sexta-feira, 1 de novembro de 2024

UM ABRAÇO AO AMORIM

 

Como sou um sportinguista de coração, mas não de sofrimentos cardíacos, posso apresentar-me na qualidade de um dos raros adeptos do Sporting com o espírito justo para compreender um lado e outro.

Por um lado, como todos os Leões (se é que a denominação me não fica larga), sinto-me triste. Não desesperado, não choroso; não arrepanho cabelos. Não vagueio por túneis de insónia. Mas é verdade que, tendo o meu filho, quando o Sporting perdia mais jogos do que ganhava, aos dez anos, desertado para o FCP (aliciado pelo padrinho), passei a ter de enfrentar mais isoladamente as sucessivas derrotas, a travessia da ditadura de Bruno de Carvalho, a vergonha do ataque a Alcochete. 

A chegada de Rúben Amorim foi, pois, uma revolução benéfica. Em todos os aspectos: as escolhas e os contratos bem feitos, o plano de acção, a construção de uma equipa. A humildade e a retórica exemplares. O Sporting tornou-se no que era. Mesmo um adepto longínquo como eu, amante rendido, sim, mas, ainda assim, longínquo, percebeu o orgulho a bater em si, o prazer, que não conhecia, ou não deste modo, de assistir a um jogo, de ver o Gyökeres a marcar golos ou os rivais eternos a embater num grupo fortíssimo.

Por outro lado, compreendo inteiramente a decisão de Amorim. Direi sempre que se tratou de uma escolha profissional, não ética. Pelo amor de Deus! A fidelidade a um clube de futebol não deve estar submetida a um imperativo categórico, nem o adeus terá consequências que superem o domínio do jogo. Fico impressionado com o que tenho ouvido proclamar: que Amorim se vendeu; que a despedida revela uma falha na sua integridade moral; que é uma traição. 

Só me entristece pensar que talvez o Sporting não encontre ninguém à altura. Que a aura dos últimos tempos se desfaça. Que, porventura, uma época que tão bom início teve, possa não ter a conclusão que prometia.

Mas, se tenho algumas palavras a enviar a Rúben Amorim, são: obrigado por tanto. 

Que me orgulhes, agora, como treinador português a trabalhar "lá fora".