sábado, 27 de setembro de 2025

UMA TENTATIVA DE EXPLICAÇÃO DO INEXPLICÁVEL

 O que o Partido CHEGA representa é ambíguo e confuso, como em todas os exercícios onde se tenta definir contornos ideológicos a uma mera dinâmica de ambições e oportunismo. Mas o que é está descaradamente à vista: gente sem princípios nem educação, ressentidos que se manifestam aos berros e com insultos, instalando-se na assembleia como, dizia a minha saudosa mãe, "vilão em casa de seu sogro". 

O fascismo e o nazismo eram guiados por uma weltanschauung, insana, fracturante, opressiva, mas, ainda assim, uma visão do mundo que, à época, atraiu filósofos ainda hoje estudados, como o sinistro e brilhante Heidegger, ou investigadores com uma obra científica importante (e, já agora, merecedora do Prémio Nobel), como Konrad Lorenz. Eram pessoas ética e politicamente más, ou distorcidas, crendo em uma ideologia ignara, mas logicamente consistente. 

Tanto não poderíamos dizer dos membros do CHEGA. Reaccionários, claro, com referências e heranças que se dispersam, desde mal digeridas citações de Salazar, até doutrinas indiscutivelmente nazis, amassadas num fervor de claques de futebol e no espírito do marketing, dos tic tocs, das fake news, da simplificação extrema e da repetição contínua das mensagens. Claro que parte do nazismo alemão já era isso: as hordas, os ressentidos violentos, as tropas brutais. Uma anti-cultura, uma anti-inteligência. 

Seria quase impossível que, num partido onde as lutas internas, as invejas e as traições, mas, sobretudo, ressentimentos opostos e confusos, se movem, não transparecessem, para o exterior, erros de decisão. E isto sem ignorar a eficácia da sua propaganda. Mas os disparates e os tiros nos pés são tão constantes, que se torna um study case compreender por que razão não parecem afectar negativamente o seu eleitorado, fazer pensar duas vezes, levar a um recuo ou a uma hesitação entre os fiéis. 

A resposta fácil e mais vulgarizada tem sido: porque o saco em que o partido faz as suas conversões é o de gente sem instrução e sem horizontes, sem espírito crítico e, por isso, manipulável. Sem dúvida, trata-se de uma razão: quando se constrói um ídolo e se dissemina uma fé, os pés de barro são ardilosamente explicados; quando se defende uma máquina que divide um povo entre os nossos e os inimigos, as críticas e as denúncias proviriam necessariamente de inimigos e, portanto, nunca ultrapassam um viés mental: é tudo mentira, o que eles querem sabemos nós, ou, admitindo que se instale alguma dúvida, nunca a dúvida ganhará o peso de um problema acutilante, corrosivo e desagregador, uma vez que, em última análise - dirão -, os outros fizeram muito pior, foram mais corruptos e maldosos, e foram-no ao longo de cinquenta anos. 

Diria que há dois conceitos da psicologia que ajudam a entender a persistência da fé, apesar de uma realidade provocadora, que insiste em a desmentir sistematicamente. 

Um é o conceito de pertença: quando os seguidores são, em geral, deserdados e desfavorecidos, frustrados, os que já não têm esperança e odeiam a sua vida (a qual representam sob a forma de "o sistema"), nada pode abater a emoção de se sentirem ligados a um grupo, uma espécie de vencidos da vida, sem o talento dos originais vencidos da vida, que se unem para um derradeiro combate. "Agora vão ouvir-nos: aos nossos medos, aos nossos falhanços, à nossa raiva". 

O outro é a dissonância cognitiva. O mecanismo que permite separar, em esferas diferentes, desconectadas entre si, experiências e crenças que, conjugadas, levariam ao colapso daquilo em que acredito. Posso amar os animais, e apreciar um espectáculo de tourada, como se não existisse qualquer contradição. Posso crer em Deus, e fazer do roubo e da violência o meu modo de vida, ou crer numa profecia que não se verifica, sem pôr em causa as fontes da profecia. Posso ter conhecimento das burrices e dos vícios de deputados do CHEGA, e continuar a pensar que, nas suas mãos, o país, um dia, sairá do que tomei como "a miséria e a corrupção em que tem vivido desde o 25 de Abril".

domingo, 14 de setembro de 2025

UMA SUBIDA ANUNCIADA

Do partido do dr. Ventura, André, há duas particularidades a reter: que é um compósito do pior da idiossincrasia portuguesa e que o pior da idiosincrasia portuguesa se revela eficaz no país dos portugueses.

Para começar, trata-se de um "partido de protesto": traduzindo isso para a língua da realidade, significa que cresceu como o ponto de encontro dos ressentidos: os que nunca ninguém levou a sério na política porque eram pouco instruídos, ou porque sacaram uns cursos "inclusivos", em que Portugal se tornou pródigo para, em teoria, oferecer a todos as mesmas oportunidades académicas, enquanto a nova elite estudava em universidades prestigiadas do estrangeiro; os que, provenientes da "província" ou de meios "suburbanos", nunca fariam carreira nos partidos do "sistema", já tomados por aparelhos de universitários que haviam subido nas juventudes partidárias; os pequenos corruptos, sem um discurso ideológica (e moralmente, sobretudo) articulado, que os ajudasse a justificar os seus golpes rasca: furtar malas em aeroportos, caixas de moedas da paróquia, combustível das ambulâncias ou de veículos de bombeiros da agremiação de Bombeiros em que trabalhavam; não pagar impostos ou aldrabar nas declarações. Enfim, isto para dar uma ideia do nível a que nos referimos. 

O 25 de abril criara, por sua vez, milhares de ressentidos. Entre outros, pessoas que retornaram das ex-colónias, com o sonho das grandes paisagens e das praias maravilhosas para que os olhos da memória continuavam a olhar, e de que  se sentiam "despojados", "espoliados": tinham sido traídos; os latifundiários que se escaparam para os brasis, maldizendo comunistas e "esquerdalha"; os eclesiásticos postos em causa nos seus privilégios e na influência sobre o rebanho; e todos os esquecidos do que era o Portugal do Estado Novo, afagando, agora que os filhos podem estudar, a ideia de que antes (quando eles próprios não puderam estudar) era bom, era melhor, havia ordem e segurança. Este é o eleitorado potencial que o Chega despertou e uniu. Este, a que se juntaram, como sempre, os arruaceiros, os jovens estudantes sem objectivo, em idade de votar, que encontram, em Ventura e no seu partido, uma imagem de rebelião com que se identificam: a grosseria, o berrar mais alto, o provocar, o achincalhar, o "é para partir tudo!" - no fundo, o comportamento, entretanto impune e generalizado, que sempre tiveram em aulas, onde viam o professor como o velho que tinham de confrontar e os colegas mais fracos como alvos a perseguir. 

A estratégia do Chega é a não-estratégia de dividir: nós contra os outros (imigrantes, pessoas de esquerda, todos os que questionam o padrão da sexualidade e da identidade de género, por exemplo), e de lançar, sobre esses outros, todas as responsabilidades pela insegurança, pela corrupção, pelos incêndios, pelos males que nos assolam. Acusa-se, deturpa-se, mente-se. As redes são o autêntico poder de condicionamento de mentes menos sofisticadas. 

O que aconteceu recentemente em torno do pretenso festival do hambúrguer, a invenção que foi uma amostra de iliteracia e má-fé, parece exemplar: primeiro, o(correu) a divulgação da notícia falsa; depois, reconhecendo-se o erro, ainda se achou maneira de disparar culpas em todas as direcções: o Presidente fez várias viagens inúteis à custa do erário público (portanto seria fácil crer que se tratava de mais uma); o parlamento escreveu erradamente a palavra, esquecendo o "trema" ("a trema", lamentava-se Rita Matias) e, assim, provocando o equívoco (como se um deputado não tivesse de procurar mais informação, antes de vir para o tic toc); e a estocada final: foi cometido um lapso, de acordo, mas a imprensa, "antidemocraticamente anti-Chega", falou nele "como se tivesse havido um atentado" ou alguma coisa muito grave. 

Dizem que o partido veio subindo nas sondagens, que está à frente da própria AD. 

Há quem se espante?