixo do tapete, reaproximámo-nos. Vivemos, então, tempos horrorosos e maravilhosos: o horror de assistir à rápida degradação física, à dificuldade de se deslocar, às esperas prolongadas, e inúteis, de consultas e de exames, num périplo desgastante pelos hospitais de um sistema público bem intencionado, mas impotente, e a maravilha dessa nossa reaproximação. Conversávamos, lembrávamo-nos, nunca nos faltou assunto, seríamos sempre dois africanos retornados a Portugal, e aos retornados de África nunca falta assunto, almoçávamos no restaurante do casal misto, ela brasileira, ele português, com uma proibida jarra de vinho tinto a forçar a sua presença, manchando o papel que cobria a mesa. Insistia em comprar-me jornais, entre os quais o 'Tal & Qual', que não aprecio, mas me recomendava por causa da crónica, muito interessante, dizia ele, da Rita Ferro. Enviava-me as reportagens que ainda fazia para a Rádio África, as últimas, preciosas, com lapsos de tempo e uma voz enfraquecida, mas sempre de uma informação completíssima e exposta com a simplicidade dos grandes homens que escolhem a modéstia.

Queria sentir-se amado. Cumprimentava todas as pessoas no seu bairro, exagerando nas gorjetas, quer fosse tomar um café ou cortar o cabelo. Fazia questão de me apresentar: É o meu irmão mais novo.

Telefonava-me todas as noites.   

Às vezes, à noite, esperando um seu telefonema, demoro alguns instantes até aperceber-me que já não haverá.