sábado, 5 de setembro de 2026

ADEUS, SEINFELD

 

Eu tenho um problema com Jerry Seinfeld: infelizmente, é achar-lhe tanta graça. 

Recordo-me de que, nos anos 80 (porventura; não sou particularmente hábil no jogo de propor à memória que situe as lembranças no tempo), vindo, eu, não havia muito, de Moçambique, quando os programas de televisão (como A Visita da Cornélia ou a Gabriela...) ainda me ofereciam o prazer da surpresa, sofri o humor de Seinfeld como uma deleitosa punhalada. As conversas surreais daqueles quatro abriam-me comportas desconhecidas na forma de fazer humor. O sarcasmo acutilante de Seinfeld, as ideias, os projectos, a movimentação física, delirantes, de Kramer, o espírito contundente de Elaine e - guardo para o fim a teferência à minha personagem predilecta - o egoísmo patético de George, o seu hilariante modo de fazer, do insucesso, uma atitude na vida, preenchiam euforicamente as tardes de um jovem retornado, sem planos, sem amigos, sem objectivos. Devo-lhe isto. Não propriamente o não me ter suicidado, mas, com certeza, haver lidado melhor com um princípio de esgotamento.

Daria fosse o que fosse, transcorridos tantos anos, para o ir ver, ao vivo, em Portugal. Teria comprado bilhete, mesmo que fosse caro. Planeara-o com antecedência. Seria um daqueles momentos de reencontro com o melhor do passado, cujas oportunidades se acham raramente e, ao suceder, se iluminam e nos iluminam.

Mas eis que fui cruelmente surpreendido pela sua posição acerca da Palestina. Eis que, inadvertidamente, o ouvi dizer, respondendo a uma pergunta, enquanto caminhava, que a Palestina não existe. Ou, com uma piada de gosto duvidoso, que o assassínio de crianças palestinianas não o preocupa. (Pensará que não passa de propaganda antissemita? ou que que Israel apenas se defende de um cerrado e violento cerco inimigo?)

Escrevi, em outra crónica, que é possível (e fundamental) separar-se o autor e a obra. Lorentz nunca deixará de ter sido um contributo importante na criação da etologia. E por que haveríamos deixar de ler um dos melhores cultores da língua francesa, como o genial Céline? Ou riscar da nossa lista os filmes de Woody Allen, culpado ou inocente?

Mas, de súbito, percebo, sob a desilusão, que, por vezes, na prática, a separação pode não ser tão fácil de se fazer. Pode estar aquém de qualquer tentativa em que nos empenhássemos. Não teria capacidade para ir assistir, neste momento, a um espectáculo de Seinfeld. Parece, aliás, que já se não realizará. Mas não o faria, fosse como fosse. Prevejo que, no momento, sentado numa cadeira confortável, os olhos postos no meu ídolo de outrora, de cada vez que me risse, estaria a arrancar-me gargalhadas insuportavelmente dolorosas. A minha consciência não vem dotada de sentido de humor.

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