segunda-feira, 19 de agosto de 2024

ALAIN DELON

 Por alguma razão, não me sentiria bem comigo mesmo, ainda na esfera de reverberação da morte do meu irmão, também levado, sofridamente, por um cancro, se não me pronunciasse aqui acerca de Alain Delon.

Existem, de que me tenha apercebido, duas correntes: a dos saudosos, que choram a partida do homem indiscutivelmente bonito e do bom actor (que outros garantem não ter sido assim tão bom, sequer) e a dos indignados, que fazem questão de relembrar o narcisista de extrema-direita, que - não sei se é verdade - teria batido em mulheres, e nunca reconheceu um filho. Como de costume, e não me orgulho, não consigo incluir-me em nenhum dos lados.

Delon não só era bonito, como a sua beleza marcou uma época. Então não me recordo dos suspiros da minha prima Paulinha que, recém entrada na fase pateta da juventude, assistira ao filme 'A Piscina', com um Alain Delon na sua melhor figura e uma fascinante Romy Schneider? Nem todas as belezas marcam desse modo, e os anos 60 não podem ser revisitados sem a pujança do cinema francês, e sem Bardot, Belmondo e Delon, para referir apenas três ícones de uma cultura cinematográfica pop.

Será pouco. Será o elemento superficial. Ou não, porque o ar de um actor ou de uma actriz definem as imitações que os espectadores farão, o modo de vestir, a pose de parte de uma geração. E também disso se faz o espírito e a imagem de um tempo, como as fotografias nos revelam.

Para além disso, discordo dos que afirmam que nunca foi senão um actor mediano ou medíocre. Diria que é um preconceito da mesma ordem dos que subjazem aos homens que, sobre uma mulher bela, insistirão sempre que se trata apenas de uma mulher bela, nunca inteligente ou talentosa. Comunguei desse preconceito, evidentemente. (Em relação a Delon, não a mulheres belas). Até a minha mãe me chamar, um dia, a atenção para a magnífica representação do jovem Alain Delon em 'O Leopardo', de Visconti. Nunca vira o filme. Tive a oportunidade de o fazer: ensinou-me a olhar para o actor com surpresa.

A sua vida pessoal pode ser ignorada ou esquecida? Não pode. Mas, em primeiro lugar, reivindico a separação, como sempre, entre a obra e a pessoa. Os seus filmes valem por si. Muito bons ou medíocres, não podem, não devem ser medidos pelos actos do realizador ou dos actores.

Que fosse de extrema-direita, confunde-me. Uma pessoa sensível e inteligente nunca será de extrema-direita. É o reino da estupidez, do medo e da ausência da inteligência emocional. Que fosse amigo de Le Pen e votante no partido dele e da filha ajusta-se perfeitamente à biografia do homem, que infelizmente foi, homofóbico e sem respeito pelas mulheres. Mas um homem é um homem - miserável, contraditório, com uma visão do mundo, da vida e dos outros, impregnada de vícios, terrores e péssimas escolhas. E se me parece fácil e linear pensar que nunca me daria com ele, razões várias me levam, hoje, a conviver com pessoas que ideologicamente me fazem estremecer.

A um homem que sofreu, que acabou detestando um mundo, a que, sem dúvida, legou alguma coisa muito boa e muita coisa má, ou terrível, e que já só desejava morrer, obviamente em guerra consigo mesmo, podemos perdoar. Não que o meu perdão sirva, ou faça diferença.  Nâo esquecer. Esquecer nada, esquecer nunca. Mas rever o que, dele, merece que se veja. E lamentar: sentir tristeza pela sua impotência para sentir tristeza pelos outros. Somos todos projectos errados com muito de bom, ou excelentes projectos com demasiados erros e culpa. A morte é sempre perda.

sábado, 10 de agosto de 2024

IRMÃO MAIS VELHO

 Eu gostava imenso do meu irmão. Gostava e gosto, claro. Mas é diferente amar uma pessoa viva e amar a sua memória. A memória não nos agarra fisicamente, não ri connosco ou de nós, e não nos surpreende, porque se limita a repetir o que já experimentámos, só que, nesta forma, transformada em saudade, mais dolorosa mas muito menos nitidamente. Amava-o, portanto: um misto de mito em que se tornam, frequentemente, os irmãos mais velhos, feito a partir das aventuras de que suspeitamos; do mundo jovem, depois adulto, em que queremos penetrar quando somos crianças, mas de que temos, apenas, vislumbres, como a uma janela mágica, que falseia e agiganta o que julgamos estar a ver; de provocação irritante, que somos muito novos para levar a bem; de um humor trepidante; e daquela sanguinidade, composta por diferenças e semelhanças que me fizeram sempre sentir que eu era um dos seus rostos, que ele era um dos meus rostos, como se representasse aquele em que eu me tornaria quando mais velho, como se fosse o José Pacheco do futuro visitando-me numa encruzilhada do tempo.

Meu irmão foi admirável com a minha mãe. Tornou possível que ela ficasse a viver na «sua casinha», evitando, com unhas e dentes, que acabasse num Lar, seu derradeiro terror. Com sacrifício da sua vida, dormindo mal para poder acompanhá-la, cuidando-lhe das refeições e da medicação, às vezes no limiar do exaspero e da depressão, o meu irmão nunca virou costas.

A nossa relação não vogou sempre pacificamente. Demo-nos bem e demo-nos mal: neste amor que às vezes negávamos e que tantas vezes renegámos imiscuíam-se indignações, ciúmes, quase traições. O meu irmão não era uma pessoa fácil, como eu próprio só devo parecer fácil a mim mesmo.

Mas se ele não era fácil, da sua complexidade (emocional, intelectual, ética) fazia parte uma grandeza que tendia a passar despercebida. O seu percurso de jornalista e de especialista em assuntos africanos permitiu-lhe momentos decisivos, muitos dos quais só vieram a ser conhecidos por mim, através de interpostas pessoas, já após a sua morte. Como Secretário da Fundação Pro Dignitate, presidida pela Dra. Maria de Jesus Barroso (até aos terríveis choques que foram o falecimento da Presidente, primeiro, e o encerramento da organização), terá vivido o tempo mais feliz, mais empenhado, mais intenso dos últimos anos, ajudando a proporcionar apoios, negociando decisivamente, no terreno, com líderes desavindos, trabalhando para a Paz. Foi, aliás, um dos mais sérios e abnegados pensadores do que designava por Jornalismo para a Paz. Pensou-o e praticou-o, viajando e dando formação em Cabo Verde e na Guiné-Bissau. 

Não tivemos, durante muito tempo, a necessidade de nos encontrar com regularidade. Nos últimos meses, quando o cancro, já instalado e a multiplicar-se havia muito (escondido por ele que, certamente, desconfiaria, mas nos quis poupar), quando o maldito cancro, escrevia, não podia continuar a ser varrido para debaixo do tapete, reaproximámo-nos. Vivemos, então, tempos horrorosos e maravilhosos: o horror de assistir à rápida degradação física, à dificuldade de se deslocar, às esperas prolongadas, e inúteis, de consultas e de exames, num périplo desgastante pelos hospitais de um sistema público bem intencionado, mas impotente, e a maravilha dessa nossa reaproximação. Conversávamos, lembrávamo-nos, nunca nos faltou assunto, seríamos sempre dois africanos retornados a Portugal, e aos retornados de África nunca falta assunto, almoçávamos no restaurante do casal misto, ela brasileira, ele português, com uma proibida jarra de vinho tinto a forçar a sua presença, manchando o papel que cobria a mesa. Insistia em comprar-me jornais, entre os quais o 'Tal & Qual', que não aprecio, mas me recomendava por causa da crónica, muito interessante, dizia ele, da Rita Ferro. Enviava-me as reportagens que ainda fazia para a Rádio África, as últimas, preciosas, com lapsos de tempo e uma voz enfraquecida, mas sempre de uma informação completíssima e exposta com a simplicidade dos grandes homens que escolhem a modéstia.

Queria sentir-se amado. Cumprimentava todas as pessoas no seu bairro, exagerando nas gorjetas, quer fosse tomar um café ou cortar o cabelo. Fazia questão de me apresentar: É o meu irmão mais novo.

Telefonava-me todas as noites.   

Às vezes, à noite, esperando um seu telefonema, demoro alguns instantes até aperceber-me que já não haverá.