quinta-feira, 30 de julho de 2026

ALGUMAS PERGUNTAS MUITO INGÉNUAS

 Preferem comer primeiro a torradinha do meio, ou deixá-la para o fim?

Excluindo as séries americanas de polícias e bandidos (e para efeitos dramáticos), quando alguém invade um gabinete, em busca de alguma coisa, terá vantagem em deixar tudo desarrumado?

Os arquitectos que desenharam a entrada estreita e em caracol para o parque de estacionamento do "Corte Inglês" já teriam ouvido falar de claustrofobia?

Segundo a "navalha de Okham", a explicação que economiza meios tende a ser a mais razoável. Qual parece ser a versão que barbeia melhor o episódio do gabinete vandalizado de Ventura? Que tenha sido um deputado que o odeia, por exemplo Isabel Moreira? Um segurança a expensas de Luís Neves? Ou alguém do próprio partido, numa encenação completamente idiota?

Será boa ideia ir à praia durante estas ondas de excessivo calor?

Como adivinharia, o pepetrador da vandalização do gabinete, que o conteúdo da 'pen' era precisamente o que lhe interessava? Tê-la-á ali mesmo experimentado num computador? E se sim, da mesma maneira que o escritório ficava aberto, o computador também dispensava uma palavra passe?

Por que razão continua a haver pessoas que me decepcionam e eu continuo a decepcionar pessoas?

Numa desarrumação sistemática de um gabinete, qual a probabilidade de um quadro de Nossa Senhora, protegido por um vidro, cair ao chão sem se partir - com um cucifixo, ou lá o que seja, cuidadosamente pousado por cima?

O 'Frize limão' é artificialmente gaseificado?

Alguém acredita na história da invasão do gabinete?


terça-feira, 28 de julho de 2026

BOSCH E A ARTE DE ESCONDER À VISTA DE TODOS

 

Poucas pessoas me conhecem. Mas essas poucas e, de entre elas, as, ainda em menor número, que aqui ou ali me vão lendo, sabem que sou um viciado em romances policiais. E se há quem pareça ter a certeza de que se trata de um género menor, tenho, pelo meu lado, a certeza de que quem tenha lido alguns autores do policial, americanos, franceses, espanhóis ou nórdicos (não é por lapso que não refiro ingleses, embora Conan Doyle ou Agatha Christie façam parte da História e tenham um lugar especial à mesa) se apercebeu de que podemos, na verdade, falar de literatura maior.

Sou, igualmente, um apreciador de teorias sobre o policial. Ou teorias acerca de "antecipações" das regras que fundariam o género. Conhecem a tese de Savater, por exemplo? A de que a primeira narrativa de solução do crime pode ser encontrada na Bíblia: a passagem sobre a Casta Susana, em que reside, inconscientemente, a génese do 'modus operandi' de Poirot, reunindo a sua audiência de suspeitos, para, vaidoso em face desse público (um público, para todos os efeitos), desenvolver o argumento cuja conclusão apontará o dedo ao assassino?

Agora, por favor, prestem atenção a uma pintura de Bosch. Chama-se 'O Prestidigitador' e, ao invés de nos abrir para o segredo de consequências de pecados humanos, a que nos acostumou, com vislumbres de caos e de inferno, revelados por figuras bizarras, absurdas, horrendas ou cómicas, antes se limita à observação de uma cena de rua, não só, diríamos, pouco boschiana, mas, também, pouco vulgar entre os pintores da sua época.

O prestidigitador seria um desses aldrabões de rua, que teremos visto, também, algum dia. Atrás de uma mesa em que estão pousados uns copinhos, prepara-se para esconder, sob um deles, uma pequena esfera: manipulará, depois, ágil e vertiginosamente, os copos, com o intuito de que o público tente (não) adivinhar onde se acha, isto é, se engane quando julga ter percepcionado e seguido perfeitamente os movimentos.

Nessa pintura, vemos como o prestigitador concentra a atenção de um ajuntamento de curiosos, numa pequena bola, talvez uma bolota, enquanto, por trás da multidão, um cúmplice corta a bolsa de um homem especialmente atento, infantilmente atento, ingenuamente atento ao fruto exibido pela mão que o artista de rua ergue diante dos seus olhos.

Ora, identifico, aqui, o princípio do policial. Fixar a atenção do leitor nos acontecimentos ou nas personagens que o desviam do essencial. É, no fundo, subterraneamente que, julgando nós estarmos a compreender os arames do mistério, se vai armando o que não vemos, ou melhor, aquilo a que não prestamos atenção, mas será decisivo para a solução. 

No maravilhoso quadro de Bosch, é esse engano (aliás, duplo: uma bolinha que será escondida, mas não onde nos pareceu que a víamos sê-lo; e o engano de não olharmos de imediato para o que completa e esclarece a situação), é essa quase ilusão óptica que ocorre, não só no que toca aos protagonistas da cena, mas aos espectadores desta pintura. Também nós, inevitavelmente, começamos por nos prender ao prestidigitador, à sua mão e ao que ela segura, como se se tratasse do foco do quadro. Só num segundo momento nos apercebemos da fraude. De que estamos em presença de um furto em que não reparávamos.

sábado, 25 de julho de 2026

DE COMO OS PRETOS QUEREM ADULTERAR A VERDADE DOS FACTOS

 

Devo confessar que quando comecei a seguir uma série inglesa chamada 'Bridgerton', me irritei um pouco. Sim, a Inglaterra do século XIX de que estamos a falar nunca pretendeu, assumidamente, ser a que conhecemos da História, mas, digamos assim, a de uma realidade alternativa, em que, num espaço e num tempo em tudo similares aos dessa-Inglaterra-desse-século, a aristocracia seria constituída por brancos, negros ou indianos, sem que a questão da raça sequer alguma vez se pusesse. Nem sei bem por que a ideia me pareceu incomodamente errada. Talvez porque, ainda que aceitássemos essa premissa e quiséssemos entrar no jogo, estarmos a ser constantemente confrontados com lugares, hábitos, meios de transporte e vestuário, que delimitam um círculo bem definido na História, preenchidos por pessoas que não faziam parte desse círculo, criou um efeito incómodo de inverosimilhança. Não se tratava de uma questão ideológica, portanto, mas puramente histórica.

O que mudou a propósito da "Helena negra", da 'Odisseia', de Nolan? Nem vou usar o argumento de que estamos, agora, perante a adaptação de uma obra que remete para a mitologia e em que, portanto, todas as liberdades são admissíveis. Ou que, segundo a interpretação de algumas passagens da 'Odisseia', "o livro", o próprio Ulisses seria negro - e que, em contrapartida, a única alusão textual à brancura de Helena parece ser a referência aos seus "braços brancos", o que, aliás, também pode ter variadas interpretações. 

Não asseguro que se não tenha imiscuído, desta vez, um elemento ideológico: ver o tom da crítica contra o que designaram por "politicamente correcto" da escolha de actores, crítica, essa, feita, maioritariamente, pelos suspeitos do costume, a deputada do partido que não me apetece mencionar e outros racistas, travestidos de estudiosos da 'Odisseia' 

[dêem-me um minuto para parar de rir, retomarei a crónica assim que me seja possível]

indispõe imediatamente qualquer alma pensante.

Feita esta declaração de interesse, este reconhecimento de tendência, apraz-me acrescentar a ideia de que a obra de Homero (também ele, o pretenso autor, mais da ordem do mito do que da realidade) se tornou uma matéria imensa e grandiosa, de uma poderosíssima criatividade popular, que Nolan toma livremente, como um realizador para quem todas as escolhas e decisões ganham um valor estético e artístico - a ponto de pensarmos: "Esta é a Helena que valoriza o filme; a sua raça devém, aqui, irrelevante. É a Helena certa para a forma como se quer dar a ver esta história." Por fim, percebemos que nenhuma outra actriz seria tão adequada para o papel.

Não vale a pena discutirem. Não porque esteja a ser dogmático, mas porque não designaria sequer esta ideia como um argumento. É um sentimento. Quem viu o filme, sem juízos pré-fabricados, sentiu isto. Entender-me-á.

Post-scriptum: será, nos tempos que correm, inútil advertir para que o título desta crónica contém ironia?



domingo, 12 de julho de 2026

A COLONOSCOPIA E OUTRAS BENÇÃOS

 A colonoscopia é, entre machões, um assunto delicado. Como se não bastasse temerem os resultados, sublinham a ideia de que se trata de se lhes introduzir no ânus seja o que for (que, no que me diz respeito, prefiro não estudar previamente). Como todos os machões têm uma face oculta, inconfessável nas conversas entre tipos de pêlos no peito e murros na mesa, desconfio que o seu receio número um seja o de poderem vir a apreciar a invasão rectal.


Na verdade, é o dia anterior que se deve detestar. A "preparação". Um relativo jejum que facilite o trabalho de certo líquido desagradável, que teremos de ir tomando ao longo das horas e nos desapertará brutalmente os intestinos. Há algum tempo, quando me marcaram uma colonoscopia para o dia a seguir ao meu aniversário, aceitei a ideia com imprudência e estupidez. Devo ter pensado: "Muito bem. Fazer anos no dia a seguir, vai certamente aliar a alegria de estar com os amigos, ao alívio de ter realizado na véspera o procedimento". Já perceberam que passei o dia de anos na fase da preparação? Que, portanto, desfestejei o aniversário, solitariamente, na casa de banho?

Pondo de parte o dia-antes, reconheço que, em si, a colonoscopia é um momento bem passado: à anestesia, com que me dei mal em todas as cirurgias, ficando, durante semanas de insónias, a ver, à noite, caveiras e monstros no tecto e nas paredes, prefiro a sedação. Perco rapidamente os sentidos, mal me dando tempo para contar de 10 para 1, e recobro prazenteiro e bem-disposto, com o sentido de humor em alta e uma leveza eufórica. Concordo com a analogia de Woody Allen: acordar de uma colonoscopia equivale a percebermos que chegámos ao céu. O dia anterior, o da "preparação", seria a nossa cruel passagem pela vida na terra.

O acto de ser colonoscopiado devia estar ao alcance fácil de todos. Antes de mais, porque possibilita um diagnóstico fundamental. Salva vidas. É lamentável que, através do serviço nacional de saúde, se haja tornado um objectivo praticamente impossível. Ressinto-me de que, agora que me apetecia (e me convinha), de novo, ser submetido a uma, não haja vagas; que me digam que depois me telefonarão, para marcar, e pareçam perder o número: como aqueles amigos que reencontramos ao fim de muito tempo, nos garantem, de ar saudoso, abraçando-nos e lembrando episódios divertidíssimos do passado comum, que temos de combinar qualquer coisa, antes de desaparecerem para sempre da nossa vista.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

A ARROGÂNCIA DE CHAMAR UM 'NEGACIONISTA' A ALGUÉM

 

Da mesma maneira que, em tempos de PREC, pessoas bruscamente politizadas começaram a usar a palavra "fáchista" como insulto primordial, que decidiam caber indiferenciadamente a todos os indivíduos, ideias, actos que os maçassem, também hoje se principiou a recorrer ao termo "negacionista" com o mesmo tipo de pouca ponderação.

Quaisquer palavras que se usem para etiquetar os críticos de, a quem se tome por sujeito pareça certo e inquestionável, se tornam perigosas. O novo insulto - "negacionista" -, por maioria de razão. Em ciência, então, vê-se bem de que se trata. Parte do princípio de que há "factos", provados e estabelecidos, pela ordem correcta, pelo paradigma que o sujeito virtuoso, não-negacionista, assume - e nem me atrevo a acrescentar: pelo "sistema", porque sei ao que soaria imediatamente. Mas a verdade é que a ciência é mais do que se põe em cima do tapete. A ciência opera como um conjunto de metodologias que podem ser discutidas e vão sendo revistas, de teorias incompletas e outras que se lhes opõem, experiências que nunca confirmam uma verdade absoluta.

De vez em quando, sem andar à procura deles, sou confrontado com livros, sérios, de investigadores, sérios, que põem em causa ideias ainda consagradas e consideradas tabu por parte de reconhecidos cientistas. Testes em que confiámos cegamente, por exemplo quase todos os que usam animais como cobaias, são agora questionados - e não apenas por razões éticas, mas metodológicas, ou seja, técnicas e científicas.

Pelo que um nome como "negacionista" é, no fundo, um homem-do-saco, muito feio e pouco subtil, que, na sua crítica, absorve e confunde, como se se tratasse do mesmo, teorias da conspiração, ideias sem suporte crítico e científico, fogachos de ignorância, mas também posições rigorosas, que divergem, simplesmente, da imagem "oficial" do que é científico - como se, o que é científico, se reduzisse a um corpo sagrado de dogmas, como se, pelo contrário, não fosse, em última análise, uma luta entre diferentes tipos de erro e de correcções, diferentes conjecturas e refutações, até diferentes vias, umas mais consolidadas, outras mais exploratórias, nenhuma definitiva.

segunda-feira, 6 de julho de 2026

A MÚSICA DO FUTEBOL

 Um jogo de futebol é como uma melodia. O futebol aspira à condição de música. Posso dizê-lo eu, precisamente, que percebo pouco de bola e tenho pouco ouvido musical.

Olho para o campo, vejo homens em calções, que correm, vejo fintas e transições, mas falta-me o órgão, abundante nos comentadores desportivos, que permite captar a arte colectiva, o desenho descrito por uma equipa, em que cada um descobre onde vai estar o companheiro; onde se achará, no instante seguinte, o adversário a evitar; e como, de homem em homem, se inventa um caminho para mais inesperadamente se conduzir a bola contra a baliza dos oponentes. Falta-me a visão de conjunto e de antecipação: percepcionar os homens como notas musicais, que se procuram segundo uma ideia, negando a aleatoriedade, ou melhor, transformando o aleatório, o acidental, em elemento de um sentido.

Oiço a música e não, não é verdade que a não siga com o espírito, como dei a entender, para tornar a analogia mais simples e mais divertida. Apenas não sei "reproduzi-la". Digamos que é a minha voz que, por alguma estranha razão, não acerta nas notas que, no entanto, ouvi tocar e me tocaram. Se sinto inequivocamente a melodia tomar conta de mim, do meu corpo, da minha alma, não consigo trauteá-la. Muito menos cantá-la.

A primeira coisa que me criticarão nesta analogia é o modo como ponho lado a lado um entretenimento menor e, no seu melhor, uma forma de arte maior. O futebol, lembrarão, é alienação, intolerância, corrupção. O ópio das massas. A música, erudição, elevação. Enquanto o primeiro se produz através de corpos atléticos, movendo-se da cintura para baixo, se quisermos reduzi-lo aos pontapés e ignorar a técnica e a inteligência indispensáveis, a segunda produz-se pelo uso dos corpos frágeis, da cintura para cima. Mente e mãos. Enquanto o futebol vive de gritos emotivos e ataques cardíacos, a música precisa que se faça silêncio em volta. O espectador do futebol expressa-se para o círculo exterior. O ouvinte da música entra em si, onde criou um círculo íntimo e um tempo próprios, interiores, para recolher o sentido dos sons que lhe chegam.

E, no entanto, Dmitri Shostakovich, esse extraordinário compositor do século XX, sob a inclemência do regime soviético que o perseguiu e humilhou (Stalin não apreciara uma ópera sua), acossado, preso, caído em desgraça, descobriria de novo, justamente no futebol, o gosto pela vida. Interessou-se profunda e amorosamente pelo jogo, tomava notas, estudava tácticas, escrevia crónicas, acompanhava com deleite uma pequena equipa russa. Consigo vê-lo. Também conseguem? Sou capaz de penetrar no seu medo e no seu desespero, em noites asfixiantes e escuras, em que o menor som, em vez do possível despertar, em si, de uma nova música, poderia significar a aproximação de soldados que o vinham buscar; penetro no seu isolamento, na sensação de que a música lhe morrera, de que nunca mais teria força ou vontande para compor. E sou capaz de o ver, por outro lado, em tudo o que o futebol lhe ofereceu: a concentração, o entusiamo, a fidelidade, o amor, a alegria.

Imagino, a partir deste exemplo, um compositor contemporâneo que goste de futebol. Ao longe, de certa forma. Nunca assistira, ao vivo, a um jogo.
Imagino que, um dia, aceitasse o convite de um grupo de amigos melómanos e futebolómanos.
Imagino-o surpreendido com a multidão, que nunca sentira sob a forma de corpos concretos que se empurram, ruído, odores. 
Imagino-o como o único sem cachecol, sem bandeira, sem nenhuma marca que ostentasse o seu vago orgulho de adepto.
Imagino-o percebendo as oscilações de excitação, as concentrações de ódio, de frustração, de irritação contra o árbitro, de euforia, ao longo de todo o jogo.

E imagino, por fim, que, reentrando em casa, sem fome nem sono, com a mente ainda a vibrar da memória e de sensações da sua tarde como espectador de futebol, se levante da cama, hipnotizado, se sente ao piano, e comece a compor a melhor das suas melodias.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

TER RAZÃO EM HISTÓRIA: ISRAEL E A PALESTINA

 Tanto quanto podemos falar de ter-se historicamente razão, suportando essa razoabilidade numa dimensão ética e política, para além dos interesses particulares de cada povo e de cada momento, Israel não tem razão.

Não que me queira pronunciar como um deus omnisciente no momento de uma revelação. Mas se procuramos determinar esse "ter razão" como remetendo para critérios que a História veio e irá desvendando e afinando como universais, ou seja, para além dos valores de cada tempo, num consenso, como diria Espinosa, e na medida do possível, "sub specie aeternitas", então Israel não tem razão: porque se tratou da criação de um Estado num território onde viviam pessoas, que foram discriminadas (nunca houve igualdade de direitos e cidadania entre os judeus, que chegavam dos mais diversos pontos da Europa, e os palestinianos, nativos de havia muito); porque se procedeu a essa "colonização" em um momento em que a História principiava a condenar o pretenso direito do mais forte a instalar-se em terras habitadas, ou seja, quando já se compreendia tratar-se de um acto eticamente inaceitável; porque os palestinianos nunca foram ouvidos, não puderam pronunciar-se, os expulsaram das suas terras e confinaram a um espaço cada vez mais estreito. O sionismo fê-lo porque, sendo os judeus, inicialmente, muito menos numerosos em Israel, contou sempre com armamento  superior e o apoio de grandes potências: a Inglaterra, a França e nada menos do que os EUA. 

Há um argumento que, na defesa dos sucessivos governos de Israel, lembra que não falamos de um povo qualquer: falamos das vítimas do holocausto. De resto, do holocausto como momento final de uma História violenta de perseguições, expulsões, maus-tratos. Ser judeu foi sempre uma marca de opróbio e sofrimento. E um outro argumento, segundo o qual estar do lado de Israel será escolher o lado de uma democracia de tipo ocidental, contra as formas de um modo de vida árabe e muçulmano, identificado com o que mais afastado podemos conceber da "civilização ocidental".

O primeiro argumento é eticamente indefensável, como se o sofrimento de um povo pudesse tornar-se um passaporte para todos os actos de crueldade por parte desse povo. Como se os judeus pudessem estar acima de qualquer crítica, como se o governo de um Estado decidindo em nome do judaísmo considerasse anti-semitas as objecções à sua prática de desprezo e afronta.

O segundo argumento é racista e colonialista: baseia-se na diminuição dos nativos a sub-humanos: culturalmente inferiores, sem identidade, sem uma História, sem raízes, precisamente como, desde sempre, os conquistadores reduziam os povos indígenas a bárbaros ou animais, natureza a ser domada.

Ambos os argumentos me parecem desprezíveis. E não há qualquer traço do que hoje se entende por anti-semitismo nesta afirmação.

sábado, 13 de dezembro de 2025

AS FONTES DA ESTÉTICA NACIONALISTA

 Miguel Carvalho, autor de Por Dentro do Chega, que considero serviço público - com a pecha de todo o serviço público: não interessar a quem mais carece da instrução e da cultura que ele possa oferecer - preocupava-se, e justamente, com a adesão da juventude ao partido de André Ventura. Nas escolas secundárias, dizia ele, onde captura miúdos que ainda nem votam, e nas universidades, onde a penetração do Chega é tristemente surpreendente.

A que se deve esse fascínio, perguntavam-lhe na entrevista radiofónica que eu ouvia. Por um lado, respondeu MC, ao facto de o partido apostar forte e eficazmente nas redes sociais, e nas redes consumidas de preferência por jovens. Os tic tocs e o instagram. Com tudo o que essa utilização facilita: simplificação da mensagem, adesão em rede e, portanto, em massa, fake news inverificáveis no imediato e não verificadas a longo prazo, etc. Não podia estar mais de acordo com a análise: não foi por acaso que os 60 deputados do caos votaram contra um aspecto particular de certa proposta: a penalização da divulgação de mentiras nas redes sociais. Ousaram fazê-lo e assumi-lo, a coberto do chapéu da defesa da liberdade de expressão. Faltar-lhes-á muita coisa. Lata, não.

Outra razão apresentada por MC residiria na própria leccionação, nas escolas, de um conteúdo e de uma imagética patrioteiras, herdados do Estado Novo: citava como exemplos um manual, onde, numa ilustração, se vía uma sereia olhando, no horizonte, as caravelas lusas; ao que acrescentava a referência ao que se aprende dos Lusíadas, centrado grandiloquentemente na epopeia 

O segundo exemplo pode aludir, marginalmente, a um motivo. Mas duvido de que seja a lição escolar, que este tipo de alunos contesta e que pouco lhe diz, uma das causas relevantes para a génese dessa cultura ultranacionalista. Querem lá eles saber dos manuais; querem lá saber de Camões; lêem-no lá eles; querem lá saber dos professores de Português ou de História. Para essa cultura, para essa estética ideológica, para essa visão arrepiante do português puro sangue, tropeçam em outras fontes. Vivas e activas. Geralmente, em mau Português. 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

UM PEDIDO DE DESCULPA AOS ILETRADOS BONS

 Entre os adeptos do partido que não devemos nomear, no meio de comentários que, nas redes sociais, escrevem sistematicamente que "nada é pior do que a corrupessão que dura á 50 anos", ou "FORCA VENTURA" [não lhe desejando a pena capital, e sim coragem], ou "Deus o elimine" [este não sei se verídico, ou se uma piada, mas si non e vero...], corre a ideia de que a baixa instrução e os erros de Português são uma marca de simplicidade popular: quem assim escreve, fá-lo porque é do povo, começou a trabalhar cedo na vida (enquanto os privilegiados do sistema estudavam, bebiam e descansavam), sai de casa às 5 da manhã, regressando, à noite, cansado, ao lar disfuncional para que 50 anos de corrupessão o lançaram, e presume-se que, mesmo assim, para se sentar ainda ao computador, de forma a usar, no resto de tempo disponível do extenuante dia de trabalho, a sua liberdade de expressão, de forma a infundir energia a quem o há-de vingar e catapultar.

Confesso o meu guilty pleasure: às vezes, respondo. Atiro-me à lama. Entro em guerrilhas que sei de antemão quão vãs não podem deixar de ser. Chafurdo, respondo. Corrijo, sobretudo corrijo; aponto as falácias, emendo os erros arrepiantes.

Como o faço frequentemente, para além de me chamarem excremento, nas diversas formas populares, ou artista circense, e de me mandarem para lugares mal frequentados, ou (um clássico) me esfregarem na cara que não passo de um esquerdalho, acusam-me de ser um pretensioso (pertenssioso), que gosta de "umilhar gente de trabalho que não teve as mesmas opurtunidades".

Vinda de quem humilha e despreza os ciganos e os imigrantes, os insulta e persegue, rebaixando, portanto, os mais vulneráveis da sociedade, esta crítica desfaz-se por si na gargalhada que provoca. Mas a questão é que tenho muito respeito pelos iletrados. Apropriando-me ironicamente da expressão de Ventura, pelos "iletrados bons". Não por aqueles que não vêem contradição, nem têm vergonha, no mau uso da língua, quando se trata de excluir os que consideram menos portugueses, menos puros, menos conhecedores das tradições e da essência de Portugal, do que eles.

Tenho de odiar um partido que manipula, se aproveita e traz a reboque aquela parte dos menos instruídos, que faz, da sua baixa instrução, um motivo de ódio, um desejo de vingança, um ressentimento profundo. E canaliza a raiva contra os alvos: pessoas ainda abaixo de si na hierarquia social.

Posso compreendê-los? Sem dúvida. Posso temê-los e àquilo em que se tornará um ajuntamento de devoradores de tudo o que é limpo e saudável, desde o amor e a generosidade, até à gramática? É o que sucede.

Que os verdadeiros trabalhadores, cuja vida lhes não permitiu estudar, os iletrados que nunca fizeram da sua iliteracia uma forma vingativa de superioridade (e que não lerão provavelmente este texto, nem terão tempo a perder nas redes sociais) não confundam as coisas. A eles, as minhas desculpas. 

sábado, 27 de setembro de 2025

UMA TENTATIVA DE EXPLICAÇÃO DO INEXPLICÁVEL

 O que o Partido CHEGA representa é ambíguo e confuso, como em todas os exercícios onde se tenta definir contornos ideológicos a uma mera dinâmica de ambições e oportunismo. Mas o que é está descaradamente à vista: gente sem princípios nem educação, ressentidos que se manifestam aos berros e com insultos, instalando-se na assembleia como, dizia a minha saudosa mãe, "vilão em casa de seu sogro". 

O fascismo e o nazismo eram guiados por uma weltanschauung, insana, fracturante, opressiva, mas, ainda assim, uma visão do mundo que, à época, atraiu filósofos ainda hoje estudados, como o sinistro e brilhante Heidegger, ou investigadores com uma obra científica importante (e, já agora, merecedora do Prémio Nobel), como Konrad Lorenz. Eram pessoas ética e politicamente más, ou distorcidas, crendo em uma ideologia ignara, mas logicamente consistente. 

Tanto não poderíamos dizer dos membros do CHEGA. Reaccionários, claro, com referências e heranças que se dispersam, desde mal digeridas citações de Salazar, até doutrinas indiscutivelmente nazis, amassadas num fervor de claques de futebol e no espírito do marketing, dos tic tocs, das fake news, da simplificação extrema e da repetição contínua das mensagens. Claro que parte do nazismo alemão já era isso: as hordas, os ressentidos violentos, as tropas brutais. Uma anti-cultura, uma anti-inteligência. 

Seria quase impossível que, num partido onde as lutas internas, as invejas e as traições, mas, sobretudo, ressentimentos opostos e confusos, se movem, não transparecessem, para o exterior, erros de decisão. E isto sem ignorar a eficácia da sua propaganda. Mas os disparates e os tiros nos pés são tão constantes, que se torna um study case compreender por que razão não parecem afectar negativamente o seu eleitorado, fazer pensar duas vezes, levar a um recuo ou a uma hesitação entre os fiéis. 

A resposta fácil e mais vulgarizada tem sido: porque o saco em que o partido faz as suas conversões é o de gente sem instrução e sem horizontes, sem espírito crítico e, por isso, manipulável. Sem dúvida, trata-se de uma razão: quando se constrói um ídolo e se dissemina uma fé, os pés de barro são ardilosamente explicados; quando se defende uma máquina que divide um povo entre os nossos e os inimigos, as críticas e as denúncias proviriam necessariamente de inimigos e, portanto, nunca ultrapassam um viés mental: é tudo mentira, o que eles querem sabemos nós, ou, admitindo que se instale alguma dúvida, nunca a dúvida ganhará o peso de um problema acutilante, corrosivo e desagregador, uma vez que, em última análise - dirão -, os outros fizeram muito pior, foram mais corruptos e maldosos, e foram-no ao longo de cinquenta anos. 

Diria que há dois conceitos da psicologia que ajudam a entender a persistência da fé, apesar de uma realidade provocadora, que insiste em a desmentir sistematicamente. 

Um é o conceito de pertença: quando os seguidores são, em geral, deserdados e desfavorecidos, frustrados, os que já não têm esperança e odeiam a sua vida (a qual representam sob a forma de "o sistema"), nada pode abater a emoção de se sentirem ligados a um grupo, uma espécie de vencidos da vida, sem o talento dos originais vencidos da vida, que se unem para um derradeiro combate. "Agora vão ouvir-nos: aos nossos medos, aos nossos falhanços, à nossa raiva". 

O outro é a dissonância cognitiva. O mecanismo que permite separar, em esferas diferentes, desconectadas entre si, experiências e crenças que, conjugadas, levariam ao colapso daquilo em que acredito. Posso amar os animais, e apreciar um espectáculo de tourada, como se não existisse qualquer contradição. Posso crer em Deus, e fazer do roubo e da violência o meu modo de vida, ou crer numa profecia que não se verifica, sem pôr em causa as fontes da profecia. Posso ter conhecimento das burrices e dos vícios de deputados do CHEGA, e continuar a pensar que, nas suas mãos, o país, um dia, sairá do que tomei como "a miséria e a corrupção em que tem vivido desde o 25 de Abril".

domingo, 14 de setembro de 2025

UMA SUBIDA ANUNCIADA

Do partido do dr. Ventura, André, há duas particularidades a reter: que é um compósito do pior da idiossincrasia portuguesa e que o pior da idiosincrasia portuguesa se revela eficaz no país dos portugueses.

Para começar, trata-se de um "partido de protesto": traduzindo isso para a língua da realidade, significa que cresceu como o ponto de encontro dos ressentidos: os que nunca ninguém levou a sério na política porque eram pouco instruídos, ou porque sacaram uns cursos "inclusivos", em que Portugal se tornou pródigo para, em teoria, oferecer a todos as mesmas oportunidades académicas, enquanto a nova elite estudava em universidades prestigiadas do estrangeiro; os que, provenientes da "província" ou de meios "suburbanos", nunca fariam carreira nos partidos do "sistema", já tomados por aparelhos de universitários que haviam subido nas juventudes partidárias; os pequenos corruptos, sem um discurso ideológica (e moralmente, sobretudo) articulado, que os ajudasse a justificar os seus golpes rasca: furtar malas em aeroportos, caixas de moedas da paróquia, combustível das ambulâncias ou de veículos de bombeiros da agremiação de Bombeiros em que trabalhavam; não pagar impostos ou aldrabar nas declarações. Enfim, isto para dar uma ideia do nível a que nos referimos. 

O 25 de abril criara, por sua vez, milhares de ressentidos. Entre outros, pessoas que retornaram das ex-colónias, com o sonho das grandes paisagens e das praias maravilhosas para que os olhos da memória continuavam a olhar, e de que  se sentiam "despojados", "espoliados": tinham sido traídos; os latifundiários que se escaparam para os brasis, maldizendo comunistas e "esquerdalha"; os eclesiásticos postos em causa nos seus privilégios e na influência sobre o rebanho; e todos os esquecidos do que era o Portugal do Estado Novo, afagando, agora que os filhos podem estudar, a ideia de que antes (quando eles próprios não puderam estudar) era bom, era melhor, havia ordem e segurança. Este é o eleitorado potencial que o Chega despertou e uniu. Este, a que se juntaram, como sempre, os arruaceiros, os jovens estudantes sem objectivo, em idade de votar, que encontram, em Ventura e no seu partido, uma imagem de rebelião com que se identificam: a grosseria, o berrar mais alto, o provocar, o achincalhar, o "é para partir tudo!" - no fundo, o comportamento, entretanto impune e generalizado, que sempre tiveram em aulas, onde viam o professor como o velho que tinham de confrontar e os colegas mais fracos como alvos a perseguir. 

A estratégia do Chega é a não-estratégia de dividir: nós contra os outros (imigrantes, pessoas de esquerda, todos os que questionam o padrão da sexualidade e da identidade de género, por exemplo), e de lançar, sobre esses outros, todas as responsabilidades pela insegurança, pela corrupção, pelos incêndios, pelos males que nos assolam. Acusa-se, deturpa-se, mente-se. As redes são o autêntico poder de condicionamento de mentes menos sofisticadas. 

O que aconteceu recentemente em torno do pretenso festival do hambúrguer, a invenção que foi uma amostra de iliteracia e má-fé, parece exemplar: primeiro, o(correu) a divulgação da notícia falsa; depois, reconhecendo-se o erro, ainda se achou maneira de disparar culpas em todas as direcções: o Presidente fez várias viagens inúteis à custa do erário público (portanto seria fácil crer que se tratava de mais uma); o parlamento escreveu erradamente a palavra, esquecendo o "trema" ("a trema", lamentava-se Rita Matias) e, assim, provocando o equívoco (como se um deputado não tivesse de procurar mais informação, antes de vir para o tic toc); e a estocada final: foi cometido um lapso, de acordo, mas a imprensa, "antidemocraticamente anti-Chega", falou nele "como se tivesse havido um atentado" ou alguma coisa muito grave. 

Dizem que o partido veio subindo nas sondagens, que está à frente da própria AD. 

Há quem se espante?

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

O MISTÉRIO 'CARMEN MOLA'

 Desde Poe e Doyle (ou, se levarmos a sério a tese de Savater, desde, pelo menos, o Antigo Testamento, onde a história da Casta Susana prefigura e já em latência contém as normas do policial) que se foi estabelecendo um modelo de narrativa sobre resolução de crimes. Ingleses e norte-americanos, mais tarde autores franceses, vieram definindo os contornos, e o desafio agarrou e bastou aos leitores; não se pedia mais: um assassino extremamente inteligente, um investigador excêntrico, com miolos ágeis, aplicados à resolução de assassinatos impossíveis, uma mão cheia de suspeitos num ambiente fechado, e duas competições paralelas, que, paradoxalmente, se confundem: uma entre o criminoso e o solucionador de charadas, mas, sobretudo, outra entre o autor e o leitor. Enganei-te? Fui brilhante? Desviei-te a atenção do essencial? Acreditaste que o assassino era o suspeito que tornei mais provável? Ou, antes do fim, já te aperceberas do truque, da manobra, do indício oculto?

Mais tarde vieram os escritores nórdicos de histórias policiais e nada voltou a ser como era: já havia prenúncios, mas nunca a este ponto a introdução, no romance, de uma vida pesada e complexa, de detectives com problemas psicológicos, de alcoolismo, divórcios, tristezas e dramas profundos. Não demorou até que este modo deviesse a nova fórmula, e se digo fórmula também insinuo que acabou por ser a conjugação de alguns clichés.

Isto assente, estamos de férias, um policial lê-se sempre com prazer e dêmos a vez a uma autora espanhola. Mentira, para já. Tal como "Ferrante", também "Carmen Mola" não é real: um truque de magia, um nome vazio, um pseudónimo que se não sabia a quem fazer corresponder, uma operação de 'marketing'. Até que, no segundo volume da trilogia, se veio a saber (informação revelada na badana) que Carmen Mola é o nome sob que se ocultam três autores, escrevendo em conjunto, Antonio Mercero, Agustin Martínez e Jorge Díaz.

Os clichés, diríamos, estão reunidos e prontos a servir: a chefe de uma equipa, que bebe à tarde e à noite, ou faz sexo, no seu jipe, mais raramente no seu apartamento, em Madrid, com engates de bar (onde vai fazer karaoke), enquanto continua em busca do filho raptado há anos, insuportável situação que ditou a separação entre a Inspectora Elena Blanco e o pai do seu filho, que optou por continuar a vida e ser feliz.

E contudo, quando começamos a ler os romances, primeiro 'A Noiva Cigana', depois 'A Rede Púrpura' (e faltar-me-á o terceiro), muito bem escritos, isto é, literariamente exigentes, convincentes, com um toque de crueldade que nos incomoda, mas a que se não resiste, percebemos que os clichés não servem senão para sinalizar e confirmar um género, porque, na verdade, estas narrativas são literatura na verdadeira acepção da palavra, mas também um jogo de inteligência e suspense. Como se os autores nos dissessem: Mesmo com ingredientes de merda, que já viram centenas de vezes e não faltam em nenhuma despensa - até, na verdade, uma criminosa enviada para seduzir um polícia e, no fim, uma vez descoberta, lhe diz: "Pode ter começado como uma manobra, mas, a partir de certa altura, apaixonei-me de facto, fui sincera" -, vejam bem que pratos de luxo somos capazes de cozinhar. 

Carmen Mola, que não é Carmen Mola, oculta três autores que descobriram o método perfeito de trabalhar, a três, como se fossem um, produzindo policiais cultos e intensos.

sexta-feira, 1 de novembro de 2024

UM ABRAÇO AO AMORIM

 

Como sou um sportinguista de coração, mas não de sofrimentos cardíacos, posso apresentar-me na qualidade de um dos raros adeptos do Sporting com o espírito justo para compreender um lado e outro.

Por um lado, como todos os Leões (se é que a denominação me não fica larga), sinto-me triste. Não desesperado, não choroso; não arrepanho cabelos. Não vagueio por túneis de insónia. Mas é verdade que, tendo o meu filho, quando o Sporting perdia mais jogos do que ganhava, aos dez anos, desertado para o FCP (aliciado pelo padrinho), passei a ter de enfrentar mais isoladamente as sucessivas derrotas, a travessia da ditadura de Bruno de Carvalho, a vergonha do ataque a Alcochete. 

A chegada de Rúben Amorim foi, pois, uma revolução benéfica. Em todos os aspectos: as escolhas e os contratos bem feitos, o plano de acção, a construção de uma equipa. A humildade e a retórica exemplares. O Sporting tornou-se no que era. Mesmo um adepto longínquo como eu, amante rendido, sim, mas, ainda assim, longínquo, percebeu o orgulho a bater em si, o prazer, que não conhecia, ou não deste modo, de assistir a um jogo, de ver o Gyökeres a marcar golos ou os rivais eternos a embater num grupo fortíssimo.

Por outro lado, compreendo inteiramente a decisão de Amorim. Direi sempre que se tratou de uma escolha profissional, não ética. Pelo amor de Deus! A fidelidade a um clube de futebol não deve estar submetida a um imperativo categórico, nem o adeus terá consequências que superem o domínio do jogo. Fico impressionado com o que tenho ouvido proclamar: que Amorim se vendeu; que a despedida revela uma falha na sua integridade moral; que é uma traição. 

Só me entristece pensar que talvez o Sporting não encontre ninguém à altura. Que a aura dos últimos tempos se desfaça. Que, porventura, uma época que tão bom início teve, possa não ter a conclusão que prometia.

Mas, se tenho algumas palavras a enviar a Rúben Amorim, são: obrigado por tanto. 

Que me orgulhes, agora, como treinador português a trabalhar "lá fora".

segunda-feira, 19 de agosto de 2024

ALAIN DELON

 Por alguma razão, não me sentiria bem comigo mesmo, ainda na esfera de reverberação da morte do meu irmão, também levado, sofridamente, por um cancro, se não me pronunciasse aqui acerca de Alain Delon.

Existem, de que me tenha apercebido, duas correntes: a dos saudosos, que choram a partida do homem indiscutivelmente bonito e do bom actor (que outros garantem não ter sido assim tão bom, sequer) e a dos indignados, que fazem questão de relembrar o narcisista de extrema-direita, que - não sei se é verdade - teria batido em mulheres, e nunca reconheceu um filho. Como de costume, e não me orgulho, não consigo incluir-me em nenhum dos lados.

Delon não só era bonito, como a sua beleza marcou uma época. Então não me recordo dos suspiros da minha prima Paulinha que, recém entrada na fase pateta da juventude, assistira ao filme 'A Piscina', com um Alain Delon na sua melhor figura e uma fascinante Romy Schneider? Nem todas as belezas marcam desse modo, e os anos 60 não podem ser revisitados sem a pujança do cinema francês, e sem Bardot, Belmondo e Delon, para referir apenas três ícones de uma cultura cinematográfica pop.

Será pouco. Será o elemento superficial. Ou não, porque o ar de um actor ou de uma actriz definem as imitações que os espectadores farão, o modo de vestir, a pose de parte de uma geração. E também disso se faz o espírito e a imagem de um tempo, como as fotografias nos revelam.

Para além disso, discordo dos que afirmam que nunca foi senão um actor mediano ou medíocre. Diria que é um preconceito da mesma ordem dos que subjazem aos homens que, sobre uma mulher bela, insistirão sempre que se trata apenas de uma mulher bela, nunca inteligente ou talentosa. Comunguei desse preconceito, evidentemente. (Em relação a Delon, não a mulheres belas). Até a minha mãe me chamar, um dia, a atenção para a magnífica representação do jovem Alain Delon em 'O Leopardo', de Visconti. Nunca vira o filme. Tive a oportunidade de o fazer: ensinou-me a olhar para o actor com surpresa.

A sua vida pessoal pode ser ignorada ou esquecida? Não pode. Mas, em primeiro lugar, reivindico a separação, como sempre, entre a obra e a pessoa. Os seus filmes valem por si. Muito bons ou medíocres, não podem, não devem ser medidos pelos actos do realizador ou dos actores.

Que fosse de extrema-direita, confunde-me. Uma pessoa sensível e inteligente nunca será de extrema-direita. É o reino da estupidez, do medo e da ausência da inteligência emocional. Que fosse amigo de Le Pen e votante no partido dele e da filha ajusta-se perfeitamente à biografia do homem, que infelizmente foi, homofóbico e sem respeito pelas mulheres. Mas um homem é um homem - miserável, contraditório, com uma visão do mundo, da vida e dos outros, impregnada de vícios, terrores e péssimas escolhas. E se me parece fácil e linear pensar que nunca me daria com ele, razões várias me levam, hoje, a conviver com pessoas que ideologicamente me fazem estremecer.

A um homem que sofreu, que acabou detestando um mundo, a que, sem dúvida, legou alguma coisa muito boa e muita coisa má, ou terrível, e que já só desejava morrer, obviamente em guerra consigo mesmo, podemos perdoar. Não que o meu perdão sirva, ou faça diferença.  Nâo esquecer. Esquecer nada, esquecer nunca. Mas rever o que, dele, merece que se veja. E lamentar: sentir tristeza pela sua impotência para sentir tristeza pelos outros. Somos todos projectos errados com muito de bom, ou excelentes projectos com demasiados erros e culpa. A morte é sempre perda.

sábado, 10 de agosto de 2024

IRMÃO MAIS VELHO

 Eu gostava imenso do meu irmão. Gostava e gosto, claro. Mas é diferente amar uma pessoa viva e amar a sua memória. A memória não nos agarra fisicamente, não ri connosco ou de nós, e não nos surpreende, porque se limita a repetir o que já experimentámos, só que, nesta forma, transformada em saudade, mais dolorosa mas muito menos nitidamente. Amava-o, portanto: um misto de mito em que se tornam, frequentemente, os irmãos mais velhos, feito a partir das aventuras de que suspeitamos; do mundo jovem, depois adulto, em que queremos penetrar quando somos crianças, mas de que temos, apenas, vislumbres, como a uma janela mágica, que falseia e agiganta o que julgamos estar a ver; de provocação irritante, que somos muito novos para levar a bem; de um humor trepidante; e daquela sanguinidade, composta por diferenças e semelhanças que me fizeram sempre sentir que eu era um dos seus rostos, que ele era um dos meus rostos, como se representasse aquele em que eu me tornaria quando mais velho, como se fosse o José Pacheco do futuro visitando-me numa encruzilhada do tempo.

Meu irmão foi admirável com a minha mãe. Tornou possível que ela ficasse a viver na «sua casinha», evitando, com unhas e dentes, que acabasse num Lar, seu derradeiro terror. Com sacrifício da sua vida, dormindo mal para poder acompanhá-la, cuidando-lhe das refeições e da medicação, às vezes no limiar do exaspero e da depressão, o meu irmão nunca virou costas.

A nossa relação não vogou sempre pacificamente. Demo-nos bem e demo-nos mal: neste amor que às vezes negávamos e que tantas vezes renegámos imiscuíam-se indignações, ciúmes, quase traições. O meu irmão não era uma pessoa fácil, como eu próprio só devo parecer fácil a mim mesmo.

Mas se ele não era fácil, da sua complexidade (emocional, intelectual, ética) fazia parte uma grandeza que tendia a passar despercebida. O seu percurso de jornalista e de especialista em assuntos africanos permitiu-lhe momentos decisivos, muitos dos quais só vieram a ser conhecidos por mim, através de interpostas pessoas, já após a sua morte. Como Secretário da Fundação Pro Dignitate, presidida pela Dra. Maria de Jesus Barroso (até aos terríveis choques que foram o falecimento da Presidente, primeiro, e o encerramento da organização), terá vivido o tempo mais feliz, mais empenhado, mais intenso dos últimos anos, ajudando a proporcionar apoios, negociando decisivamente, no terreno, com líderes desavindos, trabalhando para a Paz. Foi, aliás, um dos mais sérios e abnegados pensadores do que designava por Jornalismo para a Paz. Pensou-o e praticou-o, viajando e dando formação em Cabo Verde e na Guiné-Bissau. 

Não tivemos, durante muito tempo, a necessidade de nos encontrar com regularidade. Nos últimos meses, quando o cancro, já instalado e a multiplicar-se havia muito (escondido por ele que, certamente, desconfiaria, mas nos quis poupar), quando o maldito cancro, escrevia, não podia continuar a ser varrido para debaixo do tapete, reaproximámo-nos. Vivemos, então, tempos horrorosos e maravilhosos: o horror de assistir à rápida degradação física, à dificuldade de se deslocar, às esperas prolongadas, e inúteis, de consultas e de exames, num périplo desgastante pelos hospitais de um sistema público bem intencionado, mas impotente, e a maravilha dessa nossa reaproximação. Conversávamos, lembrávamo-nos, nunca nos faltou assunto, seríamos sempre dois africanos retornados a Portugal, e aos retornados de África nunca falta assunto, almoçávamos no restaurante do casal misto, ela brasileira, ele português, com uma proibida jarra de vinho tinto a forçar a sua presença, manchando o papel que cobria a mesa. Insistia em comprar-me jornais, entre os quais o 'Tal & Qual', que não aprecio, mas me recomendava por causa da crónica, muito interessante, dizia ele, da Rita Ferro. Enviava-me as reportagens que ainda fazia para a Rádio África, as últimas, preciosas, com lapsos de tempo e uma voz enfraquecida, mas sempre de uma informação completíssima e exposta com a simplicidade dos grandes homens que escolhem a modéstia.

Queria sentir-se amado. Cumprimentava todas as pessoas no seu bairro, exagerando nas gorjetas, quer fosse tomar um café ou cortar o cabelo. Fazia questão de me apresentar: É o meu irmão mais novo.

Telefonava-me todas as noites.   

Às vezes, à noite, esperando um seu telefonema, demoro alguns instantes até aperceber-me que já não haverá.


     

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

DA FALTA DE NOÇÃO E DO CRISTIANISMO

 1. Estou sentado numa espécie de banco de jardim; medito sobre como principiar cuidadosamente esta crónica, de forma a, em simultâneo, relacionar situações muito diferentes, que me têm perturbado e feito reflectir nos últimos dias, expor sem superficialidade aquilo que penso, mas, ainda, opor-me a ideias e pessoas credíveis e amadas, sem que considerem que as deprecio, nem as ferir. A tarefa afigura-se-me excessiva e complexa.

Primeiramente, teria de me referir ao que cada vez mais se designa por "falta de noção": observo muitos humanóides destituídos da mais elementar noção, mas como compreender essa ausência, quando os sujeitos são pessoas que prezo, ou quando considero o mar ideológico  em que se banham, meritório e respeitável? Trata-se de um problema. Sou, então, obrigado a lembrar que a "falta de noção" tem que ver com o não reconhecimento (obtuso, parece sempre), de limites. Mas por que teriam os meus limites, ou os do meu grupo, morais ou do bom-gosto e do bom-senso, devir o padrão, o critério universal? Sem querer cair no perigoso e triste relativismo, a presença deste horizonte, deste lembrete, torna-se imperiosa quando, às vezes, nos interrogamos: Mas como raio é que ele não vê (o ridículo das suas palavras ou actos, a imbecilidade, a inexistência de um resquício de pudor ou decoro)?

A visão moral cristã não é estúpida nem superficial. Falo da autêntica visão cristã, não da apropriação que a igreja tradicional dela veio fazendo, reavivando os interditos do Antigo Testamento e o precipitado desejo de julgar outrem; falo, antes, da compaixão, do amor pelo próximo ou de pô-lo primeiro do que a mim mesmo. Julgo que se, em parte, esta visão, ao longo de muitos anos de ditadura, inspirou uma ética da esmolinha e da caridade, num Portugal miserável, e se, entre os mais abastados, não passava de um lenitivo para as suas consciências, que se mordiam, foi, por outro lado, sempre a possibilidade de ajuda em casos concretos, ou de manter acesos ver, ouvirlernão ignorar, em suma, preocupar-se; a - e vou usar uma palavra que conta, hoje, com poucos amigos -, a piedade.

Tudo isto exposto, não consigo, portanto, arrasar uma pessoa como Laurinda Alves. Quando muito, surpreender-me pela sua mudança. Mas, aí, nada de novo: surpreendo-me sempre com o espectáculo de uma pessoa, ainda jovem, tornando-se na reaccionária que nunca propriamente fora. O seu mundo fixou-se: cristão e conservador. Todavia, a sua intenção aspira sempre ao melhor, mesmo quando fantasia uma enorme marcha de mendigos e sem-abrigo. A falta de noção advém, aqui, da inadequação entre a intenção e os meios. A falta de noção resulta de que se pense que, se há tantas marchas (políticas, ou querendo dar a vibrar um grito de orgulho, etc.), por que não uma que confrontasse as conscienciazinhas burguesas com o sofrimento e a carência? 

Por que não? Porque é indigno, claro. Porque os sem-abrigo não são aberrações de feira. O que faltará a alguém como Laurinda Alves para medir isso, para intuí-lo, para ter noção do que há de errado nesta proposta de exposição, ainda que com a melhor das intenções? Em algum aspecto de toda este projecto, paradoxalmente, tem de subsistir uma falha moral, uma incapacidade de perceber que os indivíduos devem ser protegidos e não transformados em figuras de exibição e circo. Tem de subsistir algum desrespeito, no fundo, pelas pessoas concretas, ainda que a sua condição socio-económica nos indigne. Pergunto-me: a falha está contida na própria visão cristã do mundo? É-lhe intrínseca? São coisas diferentes?

2. Do meu ponto de vista (mas creio que esta catalogação não deixará de ser polémica, embora esteja longe de, aqui, pretender ser insultuosa), é no mesmo tipo de formação cristã que, inconscientemente, radica uma crítica generalizada contra a Joana Marques e o seu programa Extremamente Desagradável.

Quando oiço dizer, a pessoas que respeito e sigo com o melhor da minha atenção, que o Extremamente Desagradável roça o bullying e exerce um tipo de humor fascizante, malévolo, em sistemática busca da falha do outro como matéria de troça, a minha reacção mistura demasiados ingredientes em contradição. Por um lado, pergunto-me se estes críticos terão razão, e "perguntá-lo" é já, certamente, a manifestação de uma secreta culpabilidade, uma vez que o programa me faz rir.

Passemos à frente do facto de que, em Portugal, desde o 25 de Abril, aprendemos a usar com certa imoderação, convertendo-as em insultos, palavras formadas a partir de "fascista" (fascistóide, fascizante...); ainda me recordo de um colega que gostava de citar - espero que errónea ou descontextualizadamente - Roland Barthes, para me dizer que "a linguagem é fascista."

Esmiuçando um argumento que acabei de ler, tento compreender por que razão uma amiga minha afirma ser necessariamente malvadez ridicularizar alguém que teve menos oportunidades, ou instrução, ou meios, do que eu. Posso fazer crítica de costumes, aventa, sem nomear. O pecado reside em apontar. Sobretudo, tomando, por objecto, gente "vulnerável" (intelectual, social, cultural, economicamente).

É a visão cristã. Bondosa e incapaz de humilhar ou rebaixar. Ao mesmo tempo, há que acrescentar: trata-se de uma visão piedosamente sobranceira - nunca rir dos pobres de porventos nem dos pobres de espírito. Entendo. Sem ironia: entendo, realmente. Onde me parece que o argumento claudica? No facto de que Joana Marques se mete com pessoas que, de uma ou de outra forma, têm sucesso, poder, influência; triunfam neste mundo frágil e estranho, que nos domina, de algum modo, a todos: genericamente, as redes sociais. Um participante do Big Brother, por exemplo, não é apenas un abruti. Nem tão-só um homem ou uma mulher que profere inanidades e expressa preconceitos, reduzindo o mundo a uma dimensão única. Mas um homem ou uma mulher que fazem cabeças, influenciam, assumiram-se como modelos sociais. Ou seja, numa sociedade em mudança contínua e global, as classes culturais já não são células estanques. Como se, pertencendo, pelo nascimento, a esta, se tornasse de mau-gosto e moralmente inadequado gozar com os daquela, a quem, coitados! não fora oferecida, de bandeja, a mesma educação. Talvez não, mas a verdade é que eles próprios deram em educadores. Vendem lições. Escrevem livros de auto-ajuda. Entram-nos pela TV. Viajam para entrevistar o Bolsonaro himself e, não o conseguindo, conversam, pelo menos, com a Maria Vieira. Onde raio os vai Joana Marques buscar? Onde diabo os descobre? Retira-os, cruelmente, ao anonimato? Eram donas de casa sossegadas, cidadãos pacatos, ouvidos, por acaso, numa taberna, a discutir, preconceituosamente, os ciganos, a política, o futebol? Ora reparem melhor. Estão aí, por toda a parte, como zombies, revelando a sua vaidade, o seu senso-comum tacanho e os erros de Português. 

Num dos últimos Extremamente Desagradável Joana Marques debruçou-se sobre Rita Pereira, a propósito de uma conversa entre ela e Cláudio Ramos e Maria Botelho Moniz, num programa da TVI. Não quero mal a Rita Pereira. Nem me move a inveja, porque nada do que RP conquistou me interessa. Não sei se parece feio achincalhar-lhe o discurso. Mas, que diabo!, são as palavras dela, num momento televisivo com centenas de tele-espectadores. Ou milhares, não sei. Não se pegar na falta de noção e na imodéstia da actriz, no orgulho, patente, por se achar superior (e incompreendida), ou na franqueza de nos jurar que os seus detractores o são, porque ela está "aqui" e eles não", conquistou "o mercado, e eles não", conquistou "o mundo, e eles não", seria perder o potencial crítico e, até, pedagógico, do humor. Não se trata de rirmos de um lapso, de uma queda, de um erro. Mas de rirmos de um discurso cheio de si e de um olhar egocêntrico e auto-indulgente sobre si-no-mundo. O discurso poder invadir-nos, alastrar, implantar-se, e a crítica dever calar-se para não humilhar o visado, seria a negação de qualquer exercício de humor social e cultural.

segunda-feira, 7 de março de 2022

UCRÂNIA

 Quando olhamos à volta (ou em frente, directamente para a tv em hora de noticiário) e assistimos às notícias sobre forças russas que invadem a Ucrânia, famílias em desesperada fuga, a iminência da III Guerra Mundial, torna-se difícil não nos sentirmos atraídos pelas explicações dos repórteres e dos comentadores, como insectos pela luz. Ora a essa luz, a luz das interpretações que nos vão pondo diante dos olhos e nos fazem entrar pelos ouvidos, como se os media ocidentais fossem independentes e livres, tudo se torna linear, e é difícil não vermos o mal absoluto de um lado, tanto mais que Putin se presta à personagem de Darth Vader e, do outro lado, os ucranianos, como democratas indefesos, às mãos do temível "oligarca" (outra palavra que desatámos todos a usar, tal como bruscamente, na pandemia, aprendêramos a empregar o antes raro e quase desconhecido "comorbilidades".)

Daí que fervamos de indignação em face da cegueira do PCP, que foge à única narrativa que nos parece tolerável. Eu sei. O Partido Comunista irrita na sua monótona previsibilidade. Sejam os dados quais forem, o culpado é sempre o mordomo, ou, no caso, não um mordomo, mas o magnata de quem somos todos, países europeus, os mordomos.

Quanto mais escarafuncho, porém, mais vou lembrando ou descobrindo que a história é menos simples do que aquilo que a nossa necessidade de escolher um partido busca; que os nazis, não tão numerosos como Putin dá a entender na justificação do seu acto de guerra, contudo, existem perigosamente na Ucrânia: o Batalhão Azov é um facto, e a sua ideologia expõ-se, longe de complexos ou culpas, assumidamente como neonazi; que o governo ucraniano perseguiu de forma sistemática os habitantes russos no país. Nada dá razão a uma invasão: olhar para Putin como se fosse um salvador e um libertador seria estar a contar anedotas ao diabo. Mas num tecido histórico e geográfico muito tenso, sobre conflitos em que nos demos ao luxo de não reparar, perante um periclitante equilíbrio entre potências nucleares, o que acontece tem vértices, e espinhos, e responsabilidades de que as reportagens não sabem, ou não querem dar conta.

Seria necessário, no modo como pensamos acerca disto e do que fazer, que fôssemos capazes de tudo tomar em consideração. Que fôssemos capazes de estabelecer como prioridades 1) parar a guerra, o que não implica, nem deve implicar, qualquer apelo para que a Ucrânia se renda, acrecento-o de forma a  não subsistirem equívocos; 2) proteger os cidadãos ucranianos, medicando, alimentando, recebendo e abrigando, sem baixar, contudo, guarda, isto é, nunca deixando de discriminar ou de manter as críticas ou as exigências perante a presença de elementos repressivos e nazis que o governo da Ucrânia normalizou e vem utilizando (e nunca fazendo de conta de que isso, e a repressão sobre as franjas russas ou russófilas, nunca existiu na Ucrânia); e não, não me venham dizer que, ao assinalar este aspecto, confundo prioridades ou faço equivaler os dois lados, como se me esquecesse de que existem aqui, efectivamente, um invasor e um invadido. Não confundo, nem o faço: lembro que o apoio não significa varrer para debaixo do tapete o de que não convém falar. Quando muito, pois, pergunto por que razão, para a maioria dos defensores da Ucrânia, essa questão parece não existir; e 3) não desconsiderar nem humilhar a Rússia, não por medo do bully, mas porque a história foi, naquela região, uma história de desrespeito e ameaças de parte a parte, de reacção ao medo e à provocação, de equívocos, tanto como de uma visão imperial e de aspiração ao controlo dos recursos energéticos.

O rigor de, numa análise, querer ver tudo e nada deixar de lado, passa, muitas vezes, por ambiguidade e cobardia. Diria que, nestes tempos, é justamente o contrário. 

sábado, 20 de novembro de 2021

DA METAMORFOSE DOS PÁSSAROS

 Estou como só em face do filme que não sei se conseguirei compreender na totalidade, tais os prémios, os elogios da crítica e dos meus amigos, a tensão da expectativa, o desejo de nada deixar escapar. "Só", porque, não tendo podido ir a nenhuma das sessões em que a Catarina e algumas pessoas relevantes na cultura portuguesa me pegassem pela mão e me ajudassem a olhar, conto apenas com os meus olhos e a minha sensibilidade.


Imergindo - a imersão é,  aliás, uma imagem forte, em dois momentos e com dois protagonistas diferentes: ou a imersão de uma, que emerge como outro -, a primeira perplexidade, diria a primeira tremenda perplexidade com que me debato, é esta: como pode tamanho sofrimento estar na origem de tamanha beleza? Conheço outros casos. A arte é pródiga em exemplos de arrancar beleza à dor. Mas alguma coisa na nudez deste sofrimento, em "A Metamorfose dos Pássaros", pelo facto de não haver "personagens", mas "pessoas", reunidas na generosidade de um testemunho sentido e na tentativa de reconstrução de uma história de perda(s) que viveram, tornaria a beleza quase impossível. E contudo, ela é a substância destas imagens e da sua verdade. 


Uma segunda perplexidade - não sei de que ordem, se técnica, se estética - tem que ver com o modo como se casam estas diferentes linguagens, sem que, verdadeiramente, nenhuma seja a mera serva da outra: o texto, profundo, belo, que unifica as imagens, não é um seu instrumento, nem elas se lhe subordinam. E não coincidem exactamente no tempo: um instante antes da fala que a verbaliza, a imagem já se mostrou, na sua intensidade plástica, nas suas cores que nos cegam, pronta a diversas interpretações em que a voz, imediatamente a seguir, exercerá uma escolha, uma configuração, um sentido.


O sentido é em certa medida uma reinvenção de um passado. O que é o passado, o que sucedeu efectivamente? Espera, Catarina, as coisas não se passaram bem assim, diz em certo momento o pai. Mas que importa? E que importa que se dê a esse pai outro nome, por respeito pela inteligibilidade, evitando que nós, espectadores, nos percamos em mais do que um Henrique? A dor é verdadeira. E o filme trasmite-no-la incólume, a ponto de nos esmagar. As diferentes dores, aliás: pela morte da mãe/avó, e pela morte da mãe da Catarina, que parece repetir a anterior, mas é sempre única, terrível; e a dor de cada um dos que sobreviveram, que não pode ser realmente partilhada.


A fragilidade dos corpos é comovente, perante o sublime do sofrimento. A fragilidade do corpo de Catarina, quando a vemos tão vulnerável,  ou a dos corpos de seu pai e dos irmãos quando se reúnem para queimar a correspondência, demasiado íntima, entre o pai e a mãe deles. Como se faz? O que se guarda, e como? Que sentido, fiel ou em parte criado, se pode preservar?


Por uma poética ironia, fazia-me alguém notar, o desaparecimento da correspondência não impediu que as vozes gravadas da avó e do pai e dos tios de Catarina, num disco então enviado ao avô, em alto mar, com que o filme termina, persista como uma parte indestruída desse passado. Bem como as falas da mãe de Catarina, visitando-a, em diálogos cheios de ternura e de humor (e de espanto pelos preços das casas em Lisboa, ou pelos telemóveis sem teclas). Como se, mais do que uma fantasia, fosse a expressão de uma intimidade que nenhuma morte destruiu.

As plantas de sua mãe, invadindo e tomando conta da casa, são uma prova para quem ainda duvidasse.

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

DA OBRA FEITA

 

É significativo que Carlos Carreiras espalhe, após as eleições de que saiu vitorioso, gigantescos cartazes onde agradece o favor de o terem guindado de novo ao poder. Aí estão, por todo os recantos do Concelho: «Obrigado Cascais». Começo por aí, visto que agradecer, efusivamente, o resultado de umas eleições em que mais de 50% dos eleitores preferiu não aparecer é, julgo eu, um sinal claro, uma indicação do pouco valor que se dá ao espírito da democracia. Não ponho em causa os resultados. Não contesto a vitória. Os votantes não vieram, viessem. Não se discute, no resultado, a forma da democracia. Mas ter o topete de agradecer a «Cascais» os votos de menos de metade das pessoas, soa mal. Hesito entre classificar este «obrigado» como manipulação ou simplesmente falta de noção.


Porém, o ponto continua a ser a razão por que esses quantos eleitores escolheram Carreiras.

Continua a afirmar-se, tenho ouvido, que há «obra feita»: "Não quero saber de mais nada. Pelo menos, o homem tem obra." Acontece que «obra» é um dos termos mais abrangentes e mais ambíguos que poderíamos imaginar. Obra feita!? Cruzes! Por um lado, é simples agradar aos mais idosos com vacinas para todos, ou com a possibilidade de se ir a casa vacinar a pessoa que não pode deslocar-se; ou acenar com máscaras gratuitas, não interessando ao potencial eleitor como são elas conseguidas. Isto é «obra». Mas a edificação, os prédios, o betão são o que, por maioria de razão, nos parecem obra. As pessoas apreciam, os turistas agradecem.


E esta «obra» vai-se precipitando sem atender a que Cascais valia por uma beleza e por um conforto naturais, sem sufocos nem devastação. Esta obra vai-se precipitando sem atender a que Cascais foi sempre uma cidade moderna, sim, mas com espaços largos e intocáveis de praia e de flora e fauna únicas. Ensinar a estas pessoas, com euros a brilhar nos olhos, que mandam construir desenfreadamente, em nome da habitação, do emprego e do turismo, que destruir um espaço antigo de arvoredo não é compensado por se estender, ao lado dos novos prédios, a romper por todo o lado, uns tapetes de relva com umas quantas árvores novas, é trabalho perdido. Ensinar-lhes que construir junto ao mar terá custos ecológicos que os nossos descendentes irão pagar muito caro, é inútil. Porque do mesmo modo que lhes falta o sentido da história, falta-lhes completamente um autêntico sentido do futuro. Das consequências que a longo prazo advirão da sua obra. Falta-lhes de todo a cultura, o conhecimento, a visão. Já para não falar da estética - mas parece que a muitos agrada ver transformar-se Cascais numa Nova Iorque em miniatura. 

Muitos movimentos de cidadãos, desprezados por Carreiras, apodados por ele de criptocomunistas ou hippies, constituem uma última resistência contra a megalomania:  SOS Quinta dos Ingleses e Fórum por Carcavelos, SOS Parque Natural Sintra-Cascais, a Associação de Moradores da Penha Longa,  a ADA – Associação de Defesa da Aldeia de Juso, os Amigos do Parque das Gerações, os de Birre (GEC), a Associação de Moradores da Areia, a Cascaisea, SOS Costa da Guia, Diz Não ao Alargamento do Aeródromo de Tires. Irá um poder absoluto, intransigente, arrogante e surdo escutar as suas razões?

"Obrigado Cascais"? Por nada, por nada.              

domingo, 19 de julho de 2020

A HUMILHAÇÃO PÚBLICA


Não tendo noção da sua própria tolice, o que me parece próprio de qualquer pessoa tola, uma professora de Português, cujo nome esqueci, veio, feliz da vida, responder a umas perguntas do Expresso, no que seria a entrevista da sua vida. Os tais 15 minutinhos de fama a que todos aspiram.

Acontece que, a uma das questões, reagiu com a sinceridade dos inocentes, ou dos incautos, ou dos ignorantes. Foi mais forte do que ela. Como quem não consegue conter um arroto, confessou que adora ter livros, mas nunca gostou de ler; anda, aliás, a esforçar-se para acabar uma obra de Valter Hugo Mãe, odisseia para a qual se concede o Verão .

Não se tem falado de outra coisa. Tomaram-na como a face visível e triste do estado a que a classe docente chegou, entre nós. Da mesma maneira que, antes, se achincalhou a satisfação do grupo de professores que estivera nO Preço Certo, liquida-se agora a senhora que se rebaixou a este deprimente elogio da ignorância.

A mim, para início de conversa, o caso não espanta. Os professores dos primeiros ciclos e do ensino secundário têm sido,  desde há muitos anos e pela mão de sucessivos ministros dos governos dos partidos que já estiveram no poder, reduzidos à indigência e à precariedade. Uma profissão de tal modo sub-proletarizada e desrespeitada já só pode atrair, das duas uma, ou pessoas cuja vocação aceita os mais infamantes sacrifícios, ou pessoas com pouca qualidade e variadíssimas limitações. Do mesmo modo que, numa certa altura, infelizmente! as humanidades se tornaram a área preferida dos estudantes menos rigorosos e menos exigentes consigo mesmos (os que a escolhiam com o fito de escapar à matemática), também "dar aulas" veio sendo o último recurso de quem nada mais sabe ou quer fazer.

No meio de tudo isto, perturba-me que a candura desta professora seja elevada ao lugar de representação do miserabilismo intelectual e cultural da carreira docente. Porquê? Porque é o apontar o dedo a alguém que não é uma persona pública,  mas um indivíduo que se expôs quase por acidente, com um filho pequeno, a que se referiu na entrevista, e uma-mãe-e-um-pai-e-amigos. As redes vão liquidá-la. Vão trucidá-la. E tenho pena, porque por grave que seja o que disse (e é gravíssimo, nada de confusões), ela é mais uma vítima do que de uma culpada.