Nada faz pensar que escrever acerca de Arday, tanto tempo volvido sobre os acontecimentos (e, mais do que tudo, sobre o seu trágico suicídio) me apresente como a pessoa mais apta a manter-se na crista da informação e do pensamento. Mas, para além do facto de que ter preferido o silêncio quando todos se apressavam a disparar opiniões (e não confundam, prlo amor de Deus vos peço, este meu cuidado, com a crítica aos opinion-makers mais lestos, feita, a propósito da 'Odisseia', por Rodrigo Guedes de Carvalho) me deu tempo para considerar vários ângulos e sopesar os diferentes pesos, numa questão tão delicada e complexa, terrível e espinhosa. Não só isso: é certamente verdade, também, que num blogue de 4a categoria, soterrado nos escombros de uma subcave praticamente invisível, e mesmo sem querer desrespeitar os meus 3 leitores habituais, a urgência dos assuntos se torne um pouco irrelevante - o que me faz sentir, é claro, mais livre e solto para falar do que bem entenda, quando bem me apeteça. Por fim, que, mesmo tratando-se de um assunto que se volatilizou, entretanto, na voragem das notícias a sobrepor-se, sob os holofotes, umas às outras, o "caso Jason Arday" exija uma reflexão política e filosófica intemporal. O caso terá deixado de estar nas bocas, sim, mas o seu significado último permanece.
Há duas leituras opostas (ou tendencialmente opostas), que não deveríamos reduzir a uma tese 1, conservadora, de Direita, e a uma tese 2, humanista, à Esquerda. A primeira tese parece ter toda a importância no âmbito de uma certa concepção de Academia - valorizando a ideia do rigor e da seriedade da dinâmica e do trabalho nas universidades. Segundo essa visão, que não quero nem faz sentido descartar, o prestígio da função académica vive de um distanciamento em relação às ideologias - as quais, se, e em todas as acepções da palavra, aliás, podem estar presentes - e é até preferível que não ocultadas -, nunca deverão, todavia, ter o primado e ser o motor das contratações, do estudo e da investigação. Deste ponto de vista, a universidade cometeu um pecado capital: aceitar, por motivos ideológicos, um professor cujo currículo e cujas publicações não foram exaustivamente investigados. Por outras palavras: que, para diluir a fama de elitista e discriminatória, uma universidade mostrasse demasiada pressa em incluir, sob um fraco exame, um professor convenientemente negro e autista, terá sido um acto indigno e contraproducente. O que venho de escrever, para que não subsistam dúvidas, em nada põe em causa a existência de políticas de inclusão ou a existência de quotas. Elas, porém, não querem dizer que não deva haver uma avaliação profunda das competências de cada candidato para o que se proponha. Concordamos todos - parto do princípio, e se não, temos muito mais para discutir - que uma pessoa cega, excelente quadro, consiga fazer mais e melhor, em muitas áreas, do que a maioria dos seus pares, mesmo dos dotados de visão de águia, mas nunca seria, ainda assim, a escolha ideal para o lugar de cirurgião ou de condutor de veículos pesados. Espera-se de um professor que, independentemento da sua etnia ou da sua condição mental, garanta qualidade, não tenha cometido plágio ou se apresente com uma biografia paralela, mais ou menos delirante. (Aliás, não vejo muitas profissões em que estes indícios não fossem sinais de alerta).
A tese 2 remete criticamente para as motivações e razões das denúncias contra Jason Arday: que, no seu desencadeamento, encontremos um nefando professor racista (ou, como se definiu, um "realista racial"), a defender, sem qualquer fundamento e sem a menor sensibilidade, a ideia de que, na ausência de políticas "facilitadoras" e "permissivas" de inclusão, os negros desapareceriam de todas as actividades não ligadas ao entretenimento e ao desporto, explica em grande parte a tensão e a polarização. Explica, sem dúvida, que uma corrente recalque, para o obscuro inconsciente, as provas de fraude e de mentira compulsiva de Arday, detendo-se, ao invés, no que vê como uma perseguição e uma tentativa de exclusão, dos lugares mais prestigiados da Academia, os que não sejam homens, brancos, hetero. Ou seja: aqui desembocados, ao cabo de séculos de uma luta, em diversas frentes, contra a predominância e a dominação dos que se consideraram sempre os únicos representantes legítimos da cultura ocidental, e os seus líderes intelectuais naturais, eis que tudo indica que, nos postos mais respeitados, nos lugares que formam a nata do poder e do pensamento, nada terá substancialmente mudado.
A morte trágica de Jason Arday, incapaz de lidar com a exposição das fragilidades e falhas e com a devassa da sua vida, tem de nos levar a formular uma equação em que as duas formas de considerar o problema coexistam. Ambas têm toda a razão no que revelam.
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