Desde Poe e Doyle (ou, se levarmos a sério a tese de Savater, desde, pelo menos, o Antigo Testamento, onde a história da Casta Susana prefigura e já em latência contém as normas do policial) que se foi estabelecendo um modelo de narrativa sobre resolução de crimes. Ingleses e norte-americanos, mais tarde autores franceses, vieram definindo os contornos, e o desafio agarrou e bastou aos leitores; não se pedia mais: um assassino extremamente inteligente, um investigador excêntrico, com miolos ágeis, aplicados à resolução de assassinatos impossíveis, uma mão cheia de suspeitos num ambiente fechado, e duas competições paralelas, que, paradoxalmente, se confundem: uma entre o criminoso e o solucionador de charadas, mas, sobretudo, outra entre o autor e o leitor. Enganei-te? Fui brilhante? Desviei-te a atenção do essencial? Acreditaste que o assassino era o suspeito que tornei mais provável? Ou, antes do fim, já te aperceberas do truque, da manobra, do indício oculto?
Mais tarde vieram os escritores nórdicos de histórias policiais e nada voltou a ser como era: já havia prenúncios, mas nunca a este ponto a introdução, no romance, de uma vida pesada e complexa, de detectives com problemas psicológicos, de alcoolismo, divórcios, tristezas e dramas profundos. Não demorou até que este modo deviesse a nova fórmula, e se digo fórmula também insinuo que acabou por ser a conjugação de alguns clichés.
Isto assente, estamos de férias, um policial lê-se sempre com prazer e dêmos a vez a uma autora espanhola. Mentira, para já. Tal como "Ferrante", também "Carmen Mola" não é real: um truque de magia, um nome vazio, um pseudónimo que se não sabia a quem fazer corresponder, uma operação de 'marketing'. Até que, no segundo volume da trilogia, se veio a saber (informação revelada na badana) que Carmen Mola é o nome sob que se ocultam três autores, escrevendo em conjunto, Antonio Mercero, Agustin Martínez e Jorge Díaz.
Os clichés, diríamos, estão reunidos e prontos a servir: a chefe de uma equipa, que bebe à tarde e à noite, ou faz sexo, no seu jipe, mais raramente no seu apartamento, em Madrid, com engates de bar (onde vai fazer karaoke), enquanto continua em busca do filho raptado há anos, insuportável situação que ditou a separação entre a Inspectora Elena Blanco e o pai do seu filho, que optou por continuar a vida e ser feliz.
E contudo, quando começamos a ler os romances, primeiro 'A Noiva Cigana', depois 'A Rede Púrpura' (e faltar-me-á o terceiro), muito bem escritos, isto é, literariamente exigentes, convincentes, com um toque de crueldade que nos incomoda, mas a que se não resiste, percebemos que os clichés não servem senão para sinalizar e confirmar um género, porque, na verdade, estas narrativas são literatura na verdadeira acepção da palavra, mas também um jogo de inteligência e suspense. Como se os autores nos dissessem: Mesmo com ingredientes de merda, que já viram centenas de vezes e não faltam em nenhuma despensa - até, na verdade, uma criminosa enviada para seduzir um polícia e, no fim, uma vez descoberta, lhe diz: "Pode ter começado como uma manobra, mas, a partir de certa altura, apaixonei-me de facto, fui sincera" -, vejam bem que pratos de luxo somos capazes de cozinhar.
Carmen Mola, que não é Carmen Mola, oculta três autores que descobriram o método perfeito de trabalhar, a três, como se fossem um, produzindo policiais cultos e intensos.